Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Este ano os Dias da Música pintam-se com as cores de Bosch

Universal History Archive

Os trípticos de Hieronymus Bosch vão inspirar o festival que decorre entre 26 e 29 de abril no CCB, em Lisboa. Mas as suas pinceladas atingem também o resto da programação, até maio

Hieronymus Bosch gostava de trípticos. Pintou pelo menos dezasséis, dos quais oito se conservam intactos. Um deles, "Tentações de Santo Antão", encontra-se em Lisboa, no Museu Nacional de Arte Antiga. Outro, "O Jardim das Delícias", no Museu do Prado, em Madrid. Se mais há, só estes foram objeto de vários tratados. Perturbadores e profundamente humanos, o século XV forjou-os, mas toda a arte posterior alimentou-se deles. É essa a ideia que percorre a programação de abril e maio do CCB, e com ela a dos próprios Dias da Música em Belém, este ano intitulados "Castigos, Culpas e Graças Divinas", um "festival em forma de tríptico a partir de Hieronymus Bosch" que recria, na sua estrutura, o formato do "Jardim das Delícias" e as suas quatro faces. Mas já lá vamos.

"Tirai Os Pecados do Mundo" é o nome do ciclo em si mesmo, da invasão de Bosch no CCB, que a 10 de abril se inicia com uma secção de cinema que, sob o lema "Sete Pecados Mortais", vai mostrar sete filmes de perdição. Entre eles, "A Festa de Babette", de Gabriel Axel; "De Olhos Bem Fechados", de Stanley Kubrick; "O Ódio", de Mathieu Kassovitz; "As Férias do Sr. Hulot", de Jacques Tati: "O Quarto Mandamento", de Orson Welles. A 15, o documentário "El Bosco. El Jardín de Los Sueños", de José Luis López-Linares sobre uma ideia do historiador Reindert Falkenburg, vai refletir sobre "O Jardim das Delícias", na sequência de duas importantes conferências de Pilar Silva Maroto, do Museu do Prado, e de Joaquim Oliveira Caetano, do Museu Nacional de Arte Antiga.

Os Dias reinventados

Passado o furor do cinema, entra-se no da música. E aí, os Dias da Música em Belém recebem o grande destaque. Mas o festival também foi alvo de mudanças em relação a edições anteriores. Desta feita, haverá só quatro salas a funcionar, além da de conferências. Mais artistas internacionais, mais orquestras e obras tocadas de forma integral. O princípio de tudo passa-se no Festival Jovem, a 21 de abril, uma recriação do que até agora foram os "Mini Dias da Música", que concentra cinco orquestras sinfónicas e quatro escolas de música de referência, e que este ano tem ligação direta a uma causa: toda a receita de bilheteira - num total de mil bilhetes) vai para a Global Platform for Syrian Students, associação criada pelo ex-presidente da República Jorge Sampaio para financiar os estudos superiores a jovens refugiados sírios.

Já na quinta-feira 26 começam os Dias propriamente ditos, desta feita tomados pela inspiração de Bosch, em especial do seu "Jardim das Delícias", o tríptico que, fechado, apresenta mais uma face - a imagem da Terra. E como quem entra no mesmíssimo Museu do Prado e se depara com esta obra monumental, a primeira parte intitula-se "Portada: A Expulsão do Paraíso" e dá a ouvir nada menos que "A Criação" de Haydn. Na sexta-feira 26 abre-se o "Painel da Esquerda: O Inferno e os Castigos" - e lá dentro ouvimos Berlioz e "A Danação de Fausto", e vemos o "Auto da Barca do Inferno", de Gil Vicente, leitura teatral com música de Fernando Lapa.

Sábado 28 é dia de conhecer o "Painel Central: Pecados e Tentações Terrenas", e por isso não admira que Bizet ou Kurt Weill tenham lugar, assim como os Madrigais Eróticos, o espetáculo "Veneza e os Limites da Moralidade" pelos Músicos do Tejo, o "Auto da Barca do Purgatorio" de Gil Vicente, o "Gianni Schicchi", de Puccini - e Scarlatti, Liszt, Schubert, música flamenga do século XV. No domingo, o "Painel da Direita: As Graças divinas e a Reconquista do Paraíso" é revelado, com Schumann, Haydn, Rameau, Cantatas de Bach, Mussorgski, Richard Strauss, Rachmaninoff, o "Stabat Mater" de Pergolesi.

Este ano, os Dias terão presenças internacionais e nacionais de peso, como Ton Koopman, Wolfgang Holzmair, a Orquestra de Câmara Alemã, Thomas Michael Allen, Peter Kellner, Artur Pizarro, Ana Quintans, Pedro Carneiro, as Voces Caelestes, a Orquestra XXI, a Orquestra Gulbenkian, o Ludovice Ensemble, Os Músicos do Tejo, La Reverdie e António Rosado, entre muitos outros. Cá fora, ouvem-se espirituais negros, música hindú, tango, fados, música tradicional portuguesa e sons vindos do Brasil.

Em maio (18 e 19), o ciclo Bosch prossegue com "O Jardim das Delícias" coreografado por Marie Chouinard e interpretado pela sua Companhia, com música original de Louis Dufort.