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Liam Neeson: “Nixon não se demitiu por causa do Watergate”

Em “Mark Felt — o homem que derrubou a casa branca”, o ator irlandês interpreta aquele que ficou para a história como o “garganta funda”. É uma nova visita do cinema ao caso watergate, desta vez contada não do ponto de vista da imprensa, mas pelos olhos do ex-agente do FBI que denunciou tudo. o filme estreou-se anteontem

“Mark Felt — O Homem Que Derrubou a Casa Branca” levou longos anos de trabalho ao jornalista e cineasta Peter Landesman e foca-se no antigo diretor-adjunto do FBI que denunciou o Caso Watergate ao “Washington Post”. Liam Neeson retrata-o como um homem sombrio, ambíguo, magoado por não ter conseguido chegar ao poder. De facto, Felt fora talhado para suceder a John Edgar Hoover na liderança do FBI. Frustrado por ter sido ultrapassado na última curva, traiu o edifício que toda a vida ajudara a construir. E fez cair Nixon.

Afinal, pode o Caso Watergate resumir-se à derrota profissional de um só homem?
Acho que as coisas podem ser colocadas nesses termos como ponto de partida. O Felt é um tipo criado por uma máquina complexa para chegar ao poder. Um aluno obediente e exímio que passa décadas na sombra como nº 2 à espera que chegue a sua vez. Quando John Edgar Hoover morre e a chefia do FBI fica em aberto, ele é o sucessor natural, o mais bem preparado, não há qualquer dúvida nisso. Só que Felt é esquecido pela Administração Nixon, que o encosta a um canto, sabendo que ele sabe demais. Quem entra para o lugar é um militar [L. Patrick Gray], ex-comandante de submarinos. Isso magoa-o profundamente. Felt toma aquilo como um ataque à sua equipa, um insulto pessoal. Sentindo-se traído, decide trair. E desata o nó de Watergate.

Hesitou em aceitar este papel?
Confesso que pensei logo em três ou quatro atores da minha geração que talvez pudessem interpretar Mark Felt melhor do que eu, que nem sou americano. Gosto de fazer este exercício antes de avançar para um papel definitivamente. Coloco-me no lugar dos diretores de casting. É uma brincadeira e uma maneira de me pôr à prova.

O que é que o convenceu?
A atitude de Peter Landesman, o realizador do filme, e o seu trabalho obstinado, documentado ao pormenor. Não nos conhecíamos, e Peter contactou o meu agente. Já tinha lido alguns dos seus trabalhos — ele é jornalista de investigação — e vi o filme “Concussion” [“A Força da Verdade”, 2015], que não me serviu de grande ajuda, pois trata de futebol americano e eu não percebo nada desse desporto. Quando nos encontrámos, falámos obviamente sobre o Caso Watergate, um escândalo que no seu tempo passou ao lado da minha vida. Eu cresci na Irlanda, tinha vinte e poucos anos quando aquilo aconteceu, queria lá saber... Apercebi-me então da minha ignorância sobre este famoso episódio da história americana que todos julgamos conhecer.

O que é que mais lhe interessa em Felt enquanto personagem?
A sua ambiguidade. Tentar entender aquele homem é como andar debaixo de nevoeiro cerrado. Ele é como uma personagem de Shakespeare. Porque é que ele fez o que fez? Por respeito à verdade? Ou porque quis vingar a sua derrota a nível profissional? O argumento do Peter — isso é claro no filme — não o reconhece como um manipulador e encontra nele uma nobreza que, por prudência, eu não partilho. Não tenho a certeza disso. Quer dizer, eu acho que aquilo que ele fez foi tremendo, mas não há heroísmo algum nas suas motivações. A criatura é demasiado complexa. É por isso que eu discordo do título, que é um bocadinho romanceado. Mark Felt não “derrubou a Casa Branca”. Nixon não se demitiu por causa do Watergate. Demitiu-se porque ficou provado que ele mentiu à nação — e é isso que é intolerável.

Felt não tem nada que ver consigo, portanto...
Ah, não, eu sou irlandês, vou direto ao assunto. Estou muito mais próximo de um bon vivant como o Schindler [referindo-se à personagem que interpretou no filme de Spielberg]. Curiosamente, outra personagem que se movimentava em sistemas perigosos... Mas o Schindler sabia estar numa festa. Já o Felt... Sabe, a minha preocupação maior era que a audiência não se aborrecesse com um tipo que foi treinado para não mostrar as suas emoções. E aquele cabelo, aqueles óculos de massa dos anos 70... O Peter estava preocupado com os óculos, dizia que os espectadores não me conseguiam ver os olhos. O argumento depois favorece-o, quando ele vai procurar ajudar a filha que se tinha inscrito na Weather Underground [fação política americana de extrema-esquerda]. A personagem humaniza-se um bocadinho.

Acha que um escândalo como aquele poderia acontecer nos dias de hoje e ter as mesmas consequências? A independência do FBI é um assunto na ordem do dia para a Administração Trump.
Peter Landesman passou dez anos a fazer este filme, estava longe de imaginar, como toda a gente, que alguém como Donald Trump chegaria à Presidência. Mas a verdade é que a história tende a repetir-se. As acusações do procurador Robert Mueller começam a descobrir qualquer coisa. Sabemos que houve conluio com a Rússia nas últimas eleições americanas. Se o “tweeter-in-chief” fez ou não parte disso, é o que acabaremos por descobrir dentro de alguns meses, talvez anos. Como um jornalista político disse recentemente, “não há fumo sem fogo, e para já há muito fumo...” Também James Comey foi afastado do FBI porque, aparentemente, não deu provas da sua lealdade, algo que o “tweeter-in-chief” exige. O senhor Trump vê a imprensa como o seu maior inimigo e passou-se o mesmo com Nixon. É assustador.

Conhece Trump pessoalmente?
Por acaso conheço, falei com ele duas vezes. Apoio a Carriage Horse Industry [carruagens puxadas por cavalos], em Central Park, tornei-me uma espécie de porta-voz deles. As associações de defesa dos direitos dos animais queriam acabar com esta tradição que dura em Nova Iorque há mais de 150 anos. Contactei Trump, disse o que estava a fazer, perguntei-lhe se ele podia ajudar. O hotel dele é mesmo em frente. Ele desceu, tivemos uma boa conversa, mas foi cauteloso. Disse-me que estava habituado a ver passar as carruagens da janela e que ia falar com Bill de Blasio [o presidente da Câmara de Nova Iorque] nos próximos dias, duvido que o tenha feito. Isto foi imediatamente antes do início da sua campanha. Para já, ganhámos esta guerra, os cavalos ainda lá andam.

Há alguma figura particular na história que gostasse ainda de interpretar?
Nem por isso. Mas espero continuar a encontrar bons argumentos, boa escrita. Tudo vem sempre das palavras. Há coisas fantásticas na TV agora, estou a lembrar-me de “Ozark”, por exemplo. Ótima série.

Admite entrar numa delas?
Televisão?! [risos]... Não, estou a brincar: isso era o que diziam com desdém as velhas estrelas de Hollywood como Joan Crawford... Claro que admito. Há um escritor de que gosto imenso, Douglas McGrath, que escreveu agora um episódio-piloto sobre a história de Abraham Lincoln. Ele anda a desafiar-me a entrar e estou tentado. É que apesar de tudo, e mesmo depois do filme recente do Steven [Spielberg], a América continua sem saber a história de Lincoln. É incrível tudo o que aquele tipo passou na Guerra Civil para defender a ideia da democracia. A ideia dos Estados Unidos da América.

E das personagens que interpretou, qual é a sua favorita?
Gosto muito de Oskar Schindler, mas se tivesse de eleger só uma a minha alma irlandesa falaria mais alto. E escolhia Michael Collins [no filme homónimo de Neil Jordan, 1996].