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Arquitetura conjuga-se (ainda) no masculino

MAXXI é o nome do museu nacional de arte e arquitetura, em Falinio, arredores de Roma, assinado por Zaha Hadid, a primeira mulher a receber o Pritzker de arquitetura

ALBERTO PIZZOLI/AFP/GETTY IMAGES

No seu discurso de aceitação do Prémio Pessoa 2017, entregue na passada segunda-feira em Lisboa, o arquiteto Manuel Aires Mateus dizia caber à arquitetura “abrir fendas, possibilidades do mundo que ainda não se cumpriram”. A seguir reflete sobre a importância de “ver o invisível”, ou o que está por vir.

Dita dois dias antes da divulgação nos Estados Unidos da América do laureado com o Prémio Pritzker 2018, que, por comodidade, alguns órgãos de comunicação social apresentam como o Nobel da Arquitetura, aquela frase e, em particular, aquela ideia de “ver o invisível” propõe um conjunto de leituras que vão muito para lá do exercício da arquitetura inerente ao discurso de Aires Mateus. Constitui em si mesma um desafio para quantos refletem e trabalham no e sobre o complexo universo da arquitetura no contexto mundial.

O Pritzker 2018 é o indiano Balkrishna Doshi, 91 anos. Discípulo de Le Corbusier, com quem trabalhou, é um pioneiro das construções de baixo-custo.

Aos 91 anos, o indiano Balkrishna Doshi é o novo Pritzker de arquitetura

Aos 91 anos, o indiano Balkrishna Doshi é o novo Pritzker de arquitetura

FOTO SAM PANTHAKY/AFP/GETTY IMAGES

Soube, ao longo de uma intensa carreira, fundir os princípios do modernismo internacional com um estudo muito profundo das tradições vernaculares da sua Índia natal.

A justeza da distinção não nos pode distrair de uma realidade muito incómoda associada à atribuição do Prémio Pritzker. Entregue pela primeira vez em 1979, ao norte-americano Philip Johnson, já distinguiu até hoje 45 arquitetos.

O uso diferenciado do masculino para nomear um substantivo feminino do ponto de vista gramatical é aqui propositado. A arquitetura, na origem uma profissão no essencial exercida por homens, continua a ser conjugada no masculino, não obstante todas as mudanças políticas e sociais ocorridas, em particular desde o início do século XX, para nos situarmos num arco temporal mais circunscrito.

Entre os quarenta e cinco profissionais distinguidos ao longo destes 39 anos há apenas três mulheres. Pior ainda, das três, só uma, Zaha Hadid, foi premiada a título individual. A iraquiana com passaporte britânico foi a primeira mulher a merecer a escolha do júri em toda a história do Pritzker, o mais importante prémio de arquitetura do mundo. E isto apenas em 2004.

De origem iraquiana, Zaha Adid tinha passaporte britânico

De origem iraquiana, Zaha Adid tinha passaporte britânico

FOTO ALBERTO PIZZOLI/AFP/GETTY IMAGES

Depois de Hadid, só mais duas mulheres chegaram a esta espécie de Olimpo da arquitetura, mas ambas em regime de partilha. Em 2010, a japonesa Kazuyo Sejima, 62 anos, dividiu a vitória com o seu sócio, dez anos mais novo, Ryue Nishizawa. Tinham ambos fundado o ateliê SANNAA em 1995.

O ano passado, a catalã Carme Pigem Barceló recebeu o prémio em conjunto com Rafael Aranda e Ramon Vilalta, todos membros do estúdio RCR Arquitetes, fundado na sua terra natal, a pequena cidade de Olot, na província de Girona.

Há toda uma imensa história de esquecimento na atribuição deste galardão. Será ou não deliberado. Será ou não porque as mulheres continuam invisíveis na arquitetura. Será por preconceito. Será tudo isto junto, ou apenas por razões parcelares e circunstâncias.

A verdade, porém, é que quando em 2012 o chinês Wang Shu ocupou o noticiário internacional por ser o novo Pritzker, houve quem reparasse num facto chocante: o júri nomeado pela comissão de arquitetura da Fundação Hyatt tinha ignorado Lu Wenyu, mulher de Wang, co-autora dos projetos que ambos assinam no âmbito do ateliê Amateur Architecture Studio, por eles fundado em 1997 em Hangzhou, na China.

O escândalo assumiu novas proporções em 2013. Naquele ano, o grupo Women in Design, da Harvard Graduate School of Design, dos EUA, lançava uma campanha destinada a incluir a arquiteta Denise Scott Brown no Prémio Pritzker de 1991, entregue apenas ao seu marido, o arquiteto Robert Venturi.

Denise Scott Brown com o marido, Robert Venturi

Denise Scott Brown com o marido, Robert Venturi

Rick Loomis/LOS ANGELES TIMES/GETTY IMAGES

Como sócios do Venturi Scott Brown and Associates, defendiam os promotores da campanha, deviam ter sido galardoados em conjunto por uma obra que é comum.

A petição dirigida aos responsáveis pelo Prémio Pritzker não surgira por acaso. Uns dias antes de ter sido posta a circular, Denise Scott Brown, então com 81 anos, afirmara através de uma mensagem gravada, transmitida durante um almoço para os prémio Women in Architecture, do “Architect’s Journal”, em Londres, que considerava “triste” não ter sido reconhecida pela comissão de arquitetura da Fundação Hyatt. “Devem-me não só um prémio Pritzker, mas também a inclusão na cerimónia Pritzker. Saudemos a noção de criatividade conjunta”, afirmou.

Manuel Aires Mateus dizia no seu discurso que o contexto da atribuição do seu prémio “evoca uma sequência de arquitetos, os nossos arquitetos, mortos ou vivos, que abriram as portas aos que vieram depois, nos seus ateliês e nas universidades”.

O projeto do novo corpo para o Musée des Augustins, em Toulouse, é assinado pelos irmãos Manuel e Francisco Aires Mateus

O projeto do novo corpo para o Musée des Augustins, em Toulouse, é assinado pelos irmãos Manuel e Francisco Aires Mateus

FOTO AIRES MATEUS

Entre eles estão mulheres que em Portugal têm feito da arquitetura a sua paixão e a sua vida. E esse é, seguramente, um desafio a suscitar uma profunda reflexão no âmbito do Prémio Pessoa.
Em 31 edições distinguiu três arquitetos: Eduardo Souto de Moura, Manuel Carrilho da Graça e Manuel Aires Mateus. Um dia chegarão as mulheres. Mesmo se, na arquitetura como na vida em geral, estão cansadas de esperar.