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Michael Dobson: “Shakespeare não é um escritor de documentários históricos”

rui duarte silva

É um dos maiores especialistas mundiais na obra de Shakespeare e defende que conhecer a biografia não é o melhor caminho para compreender a obra do autor de “Macbeth”

Há mais de 200 anos, o historiador inglês George Stevens observava que tudo quanto sabemos de Shakespeare se resume a um pequeno conjunto de factos: nasceu em Stratford-upon-Avon, aí constituiu família, foi para Londres, onde se tornou ator e escritor, regressou a Stratford, fez testamento e morreu. Para Michael Dobson, responsável pelo Shakespeare Institute da Universidade de Birmingham, isso será curioso, embora pouco rigoroso, até porque duvida que Shakespeare, sobretudo interessado nas suas personagens, tivesse algum interesse pela biografia de Shakespeare.

Tem percorrido o mundo a estudar as produções de Shakespeare nos teatros nacionais. O que é que concluiu?
Há mais pessoas a fazer Shakespeare noutras línguas e não apenas em inglês. Vemos algumas produções sul-coreanas, e há muitas circunstâncias em que aquele não é o Shakespeare que se veria, depois de traduzido, no Japão, na Roménia, na Rússia ou na China.

Perde-se muito nas traduções?
O problema de fazer Shakespeare em inglês é que soa a velho de 400 anos. Traduzir uma peça pode fazer com que Shakespeare soe a novo. É redescoberto noutras línguas. Isso dá aos encenadores uma tremenda liberdade. Creio que alguns encenadores ingleses sofrem muito com esse peso da tradição. Há uma frescura e uma relação direta com o presente que pode ser conseguida com novas traduções.

Estamos a falar de um autor que já morreu há 400 anos mas que continua muito ativo. Como explica isso?
As peças de Shakespeare não são sobre Shakespeare a gritar: “Olhem para mim, vejam como sou um bom dramaturgo.” Ele abdica completamente da sua autoria em favor das personagens, dos atores. Escreve um teatro popular, que é ao mesmo tempo literário, num momento feliz para o teatro. Mesmo que não se compreenda uma em cada três palavras, continuará a conseguir-se extrair imenso das peças dele. Por exemplo, retire o diálogo de “Romeu e Julieta” e acrescente-lhe apenas música e verá que funciona perfeitamente como um ballet.

Como se posiciona em relação às críticas que fazem aos encenadores que subvertem por completo “Macbeth”, por exemplo, que pode ser situado no Bronx, num bairro de São Paulo ou num mundo punk?
Fico feliz, desde que seja bem feito, desde que haja ali uma verdadeira convicção. Shakespeare não é um escritor de documentários históricos. “Macbeth” era um texto novo, com guarda-roupa moderno, quando foi escrito. Há um largo espectro de escolhas. Pode ser tratado num verdadeiro ambiente escocês medieval. Pode ser feito em qualquer lado, com uma vertente mais política. Patrick Stewart representou-o há dez anos como uma espécie de Estaline negro. A produção de Nuno Carinhas no TNSJ é em vários aspetos muito clássica. É muito austera. Não nos distrai com efeitos especiais. E, contudo, é bastante difícil, mas tem uma grande simplicidade. É intimista, na tradição das produções de teatro de estúdio. Preto e branco. Nada para nos distrair da linguagem.

Quando pensamos em feiticeiras, fadas, fantasmas ou algo sobrenatural, tendemos a evocar Shakespeare. O que é que o inspirou?
Há um importante livro de feitiçaria escocês que ele leu. É um livro sobre o que outras pessoas pensavam sobre bruxas e fadas. Shakespeare apenas queria algum bom material dramático. Também leu “Demonology”, um panfleto escrito pelo rei James I. Não precisamos de acreditar em bruxas para achar aquele material interessante do ponto de vista dramático.

Que fontes utilizou ele para escrever dramas ambientados em Roma e na Grécia?
Para as peças romanas é sobretudo Plutarco. Usa a tradução de Thomas North [1535-1604] da tradução francesa de Jacques Amyot de “As Vidas de Plutarco”. Dramatiza tudo aquilo, mas é muito fiel a Plutarco. Shakespeare frequentou uma escola elisabetiana, o que significa que aprendeu latim e provavelmente leu tudo sobre aquelas épocas. As mais importantes fontes são as crónicas, de onde retirou grande parte da informação sobre a Escócia e a Inglaterra, “As Vidas de Plutarco”, de onde tirou material para “Júlio César” e “Coriolano”, e a poesia de Ovídeo, em particular as “Metamorfoses”.

Embora tenha deixado textos com perto de um milhão de palavras, não nos restam mais do que umas 14 palavras escritas pelo seu próprio punho. Não sobreviveu uma única carta ou uma nota...
Temos algumas páginas de uma peça obscura intitulada “The Book of Sir Thomas More”, que foi banida por levantar questões políticas sensíveis para a época. Nunca foi representada. Há ali três ou quatro páginas que parecem ser a escrita do próprio Shakespeare. Curiosamente, é uma das raras ocasiões em que menciona Portugal. Escreve uma cena belíssima em que há um tumulto e aparecem vários londrinos a dizer: “Os estrangeiros estão a ficar com os nossos empregos. Mandem-nos embora.” Thomas More sustém a revolta e faz um grande discurso, dizendo-lhes que se tivessem de viver na Alemanha, na França, na Flandres ou em Portugal seriam considerados estrangeiros. Como é que gostariam de ser tratados? Creio que a única outra peça em que Shakespeare menciona Portugal é “As You Like It”, quando diz [cita de memória] “my affection hath an unknown bottom like the bay of Portugal”. Enfim, um amor tão profundo como a baía de Portugal...

Há alguma evolução no modo como o público recebe agora Shakespeare?
Mais noutros locais do que em Inglaterra. No resto da Europa há muito mais liberdade. É quase como uma improvisação de jazz à volta da obra. As peças de Shakespeare são tão conhecidas que acaba por se poder fazer com elas o que se quiser. No Japão há muitas versões de “Romeu e Julieta” com membros de boys bands como protagonistas.

Quais são as conclusões mais recentes dos estudos feitos sobre a componente religiosa ou a sexualidade de Shakespeare?
Esses são, sem dúvida, temas importantes. Nos anos 80, a crítica tendia a ser muito marxista e materialista. No final dos anos 90 havia críticos a dizer para esquecermos a questão religiosa e o facto de que para Shakespeare não haveria isso da espiritualidade. Mas é claro que há.

E quanto às indefinições sobre a sexualidade?
O desejo em Shakespeare continua a ser um tópico fascinante, que suscita muito interesse. Não é de surpreender que quando há uma percetível crise de masculinidade, ou uma abertura a novos tipos de sexualidade, as pessoas encontrem raízes para isso em Shakespeare. Particularmente nas comédias. “Noite de Reis” é, definitivamente, uma das mais importantes comédias de Shakespeare, em parte porque lida com mulheres que se apaixonam por mulheres. Há toda uma tensão sexual e inúmeras possibilidades. É uma grande peça de teatro. Na época não havia propriamente o conceito de homossexualidade. Tinham diferentes práticas sexuais, algumas entre o mesmo sexo, outras não. Creio que não está em questão que nos sonetos se articula muito desejo pelo mesmo sexo, tal como sexo cruzado.

Percebe-se que não considera muito útil trabalhar os dados biográficos de Shakespeare... Não são importantes para melhor compreender a obra?
Não creio. A vida de Shakespeare é o menos interessante em Shakespeare. Não era um escritor romântico. Nem autobiográfico. Shakespeare não está muito interessado em Shakespeare. Está interessado em Júlio César. Há detalhes ocasionais em algumas peças que podem ter ressonâncias no que sabemos sobre a sua vida. E depois? Tudo isso é uma distração. O que importa são as peças e não que roupas Shakespeare usava quando as escreveu.