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“Germinal” mostra a geração de 90 através do olhar de Cabrita Reis

"I Have Seen the Light", obra de António Olaio

D. R.

Galeria Municipal do Porto mostra pela primeira vez, a partir da noite desta sexta-feira, exposição construída a partir do núcleo Cabrita Reis na Fundação EDP, com obras iniciais de artistas como Joana Vasconcelos, Noé Sendas, António Olaio, Rui Moreia ou João Pedro Vale

De Cabrita Reis pode dizer-se tudo. Até que é um visionário e um artista capaz de ver longe o que outros ainda nem sonham. Só isso explica a extraordinária qualidade da coleção que soube construir a partir do início dos anos de 1990, ao adquirir obras a jovens a quem era ainda difícil de colar o rótulo de artista. Alguns por serem ainda estudantes, outros por não terem ainda completamente definido o rumo a tomar.

Cabrita Reis apostou neles. Confiou quando era difícil confiar. Deu-lhes esperança e motivou-os. Alguns deles, com o passar do tempo transformaram-se em referências da mais recente arte contemporânea portuguesa.

É o resultado desse encontro feliz entre um colecionador perspicaz e jovens em início de carreira que agora pode, e pela primeira vez, ser visto. Cabe à Galeria Municipal do Porto, ao Palácio de Cristal, inaugurar na noite de hoje uma mostra de três dezenas de artistas integrados no que passou a ser conhecido como núcleo Cabrita Reis na Fundação EDP.

Entre as mais de 400 obras de 70 artistas de que é feito este núcleo, no Porto estão expostas algumas dezenas. Quando a exposição seguir para Lisboa não ocorrerão grandes diferenças. Apenas as resultantes da adequação ao espaço e a integração de um ou outro trabalho que não tenha sido possível preparar a tempo.

Na Galeria Municipal estão representados Carlos Bunga, Rosa Carvalho, Nuno Cera, Vasco Costa, Pedro Gomes, Paulo Mendes, António Olaio, Rodrigo Oliveira, Noé Sendas, João Tabarra, Vasco Araújo, Rui Calçada Bastos, Rui Moreira, Francisco Queirós, Luís Nobre, Paula Soares, João Pedro Vale, Pedro Cabral Santo, João Paulo Feliciano, João Louro, Ana Pinto, Carlos Roque, Rui Toscano, Rui Valério, Paulo Brighenti, Hugo Canoilas, João Ferro Martins, Gil Heitor Cortesão, Silvia Hestnes Ferreira, José Loureiro, Francisco Tropa, Joana Vasconcelos e Jorge Queiroz.

Pedro Gadanho, diretor do Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, dpertencente à Fundação EDP e curador desta exposição com Ana Anacleto, recorda ao Expresso como a preparação desta mostra constituiu “um mergulho nas peças da coleção, já que não são mostradas há uns vinte anos”.

O percurso até desembocar no conjunto que agora pode ser visto no Porto passou por uma inventariação de mais de 400 peças fechadas em caixotes. Oi necessário recuperar algumas. Outras os próprios artistas já não se recordavam delas e outras ainda colocavam complexos problemas de montagem. É o caso, em particular, de “Barco Negro!”, de João Pedro Vale. Uma instalação que colocou complexos desafios para a sua montagem e permitirá, de resto, numa das iniciativas do serviço educativo, analisar o percurso artístico do autor. Trata-se de um escultor que “interroga a história, as lendas, a propaganda e as noções de identidade através do uso de formas culturais e folclóricas”.

Pedro Gadanho chama a atenção para a circunstância de a generalidade dos artistas representadas, e não obstante a sua juventude quando concretizaram as obras expostas, terem seguido um rumo que pode já ser lido naqueles primeiros trabalhos. Um dos exemplos paradigmáticos é Joana Vasconcelos. Cabrita Reis compra-lhe uma obra quando Joana era ainda estudante, “mas já ali estão todos os principais elementos que vão depois caracterizar “a sua expressão artística.

Há situações, como a de Ana Pinto, por exemplo, representada com uma obra, mas que acabou por abandonar uma carreira de artista para se dedicar à crítica de arte, que agora exerce em Berlim.

Penetrar naquela espécie de arca foi “uma redescoberta” par Pedro Gadanho, com algumas surpresas, como a proporcionada pela obra de Noé Sendas, “uma belíssima peça que nunca tinha visto”.

O título escolhido – “Germinal” – resulta do facto de Cabrita Reis ser alguém muito próximo de todos aqueles jovens artistas, a quem acompanhava e neles percebia novas ideias, novas capacidades expressivas. Deste modo, refere Pedro Gadanho, “está aqui a essência da geração de 90. Melhor, o início dessa geração, que hoje inclui gente muito reconhecida”. Trata-se de um conjunto de artistas com predominância na arte portuguesa.