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Os dias D, da dança - o desembarque artístico na Frente Atlântica

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O festival Dias de Dança volta a contagiar as cidades do Porto, Matosinhos e Vila Nova de Gaia com a febre da dança contemporânea, entre 26 de abril e 13 de maio, numa maré artística que vai avançar pela Frente Atlântica com 35 espetáculos

Alto e começa o baile! Estão de regresso os Dias da Dança (DDD), festival internacional organizado conjuntamente pelos municípios do Porto, Matosinhos e Vila Nova de Gaia, com o intuito de trazer para a Frente Atlântica as marés criativas mais desafiantes do bailado contemporâneo. Ao longo de 16 dias, entre 26 de abril e 13 de maio, há 35 espetáculos para ver num total de 63 apresentações, 15 em estreia absoluta e 13 apresentados pela primeira vez em solo nacional, numa programação na qual convivem artistas consagrados e nomes emergentes.

Com epicentro no Rivoli e no Campo Alegre, a febre da dança alastra-se a outros espaços das três cidades embaladas pelo festival, como o Teatro São João, o Coliseu Porto, Serralves, o Teatro do Bolhão, o Teatro Municipal de Matosinhos Constantino Nery, a debutante Casa da Arquitectura, o Armazém 22 em Vila Nova de Gaia, entre muitos outros, numa lista em que se incluem vários pontos do espaço público. Porque a dança não tem barreiras e sai à rua, no ritmo certo de um evento-charneira do panorama nacional.

A terceira edição do festival DDD coloca o foco na diversidade de estéticas e abordagens da dança contemporânea, com projetos artísticos provenientes de 14 nacionalidades. Um conjunto de 11 masterclasses, 4 workshops para artistas e 6 festas juntam-se a um cartaz vibrante, onde figura também o encontro internacional de artes performativas “International Network for Contemporary Performing Arts” (IETM), realizado ineditamente no Porto, entre 26 e 29 de abril, subordinado ao tema “Other Centres - Paths, Perspectives and Practices”. Este congresso deve contar com a presença estimada de 500 a 700 artistas de todo o mundo, transformando a cidade, nas palavras do diretor artístico do festival Dias da Dança, Tiago Guedes, “na capital mundial das artes performativas durante um fim de semana”.

Olhando para a programação internacional, destaque para o espetáculo da coreógrafa marroquina Bouchra Ouizguen que, em conjunto com a companhia nacional norueguesa de dança contemporânea “Carte Blanche, apresenta, em estreia nacional, o espetáculo “Jerada”, no dia 28 de abril, no Grande Auditório do Rivoli. A peça de abertura do certame, no dia 26 abril, pelas 22h, no auditório do Campo Alegre, fica a cargo de Lea Moro, com o seu novo trabalho “(B)reaching Stillness”, um “espetáculo minimal sobre o barroco e o que pode ser o detalhe do corpo”, descreve Tiago Guedes, coordenador artístico do festival e diretor do Teatro Municipal do Porto. Por sua vez, a companhia francesa “Dyptik” leva até ao Auditório Municipal de Gaia a criação “Le Cri”, em estreia absoluta, no dia 10 de maio, pelas 22h, espelhando a forma como “quando a emoção se torna num objeto de consumo, o corpo experimenta o grito”, como se pode ler na sinopse.

Relativamente aos criadores nacionais, a incontornável Olga Roriz apresesenta “A Meio da Noite”, um espetáculo de homenagem ao realizador Ingmar Bergman, em estreia no Teatro São João, nos dias 27, 28 e 29 de abril. O Teatro Municipal Constantino Nery vai receber, no dia 28 de abril, a “Enchente” da jovem coreógrafa Luísa Saraiva, uma artista que fez toda a formação na Alemanha e que recentemente regressou para o Porto, refletindo nesta obra sobre os comportamentos físicos de grupos e multidões. Ao olhar para a vasta programação, destaque ainda para João Fiadeiro - “um dos novos faróis da dança contemporânea portuguesa”, como assinala o diretor artístico do festival -, artista que apresenta, no Auditório Municipal de Gaia, “From Afar It Was An Island”, levando o público, no dia 3 de maio, até um lugar onde o princípio e o fim se confundem.

Um projeto federador entre municípios que viviam de costas voltadas

A presente edição surge num formato mais “musculado”, como adjetivou Tiago Guedes, fruto também do reforço orçamento, num ano em que o valor total atinge os 582 mil euros, mais 225 mil relativamente a 2017. “O desafio de ir desenvolvendo este festival tem acontecido com grande entusiasmo e cumplicidade artística entre os responsáveis das várias instituições”, afirma o dirigente, recuando no tempo para recordar a génese do DDD. “Quando iniciámos este projeto, em 2015, era apenas um foco de programação do Teatro Municipal Rivoli, que através de um desafio do antigo vereador da cultura da Câmara Municipal do Porto, Paulo Cunha Silva, se transformou num convite efetuado aos municípios vizinhos, para trabalhar num projeto federador da Frente Atlântica”.

A comprovar a união entre as três cidades organizadoras (Porto, Matosinhos e Vila Nova de Gaia) estiveram presentes na conferência de imprensa de apresentação da programação, realizada no espaço Mala Voadora, no final de tarde desta quinta-feira, os presidentes das respetivas autarquias, Rui Moreira, Luísa Salgueiro e Eduardo Vítor Rodrigues.

O edil do Porto referiu-se ao festival Dias da Dança como um “projeto muito desafiante, que tem vindo a aglutinar sinergias” entre “municípios que viviam de costas voltadas”, envolvidos durante anos em “conflitos que serviam melhor as capas dos jornais”. Durante o breve discurso, Rui Moreira apontou o evento como um “ponto de passagem e paragem para programadores de todo o mundo” e garantiu não se importar que lhe digam que a cidade só quer festas. “Mais vale festas do que funerais”, atirou o presidente da Câmara Municipal do Porto, principal investidora, em termos financeiros, do DDD.

Na mesma toada, Luísa Salgueiro, autarca de Matosinhos, evidenciou a “capacidade de mostrar ao país os aspetos que unem as três cidades e ultrapassar uma fase da vida autárquica que, tantas vezes, dava notícia pela competição entre os municípios”. A presidente da Câmara Municipal de Matosinhos fez também alusão a outras vertentes preponderantes do festival, como por exemplo na “promoção do território” e na “regeneração urbana”. Para a eleita socialista, iniciativas como o DDD constituem um “fenómeno e um motor de crescimento económico, assim como são importantes no papel da inclusão social”.

Já o congénere de Vila Nova de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues, acredita que esta é uma “parceria virtuosa”, um “sinal de que a região trabalha em conjunto” e considera o festival “um verdadeiro marco para o desenvolvimento das cidades e da região”.