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Que não fique quedo o brinquedo

d.r.

Hello Kitty, He-Man, Barbie. Podia ser um trio de assaltantes num universo paralelo dos Watchmen. Mas foram essencialmente figuras que conquistaram um espaço e um tempo muito próprios junto de diversas gerações. E se a estes juntarmos os universos (rivais) de “Star trek” e “Star Wars”, entre outros, temos matéria mais que suficiente para recordar o processo criativo que atravessou décadas e criou um imaginário único no mundo dos brinquedos transformados em objeto de culto, como revela um novo documentário saído da Netflix

Reinaldo Serrano

Coleciono monopólios. Dito assim, pensar-se-ia que me interesso particularmente pelo mundo da alta finança. Tal seria verdadeiro se eu próprio possuísse finança suficientemente alta para me interessar por tal mundo. Mas o meu mundo é o dos outros monopólios -- plural do singular jogo de mesa nascido no ano distante de 1935.

Lembro-me de, na fase adolescente de uma vida bem mais lúdica que atlética, disputar campeonatos de Monopólio e, até, jogar a solo quando a gripe ou a constipação impediam deslocações extra-domiciliárias.

A compra, venda ou troca de propriedades, o aluguer, as hipotecas, a aquisição de casas e hotéis, a passagem pela casa de partida e receber dois contos (dois mil escudos), o ser preso pelos ditames da sorte, os impostos da caixa da comunidade, o estacionamento livre e ser dono do Rossio ou da Rua Augusta perdurarão para sempre como memória de horas sem fim frente a um cartão desdobrável, repleto com o nome de ruas, estações ferroviárias e taxas de água, luz e luxo.

Sorte e azar completavam a passagem do tempo, que se renovou ao longo de mais de 8 décadas, pelo que sou hoje o orgulhoso proprietário de monopólios sobre as séries "Family Guy", "Dr. Who", "The Big Bang Theory", os Beatles, 007, "Star Wars", "Spiderman" e por aí fora, sem esquecer um interessante exemplar de um Monopólio de estante, ou seja, em forma de livro.

Num tempo em que os petizes de tenra ou madura idade oscilam entre os ecrãs de um computador, de uma consola ou de um telemóvel, soará anacrónico lembrar uma era onde pouco ou nada disto existia, e onde os jogos de tabuleiro eram referência obrigatória na área do entretenimento. Prova e lembrança disso é uma muito curiosa série documental produzida e exibida pela Netflix intitulada "Os Brinquedos da Nossa Infância".

d.r.

Com uma primeira temporada garantida, o que a série propõe -- e alcança -- é a (re)descoberta de objetos e jogos que se tornaram imagens de marca numa primeira fase e imagens de culto numa segunda fase. Cada um dos episódios com cerca de três quartos de hora de duração é uma viagem única pelo universo do colecionismo e, sobretudo, dos criadores de brinquedos, jogos e memorabilia de toda a espécie que perdura na memória e no sótão do nosso imaginário.

Saber que o criador da bonecada Star Wars era um obscuro fabricante de brinquedos de Cincinnati constitui, por si só, um notável ponto de partida para uma aventura que se tornou no maior sucesso de "merchandising" associado ao cinema; saber do valor astronómico -- para não dizer obsceno -- alcançado por alguns objetos de estética duvidosa, é razão para assombro; conhecer o fascínio que roça o fanatismo de alguns colecionadores é motivo de reflexão; conhecer o que esteve por trás da criação de Barbie, He-Man, G.I. Joe ou Transformers é motivo de descoberta. E assistir à ascensão e queda de alguns símbolos no universo dos brinquedos é tão interessante quanto o usufruto e a influência que que tais símbolos proporcionaram e tiveram junto do grande (e pequeno) público.

Cada uma das história tem o seu próprio interesse e a narrativa, deixada sobretudo a cargo dos protagonistas -- é, no mínimo, cativante. Cada imagem é uma surpresa, cada história é uma revelação, cada caso é um ícone de uma cultura que não diminuiu em nada o número de adeptos, bem pelo contrário, casos há em que as chamadas novas gerações prolongaram a herança do interesse adquirido e passado por parte das gerações... passadas.

O grande mérito desta série documental (pelo menos nos seus quatro episódios iniciais) é fornecer um olhar único de proximidade junto dos criadores de verdadeiros ícones da cultura popular. Além do mais, a série tem, ela própria, um criador de méritos firmados: Brian Volk-Weiss dirige a maior produtora e distribuidora de especiais de comédia nos Estados Unidos; a Comedy Dynamics foi responsável por espetáculos de nomes tão conhecidos da comédia de "stand-up" como Bill Burr ou Aziz Ansari. Mas foi com o polémico Louis C. K. e com o não menos controverso David Chappelle (um dos apresentadosres dos óscares) que viu o seu mérito consagrado com a conquista de dois Grammy para Melhor Álbum de Comédia.

A experiência de Brian Volk-Weiss é uma mais-valia neste seriado, uma vez que os momentos de humor (doseados e não forçados) dissipam qualquer sentimento demasiado nostálgico em que era fácil cair, não fosse esta preocupação com o equilíbrio da narrativa. Tudo somado, "Os Brinquedos da Nossa Infância" são uma maneira adulta de passar em revista o pretérito quase perfeito de uma época em que o contacto físico com os jogos e o salutar convívio entre jogadores dispensava auscultadores que custam fortunas, armas que miram alvos virtuais ou desafios que estupidificam ainda mais os voluntários ociosos.

A segunda temporada da série promete ser tão apelativa quanto a primeira: estejamos, pois, atentos, às revelações que nos esperam quando revivermos o passado em Lego ou na companhia da Hello Kitty, dos Transformers ou (deve ser imperdível!) Star Trek - O Caminho das Estrelas.

Ah! E joguem Monopólio. O velhote que de cartola vos saúda na imagem de marca do jogo tem ainda muitos coelhos para revelar...