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Cultura

O cálice do otimismo

“As canções são sinceras e o título não é irónico“ garante David Byrne sobre o seu novo álbum, “American Utopia”

David Byrne vem a Portugal dia 11 julho para um concerto no EDPCollJazz, em Cascais

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Em janeiro passado, David Byrne criou “Reasons To Be Cheerful”, um site-antídoto para um muito particular tipo de sensação que, diz ele, não deverá ser o único a experimentar: “Suponho que, como muitos de vós quando recordam o último ano, parece que o mundo caminha direito ao Inferno. De manhã, acordo, olho para o jornal e, ‘oh, não!’... por vezes, fico metade do dia deprimido. Não importa em quem votámos ou qual a nossa simpatia ideológica, o sentimento é transversal a todo o espectro político.” A terapêutica foi entregar-se a um exercício de otimismo forçado (“Hey, there’s actually some positive stuff going on!”) e proceder à recolha de todo o tipo de notícias, sinais e experiências animadoras que “Reasons To Be Cheerful” recenseia e divulga. Organizado em diferentes secções — Civic Engagement, Climate/Energy, Culture, Economics, Education, Science/Tech, Urban/Transportation — e filtrado através de três critérios de seleção (1 — iniciativas locais; 2 — comprovadamente testadas e globalmente replicáveis; 3 — independentes da ação de ‘figuras excecionais’), tanto inclui o programa de partilha de bicicletas, Velib, em Paris, como as ações de combate à toxicodependência em Vancouver, Portugal e no Colorado, as bibliotecas instaladas nos terminais de autocarros em Bogotá ou a ação cultural e social do grupo AfroReggae nas favelas brasileiras. E, agora que “American Utopia” é publicado, confessa: “Trabalhei no novo álbum ao mesmo tempo que recolhia material para ‘Reasons To Be Cheerful’ e suspeito que ele influenciou bastante este conjunto de canções.”

Naturalmente, dele, nunca seriam de esperar transcrições literais do ativismo para a música. Se a atitude que determina tudo é “I wish I was a camera, I wish I was a postcard”, e as alusões à realidade não abusam da ambiguidade — a inevitável consequência de “The judge was all hungover when the president took the stand, so he didn’t really notice when things got out of hand, then the press boys thank the president and he tells them what to say” haverá de ler-se em “Someone in a dangerous place, someone got lost somewhere, many people are locked outside, many people lost out there” —, o ágil e sofisticado radar sonoro montado sobre as batidas de Brian Eno e os contributos de Doveman, Oneohtrix Point Never, Sampha e Joey Waronker capta sinais sob os mais diversos ângulos: “Now the chicken imagines a heaven full of roosters and plenty of corn, and god is a very old rooster and eggs are like Jesus, his son” investe no relativismo das parábolas teológicas; “The bullet went into him, his skin did part in two, skin that women ha d touched, the bullet passed on through” opta pela metáfora da anatomopatologia forense; e as últimas palavras que se escutam no álbum — “Here is many sounds for your brain to comprehend, here the sound is organised into things that make some sense, here there is something we call hallucination, is it the truth or merely a description?” — mais do que uma brevíssima introdução às neurociências, é a chave para iniciar a desmontagem da arquitetura do mundo tal como julgamos conhecê-lo. “Perguntar é começar o processo para encontrar uma resposta. As canções são sinceras e o título não é irónico. Não se refere a uma utopia específica mas às nossas aspirações, medos, esperanças e frustrações acerca do que será possível fazer”, diz David Byrne. Bebamos, então, um gole do cálice do otimismo: “We’re only tourists in this life, only tourists, but the view is nice.”