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O improviso selvagem

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Muita coisa cabe num disco de uma banda que se diz “omnívora”: cabem sessões de piano e violinos como cabe eletrónica pura, cabem inícios e fins, cabem nascimentos e mortes, cabe desânimo e esperança. É assim “Brighter Wounds”, que Ryan Lott - ou Son Lux - fez depois de ver um filho nascer nos Estados Unidos de Trump e um grande amigo ser levado pelo cancro. Essa dualidade está por todo o lado, como estão as verdades que foi descobrindo no processo. “Mente-me lentamente / Preciso que o faças para te ouvir dizer algo que faça sentido”

Quantas verdades universais cabem em precisamente 44 minutos de música? Façamos a experiência. Os pais querem o melhor para os seus filhos (“Eu quis um mundo melhor para ti / Eu queria um mundo melhor para ti / Se eu não suportar vê-lo, tu vais?”, em “Forty Screams”). A nostalgia é muitas vezes confundida da procura da felicidade (“Como é que nos sentimos naquela fotografia / E como é que nos voltamos a sentir assim?”, em “Dream State”). E há sempre duas maneiras (pelo menos) de ver a vida, ou de ver a morte (“Tens sorte por ser novo / O futuro na tua forma / Azarado por ser novo/ Começar tão perto do fim”, tudo versos de “Young”).

Poderíamos continuar a estudar detalhadamente tudo o que compõe “Brighter Wounds”, o quinto disco do projeto/banda Son Lux, e mais verdades universais e duras encontraríamos. E há uma explicação para isto: “Brighter Wounds” apanha o seu mestre e criador, o compositor Ryan Lott, numa altura de transições em que testemunha inícios e fins da maneira mais pessoal possível. Em pouco tempo, Ryan Lott viu nascer o seu filho e morrer um grande amigo, levado pelo cancro.

As experiências acabam por se refletir a cada segundo que passa de “Brighter Wounds”. A elas somam-se algumas preocupações extra. O filho de Ryan é uma criatura pequena e dependente, mas além disso chega na era Trump (e ainda há pouco tempo os Son Lux lançaram o EP político “Remedy”) e por isso o pai está especialmente preocupado: “Os medos normais que acompanham a paternidade foram compostos por uma nova realidade assustadora - o filho de Lott nasceu pouco depois do dia das eleições”, lê-se no site dos Son Lux, compostos além de Lott pelo guitarrista Rafiq Bathia e o baterista Ian Chung.

Provavelmente por isso, a canção que abre o disco, “Forty Screams”, trata de inícios e começa por explorar esses medos e ansiedades. Lott espera que o seu filho “suporte a escuridão”, que seja “um sonhador”, que se suje e tenha “pó nos joelhos”. Assegura, sobretudo: “Eu quis um mundo melhor para ti”. É uma espécie de crescendo poderoso que parece preparar-nos para algo maior. Os coros são fantasmagóricos e a voz de Lott é frágil mas segura como sempre.

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Nem sempre vale a pena tentar encontrar tendências em “Brighter Wounds”, como nos quatro trabalhos que o precederam e compõem a discografia do projeto Son Lux. Os temas passam do íntimo para o universal. Mas o som de três indivíduos que são confessos consumidores “omnívoros” de música torna a compreensão do seu estilo, a sua compartimentação, um desafio. Junta-se o gosto pelo “improviso selvagem”, como os próprios descrevem.

O resultado é, obviamente, variável. Segundo Lott, no processo de criação dos Son Lux primeiro é criado um mundo próprio, uma espécie de ecossistema, onde depois se verifica qual a canção que poderia existir lá. “Tentamos casar as forças do meio acústico, naturalmente, com as forças da eletrónica. Muitos dos nossos elementos começaram com uma pessoa a tocar instrumentos num quarto”, contam à Pop Matters.

Graças a essas experiências, temos a batida e os coros épicos, tipo grito de guerra, de “Dream State”, uma espécie de caos controlado por uma batida consistente, e logo de seguida “Labor”, um dos momentos mais melodiosos e comoventes do disco. À terceira canção, para algo completamente diferente, o piano e os violinos aparecem e sugerem uma balada. “Os meus braços famintos imploram-te.” Está encontrada a primeira verdadeira canção de amor.

Durante boa parte do tempo tentamos não perder o fio à meada e seguir-lhe os passos, tentamos ser omnívoros como Lott e companhia e absorver o que é difícil de absorver de passagem - este “Brighter Wounds” é para digerir lentamente, tendo sempre presente a importância dos inícios e dos fins. A meio, “Slowly” pede: “Por favor tem cuidado com o que dizes / Posso morrer assim”. E depois: “Mente-me lentamente/ Preciso que o faças para te ouvir dizer algo que faça sentido”.

“All Directions” perde-se, por vezes, no meio das experiências; chega a pontos verdadeiramente melodiosos, noutros pinta-nos o vazio. É como se nos mostrasse o passado e o presente do seu amor. E ali é apenas um eco. “Não fomos bonitos uma vez? Não éramos os bonitos?” (Em inglês é mais certeiro: “Weren’t we the beautiful ones?”)

Depois de ouvir “Brighter Wounds”, o espetro de registos é tão amplo como o das emoções, o que faz parecer que é preciso referir cada canção e oferecer-lhe a mesma dedicação. Pelo meio tropeçamos com mais uma daquelas verdades universais, em “Aquatic”: “É tempo de abandonar a corrida / Não levar nada daqui em diante / Devemos isso a nós próprios / Enterrar o ontem”. Como em “Surrounded”: “A história elimina-se / Estamos agarrados a outra coisa qualquer”.

Como os princípios e os fins são importantes para Ryan Lott, a última canção do disco chama-se “Ressurection”. E nela ele canta assim: “É isto que se sente na ressurreição / Do outro lado”. E há uma nota de esperança na sua fragilidade tão exposta. “Fora do dia mais escuro, e dentro da noite mais clara.”