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Seis poetas escolhem seis poemas para quem não gosta de poesia (mas também para quem a ama)

Poesia é “o pouco tempo que levas entre chegar a casa e pores-te a dançar”. É íntima, diária, comum e aparentemente sem importância. Este artigo é especialmente para as pessoas que não gostam de poesia (mas também para as demais): pedimos aos poetas Cláudia R. Sampaio, Matilde Campilho, Nuno Moura, Pedro Mexia, Raquel Nobre Guerra e Valter Hugo Mãe que escolhessem seis poemas para quem não lê habitualmente poesia. Esta quarta-feira assinala-se o Dia Mundial da Poesia. Vamos dançar?

Depoimentos recolhidos por Helena Bento, Marta Gonçalves e Soraia Pires

A escolha de Cláudia R. Sampaio

Daniel Faria, sem título (retirado de “Homens que são como lugares mal situados”, Fundação Manuel Leão, 1998)

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar

A justificação de Cláudia R. Sampaio para a sua escolha

Poeta pouco conhecido, Daniel Faria morreu demasiado jovem mas deixou-nos poemas que confirmam uma maturidade assombrosa aliada a uma visão mística e visceral. Com uma poesia que ilumina, numa incessante busca e contemplação e numa serena exaltação dos mistérios do homem, este poema não deixa ninguém indiferente.

A escolha de Pedro Mexia

Jorge Sousa Braga, “Portugal” (retirado de “De manhã vamos todos acordar com uma peróla no cu”, Fenda, 1981)

Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse
oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de
África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de
rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do
Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada
de ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca

A justificação de Pedro Mexia para a sua escolha

Este poema tem duas características que podem aproximar as pessoas da poesia. A primeira, o facto de falar de algo que lhes pode dizer alguma coisa: a relação com Portugal e a sua história de uma forma que é estranha porque não é propriamente patriótica, mas também não é antipatriótico, que parece sentimental e irónica. Por outro lado, porque tem uma linguagem totalmente acessível e muito inventiva. Ou seja, é difícil alguém dizer que não compreende este poema, mas ao mesmo tempo não significa que a linguagem do poema se aproxime da prosa. É uma linguagem com imagens inesperadas, como a história da piscina municipal de Braga e de Camões a salvar “Os Lusíadas”, com um tom um bocadinho provocatório - talvez seja excessivo chamar-lhe assim. Não tem aquela solenidade que algumas pessoas associam à poesia e que as afasta. Estas duas característica que Jorge de Sousa Braga tem, sobretudo neste poema, podem reconciliar, pacificar as pessoas com a poesia. Ou não, nunca se sabe. “Portugal” é um poema ao qual as pessoas reagem bem, é sempre dos mais elogiados e mais lidos em público, porque se prestava muito a ser lido - pela extensão e ritmo - mas também pelo tom pouco habitual nos poemas que tratam as questões de Portugal, que são sempre bastante solenes. E ele trata-o de uma forma totalmente desenvolta e que no fim chega mesmo a ser sentimental. Talvez este seja um poema um bocadinho como os hits nas bandas pop, por ser o mais conhecido do autor. Não sei se ele se fartou, como acontece com as bandas, mas sei que é o poema do Jorge Sousa Braga que as pessoas memorizaram.

A escolha de Raquel Nobre Guerra

Rui Costa, “Clássico nada original” (retirado de “Mike Tyson para Principiantes”, Assírio & Alvim, 2017)

Ian Curtis (Joy Division)

Ian Curtis (Joy Division)

FOTO GETTY IMAGES

A voz dos Joy Division no carro
que por azar é novo
saber que o mundo é a continuação
de Vila Nova de Gaia
há mulheres com pólvora entre os dentes
para lá das montanhas e montanhas
para lá das montanhas.
o sofá era atanómico.
o gato comi-o. foi a melhor maneira
que encontrei para o levar comigo.
alguma roupa, dois ou três objectos.
as recordações pões numa caixa de
madeira com desenhos de cavalos. Depois,
vais ao café por volta das onze horas
e contas o dia no escritório as
pernas da nova secretária. Ris muito e pensas
que quem ama a luz não pode ter medo
da escuridão

A justificação de Raquel Nobre Guerra para a sua escolha

Estas poucas linhas conservam a medida encantatória do que se quer de um poema: legitimar a intimidade entre autor e leitor, dizer no lugar de querer dizer. Rui Costa não presta contas à impossibilidade colocada diante da linguagem, maçando o leitor com oscilações de temperatura e febres maneiristas, antes atribui significado às coisas e ao quotidiano pelo modo como estes o afectam, elevando-os a uma respiração colectiva de sentido — “(…) saber que o mundo é a continuação de Vila Nova de Gaia”. O trabalho da linguagem não se fica pelo relato e representação de uma interioridade estetizada, mas pela mediação de um segredo partilhado no património comum dos afectos: subjugar a escuridão e suas assembleias de culto - “quem ama a luz não pode ter medo”. O canto do homem lúcido às sereias.

A escolha de Matilde Campilho

Wislawa Szymborska, “Vermeer” (retirado de “Um Amor Feliz”, Companhia das Letras, 2011)

Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum
atenta no silêncio pintado
dia após dia derrama
o leite da jarra na tijela,
o Mundo não merece
o fim do mundo.

A justificação de Matilde Campilho para a sua escolha

Seria difícil achar um poema só para um dia só. Um dia pode valer doze poemas, ou nenhum. O dia da poesia é como o dia do pai, ou o dia da mãe, o dia dos mortos ou o dia da árvore. Ironicamente ou não, calha de facto mesmo em cheio no dia da árvore. Não me parece que seja por acaso, já que a poesia também brota e dá sombra, ao mesmo tempo que ilumina. Mas o dia da poesia, tal como todos aqueles referidos lá atrás, encaixa na verdade em todos os dias. Não é só por ser dia do pai que eu vou celebrar o meu pai - celebro-o todos os dias. Celebro a minha mãe a toda a hora também, assim como celebro as flores, as folhas, os frutos e os mortos. Cada passo dado numa vida celebra qualquer coisa que nos pertence e da qual descendemos, celebra também tudo aquilo que não nos pertence mas que nos é dado a observar, celebra a normalidade e ao mesmo tempo o transcendente. Cada passo, um acontecimento. E a poesia, como qualquer gesto, não foge à regra das pequenas peripécias diárias. Às vezes um poema surge para traduzir um passo dado em falso. Outras vezes surge para ilustrar um episódio comum, diário, aparentemente sem importância. De vez em quando manifesta-se sem aviso, numa palavra só, e essa palavra serve para sossegar toda a tribulação naquele minuto. A poesia - como o golo num copo de água, como um vento no asfalto, como uma tinta vermelha que descasca numa parede - é só a tradução do mundo. Às vezes simplificada, outras vezes aumentada. Outras vezes de aparência estática e banal, e aí é que costuma revelar-se o segredo. Como neste poema de Wislawa Szymborska: à primeira vista são só seis versos curtos, nenhuma rima, apenas uma descrição daquele tão famoso quadro que está a esta hora exata pendurado numa sala em Amesterdão. Mas leia outra vez. Dos seis versos descende a mulher, a paleta do pintor, o século XVII encostado ao século XXI, a proteína do leite, a mão do artesão que afagou a tigela, a sala do museu, o movimento permanente de um líquido branco que não para de verter. E o mundo, sempre em movimento, atento ao fim do mundo mas negando-se a ele. Com coragem, sem vergonha. Não há um poema só para um dia só, mas um dia inteiro pode desdobrar-se num poema. E o dia não acaba.

A escolha de Valter Hugo Mãe

Adília Lopes, “A Elisabeth foi-se embora (com algumas coisas de Anne Sexton)” (retirado de “Dobra: Poesia Reunida, 1983-2007”, Assírio e Alvim, 2009)

Eu que já fui do pequeno almoço à loucura
eu que já adoeci a estudar morse
e a beber café com leite
não posso passar sem a Elisabeth
porque é que a despediu senhora doutora?
que mal me fazia a Elisabeth
a lavar-me a cabeça
não suporto que a senhora doutora me toque na cabeça
eu só venho cá senhora doutora
para a Elisabeth me lavar a cabeça
só ela sabe as cores os cheiros a viscosidade
de que eu gosto nos shampoos
só ela sabe como eu gosto da água quase fria
a escorrer-me pela cabeça abaixo
eu não posso passar sem a Elisabeth
não me venha dizer que o tempo cura tudo
contava com ela para o resto da vida
a Elisabeth era a princesa das raposas
precisava das mãos dela na minha cabeça
ah não haver facas que lhe cortem o
pescoço senhora doutora eu não volto
ao seu antiséptico túnel
já fui bela uma vez agora sou eu
não quero ser barulhenta e sozinha
outra vez no túnel o que fez à Elisabeth?
a Elisabeth era a princesa das raposas
porque me roubou a Elisabeth?
a Elisabeth foi-se embora
é só o que tem para me dizer senhora doutora
com uma frase dessas na cabeça
eu não quero voltar à minha vida

A justificação de Valter Hugo Mãe para a sua escolha

A poesia de Adília Lopes é um manifesto pessoalíssimo. Ainda que possa ser lida à luz de muita Mariana Alcoforado ou Sophia, ela acontece profundamente sem previsão, genuína e indomável. O poema de Adília que mais me comove é feito de nervos. Leio “A Elizabeth foi-se embora” como um protesto amoroso, feito de uma perigosidade algo cómica, nessa dimensão trágica que nos pode provocar o riso, e parece-me sobretudo o desamparo de uma mulher que se verá eternamente como menina de bonecas, preparada para brincar com chá encenado e gatinhos. Adília Lopes é a poeta dos gatos e das baratas, não deixa de ser uma certa Alice construindo o seu mundo de fantasia que, como é bom de ver, é feito de tanta aventura e susto. Neste poema, que nos chega tão simples e sem pose, encontro essa menina algo perdida mais do que furiosa, encontro-a tristíssima. Porque isso nos provoca um riso nervoso, não sei. Depois de algumas leituras, a mim, só me faz chorar. Todo o livro “O Decote da Dama de Espadas”, onde se inclui este poema, é lindo. Uma casa de bonecas viva.

A escolha de Nuno Moura

Nuno Moura, sem título (retirado de “Nova Asmática Portuguesa”, Mariposa Azual, 1998)

getty

é de origem entronca e de pais separos
e teve mais de noventa mil pessoas delírias
no estádio das antas para o lançamento
do seu último livro de poesia.

seguiu em turné por paranhos bessa
e depois são luis pelo sul
tendo uma andança de três ponto um milhões
só em vendas estádias.

somando a viagem recitária
as exportações para o resto do mundo
e o residual fotocópio
totobola para cima de quinze ponto sete milhões
de livros.

só em receitas publicitárias com a telecele pêtê cêpê
renô náique sequipe e ibêéle
fala-se de valores na casa dos champálimôs.

portugal é um país de poetas ricos.

a poesia dá dinheiro a portugal.

A justificação de Nuno Moura para a sua escolha

Poesia é chegar a casa. Poesia é o pouco tempo que levas entre chegar a casa e pores-te a dançar. Poesia é brincar e rir. E silêncio, onde às vezes se escrevem umas palavras. Quem escreve poesia deitado de costas, com os braços esticados, escreve no teto do silêncio. O que menos interessa na poesia é escrevê-la no teto do silêncio. Os exércitos do Kaváfis dominam a noite há muito tempo. Poesia é brincar e rir e se para nós não há corpos que se toquem, mesmo assim, caros leitores, vamos dançar.