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Requiem pela fêmea. Para que se veja uma mulher onde está uma mulher

Meredith Monk (na foto em primeiro plano) é uma das grandes compositoras contemporâneas

Foto BRILL/Getty Images

Falamos pouco de mulheres. Neste mundo de sacralização da masculinidade viril e objetificação da mulher, adoramos adjetivar. Arremessamos verbos tão duros e cruéis como pedregulhos. As palavras atropelam-se, e ferem. “Podre de boa”. “Comer”. “Porta-aviões”. Não sejamos hipócritas

Com maior ou menor elegância, quem nunca pecou, atire a primeira pedra, como diria alguém que olhava para uma prostituta e via, antes de mais, uma mulher.

Demasiadas vezes olhamos para uma mulher e não vemos uma mulher. Este plural não é apenas masculino. Abrange o todo da sociedade, como o demonstram pequenos exemplos do quotidiano. Só para nos situarmos na área da música, alguém é capaz de indicar uma compositora a quem seja reconhecido talento semelhante e projeção similar à de um qualquer compositor, mesmo mediano? Há quem faça um outro tipo de pergunta: mas há mulheres compositoras dignas desse nome?

Em setembro de 2015, a revista conservadora inglesa “The Spectator” publicava um artigo cujo título constitui, por si só, um tratado de misoginia: “There’s a good reason there are no great female composers”. (Há uma boa razão para não existirem grandes compositoras). Depois de nomear compositoras como Clara Schumann (1819-1869), Fanny Mendelssohn (1805-1847), Amy Beach (1867-1944) ou Dame Ethyl Smith (1858-1944), o articulista não resiste à perversidade de perguntar quem estaria disponível para se maçar a escutar talentos tão inferiores. Uma “coisa” jamais será capaz de criar algo de interessante e útil para a humanidade.

A sul-coreana Unsuk Chin foi compositora residente da Casa da Música em 2014

A sul-coreana Unsuk Chin foi compositora residente da Casa da Música em 2014

Johannes Simon/ getty

Na Casa da Música (CM) tem sido feito um importante trabalho, apesar de ainda escasso, destinado a alterar esta perspetiva distorcida sobre a presença das mulheres na música. Há uma grande similitude com o que acontece na arte em geral. Muitas mulheres representadas nas telas dos museus. Poucas mulheres presentes nas coleções dos museus. Apesar de só a partir de fevereiro de 1997 ter sido autorizada a presença de instrumentistas femininas na Vienna Philharmonic, as orquestras sinfónicas têm cada vez mais mulheres como intérpretes. Já a presença de compositoras no reportório é apenas residual.

Como tudo quanto se relaciona com mudança de paradigma evolui devagar, porventura de modo a evitar sobressaltos sociais, a Casa da Música anunciou há dias a realização de um festival no feminino, com cinco concertos dedicados na íntegra a mulheres compositoras, maestrinas e solistas femininas, mas que acontecerá apenas em setembro do próximo ano.

Joana Carneiro tem uma carreira consolidada como maestrina

Joana Carneiro tem uma carreira consolidada como maestrina

Tiago Miranda

É uma iniciativa da maior relevância. Numa altura em que há cada vez mais mulheres a dirigir orquestras, como é o caso de Joana Carneiro, com a já inegável excelência das inúmeras solistas existentes um pouco por todo o mundo, as compositoras continuam a flutuar num universo à parte. Discriminado. Colocado na sombra. Desvalorizado.

E, no entanto, há hoje um número impressionante de mulheres a produzir grandes trabalhos de composição nos diferentes géneros musicais. A Casa da Música já teve como compositoras residentes a sueca Karin Rehnqvist, 61 anos; a finlandesa Kaija Saariaho (66), cuja ópera “L’Amour de loin”, foi, em fevereiro de 2016, a primeira composta por uma mulher a ser interpretada num século de existência da Metropolitan Opera de Nova Iorque; a portuguesa Ângela da Ponte (34); a sul coreana Unsuk Chin (56) ou a russa Alina Ibragimova (32) como artista associada.

Nas grandes salas de concerto começam a aparecer obras daquelas compositoras de referência que já passaram pela CM, tal como de Florence Price (1887-1953), a primeira afro-americana a ter uma sinfonia interpretada por uma grande orquestra, a Sinfónica de Chicago; a islandesa Anna Thorvaldsdottir, 40 anos, de quem a Deutsche Grammophone editou um álbum inteiramente dedicado à sua obra. Mas há também Meredith Monk, 74 anos, como houve no passado Barbara Strozzi (1619-1677), ou Francesca Caccini (1619-1677), entre muitas outras.

Carla Bley, compositora na área do jazz

Carla Bley, compositora na área do jazz

Frans Schellekens/REDFERNS

Ser mulher não tem implícito nenhum atributo de qualidade. Ainda esta semana Donald Trump nomeou Gina Haspel como diretora da CIA, uma veterana que não apenas permitiu a tortura de detidos suspeitos de terrorismo, como participou na decisão de destruir uma gravação em vídeo sobre os abusos e violações da lei cometidas.

O contrário também é verdade. O género não pode constituir um fator de desvalorização. A realidade é bem diferente. Se da clássica migrarmos para o jazz ou para a música popular, não é difícil perceber que a projeção conseguida por compositoras como Carla Bley e Maria Schneider, no jazz, está longe de corresponder à qualidade de um trabalho tão inovador, quanto surpreendente.

Joni Mitchell, agora com 74 anos, é, no âmbito da música popular, um dos exemplos maiores da menorização de uma imagética de composição em função da sua autoria feminina. O grau de sofisticação em termos de composição e arranjos de álbuns como “Blue”, de 1971, “Hejira”, de 1976, “Mingus”, de 1979, colocam-na num patamar qualitativo a léguas de distância de alguns dos seus mais celebrados contemporâneos. Ainda assim, numa lista dos 100 mais influentes artistas de rock and roll de todos os tempos, elaborada pela revista “Rolling Stone” em 2004 (atualizada em 2011) a partir de consultas a um painel de 55 especialistas, Joni Mitchell ficou no lugar 64, a seguir aos Metallica e antes de Tina Turner. Nos primeiros trinta lugares há apenas uma mulher: Aretha Franklin na nona posição.

Joni Mitchell ficou no lugar 64 na lista dos 100 mais influentes feita pela “Rolling Stone”

Joni Mitchell ficou no lugar 64 na lista dos 100 mais influentes feita pela “Rolling Stone”

FOTO LARRY HULST/MICHAEL OCHS ARCHIVES/GETTY IMAGES

Persiste em nós um mar imenso de nuvens a toldar a vista e a deformar a realidade. Enquanto no imaginário coletivo a imagem prevalecente continuar afetada por essa incapacidade de aceitar a mulher como ser inteiro, respeitado na plenitude das suas capacidades, continuaremos enrodilhados na invenção de qualificativos para a fêmea. Por mais imaginativos e carinhosos que finjam ser, não deixarão nunca de transportar a mácula depreciativa reservada ao que é tido como inferior. É decisivo reinventar o olhar. Para que se veja uma mulher onde está uma mulher.