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Era uma vez na América

Rupert Holmes em Nova Iorque em 1978

Rupert Holmes em Nova Iorque em 1978

Ebet Roberts

Em 1973, a Epic deu a Rupert Holmes um contrato e um orçamento de 25 mil dólares para gravar o seu primeiro álbum. Durante 10 meses, ele e Jeffrey Lesser (produtor, diretor, arranjador, engenheiro de som...) fecharam-se nos estúdios da CBS, apenas abrindo a porta para deixar entrar hordas de músicos que achavam ser absolutamente necessários para cada canção (8 violoncelistas ou 12 violinistas, por exemplo — poucos ou nenhuns compositores orquestravam e dirigiam as suas próprias músicas com o virtuosismo de Holmes), e ali criaram um obra-prima chamada “Widescreen” (1974). “Jeffrey e eu chamámos ao nosso estilo film rock. Também uso uma expressão que vem da idade de ouro da rádio: movies of the mind. O estúdio é o nosso palco, cada letra é o argumento de um filme, o enredo de uma narrativa ou a construção de uma personagem. Cada decisão era tomada porque servia o guião de cada história e não porque servia o álbum”, conta Holmes, citado no livreto desta edição.

Em 2015, Jim O’Rourke referia-se assim à primeira música do álbum, ‘Widescreen’: “É uma das grandes personificações da forma como a mistura de som pode chamar a atenção para aqui, sombrear a iluminação ali, insinuar-se por um lado, aparecer de surpresa por trás... É uma das poucas canções que me fez cair da cadeira.” ‘Widescreen’ começa com um sintetizador, mas acaba numa cama orquestral com um baixo elétrico à Stanley Clarke entre os versos; na segunda faixa, ‘Terminal’, um piano acompanha a orquestra numa história em que o protagonista é tentado a trair a mulher com quem está casado; na terceira, o segundo-saxofone de uma banda de Glenn Miller quer ser solista e improvisar em ‘Stardust’, mas acaba na rua a tocar ‘O Meu Chapéu Tem Três Bicos’ por umas moedas. O disco fecha com ‘Psycho Drama’, 10 minutos de film noir radiofónico para seis vozes.

“Widescreen” teve pouco êxito, mas captou a atenção de Barbra Streisand, que convidou Rupert e Jeffrey a produzirem-lhe um álbum no qual cantou quatro temas de Holmes. Foi suficiente para a Epic renovar o contrato para mais um disco. “Rupert Holmes” foi uma sequela de “Widescreen”, até no grafismo (e, em 1975, uma sequela muito mais digna do que as de “True Grit” ou de “The French Connection”), com citações musicais do anterior, um pasticcio de Beatles, inspirações em Simon & Garfunkel e a esperada dose de Raymond Chandler e Dashiell Hammett, mas já se mostra menos inventivo e mais constrangido por imposições da editora — queriam uma banda a tocar em todos os temas, de forma a facilitar a sua transposição para palco, o que nunca aconteceu. O terceiro disco para a Epic já nada tem a ver com os anteriores. A editora não quis mais “filmes”, quis “singles”. Obviamente, Rupert chamou “Singles” ao álbum e editou-o em 1976. Os três estão reunidos neste “Complete Epic Recordings”, mas a Cherry Red comete o crime de não reproduzir os comentários/sinopses que Holmes escreveu para cada canção nos dois primeiros álbuns [uma estrela a menos por isso]. Contudo, inclui muitos extras e, pela primeira vez na discografia de Rupert, gravações ao vivo. No caso, da sua primeira digressão, em 1978 (as introduções às canções são em si um espetáculo de stand-up).

Em 1974, Rupert Holmes reinou sobre Steely Dan, Sparks, Harry Nilsson ou Randy Newman, mas depois entrou na liga Barry Manilow e foi sempre a descer (em 1980, no “Se7e”, Miguel Esteves Cardoso chamava-lhe “um sapo impossível de engolir, uma tragédia viscosa”). O seu último álbum saiu em 1994 só no Japão. Passou a dedicar-se a escrever peças de teatro, musicais, séries de TV, livros (o primeiro, “Where the Truth Lies”, foi adaptado para cinema em 2005 por Atom Egoyan). Tem 71 anos e a sua vida um dia dará um filme. E no final desse filme descobriremos que antes de “Widescreen” tocou numa banda chamada Fargo.