Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Um personalizável mundo novo - viver sem passado em “Velocidade de Escape”

Perdido no agora, entre a ânsia do futuro e a saudade do passado, um homem (Pedro Carreira) tenta libertar-se das amarras em "Velocidade de Escape"

João Tuna

A peça “Velocidade de Escape” leva-nos até um tempo sem memória e um mundo dominado por algoritmos. Será possível viver sem o passado? Somos o que fomos ou o que seremos? O espetáculo, em estreia, sobe ao palco do Teatro Carlos Alberto, entre esta sexta-feira e domingo

Imagine uma vida sem passado. Uma existência sem as amarras das relações interpessoais, despojada da saudade, do remorso, das promessas rasgadas, dos sonhos quebrados nunca concretizados e de todos os dias idos e revividos, como um filme, no quarto solitário da memória. Imagine uma realidade onde apenas cabe o agora, no qual tudo é artificialmente mais leve, zen e pragmático. Como uma espécie de Matrix ou um personalizável mundo novo. Os amigos de longa data são esquecidos e substituídos por convivas selecionados através do algoritmo de uma qualquer rede social. A casa é esvaziada de objetos e torna-se num sistema computadorizado, preparada para responder engenhosamente, em tempo real, às necessidades e estímulos de cada um, criando uma ideia de felicidade apaziguadora.

Fica anulada a força gravítica capaz de prender os nossos pés aos lugares - exteriores e interiores - por onde deambulamos outrora com passos incertos. Será possível viver sem o passado, arrumá-lo numa caixa e descartá-lo? E, se o fízessemos, contínuariamos a ser quem somos? Somos o que fomos ou o que seremos? Estas e outras reflexões servem de mote para a peça “Velocidade de Escape”, uma coprodução do coletivo Visões Úteis e do Teatro Nacional São João. O espetáculo, em estreia absoluta, é levado à cena entre esta sexta-feira e domingo, no Teatro Carlos Alberto, no Porto.

O palco está transformado numa sala de estar minimalista, onde uma lareira crepitante é projetada em vídeo para aquecer o encontro entre três personagens, sentadas e aparentemente prontas para dar início a um agradável serão de conversa. O anfitrião, Pedro (interpretado por Pedro Carreira), dá as boas-vindas a dois jovens afáveis e solícitos (Mafalda Banquart e Tiago Araújo), escolhidos através de um sistema artificial e com a missão de o entreter. Assim parece, pelo menos, numa fase inicial. Mas, à medida que a trama se desenrola, o público é levado até ao paradoxo existencial do protagonista, um homem desejoso de se libertar do lastro acumulado ao longo da vida, mas enredado numa “matrioska” da memória e incapaz de se desfazer de uma caixa onde guarda todos os resíduos do passado.

Pedro trava uma batalha interior, comandando a ânsia frívola de usufruir plenamente o presente e combatendo os fantasmas de um tempo pretérito - sempre imperfeito - que o define. Será possível viver sem esses espectros? Podem as recordações ser embaladas no interior de uma caixa de cartão, da qual nos desfazemos de um momento para o outro?

João Tuna

“O nosso drama é estarmos sempre com saudades do passado e medo do futuro”

No final de um dos ensaios, Ana Vitorino, diretora artística de “Velocidade de Escape” (em parceria com Carlos Costa e João Martins) explica que a peça espelha “a forma como nos relacionamos com o arquivo, com o lastro e com aquilo que vamos acumulando”. O espetáculo sucede a “Teoria 5S”, tem o olhar virado para o futuro, mas obriga a contemplar a relevância do passado. “Será que seríamos felizes sem isso ou levaria-nos-ia a uma descaracterização?”, questiona a cocriadora, para quem o rompimento total com a memória pode levar a uma “perda de densidade e de personalidade”, acrescentando que “o nosso drama é estarmos sempre com saudades do passado e com medo do futuro”.

Apesar de este “mundo escapiano” - como lhe chamam os criadores da peça - parecer retirado de um guião de ficção científica, criado pela companhia portuense Visões Úteis, com mais de vinte anos de atividade, Ana Vitorino frisa que “não é um espetáculo futurista, é apenas o reflexo de um presente exagerado”. Um exemplo, sustenta a responsável, “é quando o Facebook nos sugere que sejamos amigos de alguém, com base nos interesses comuns”. Deste modo, complementa, “deixa de ser necessário ter relações ou cumplicidades pessoais, porque podemos simplesmente estar a conversar com convidados, selecionados por um qualquer algoritmo, que preenchem os critérios para passar um bom serão e nos fazer companhia”.

A peça, para maiores de 12 anos e com a duração aproximada de 60 mins, estreia esta sexta-feira, pelas 21h, é apresentado no sábado, às 19h, e repete às 16h de domingo.