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A magia acontece na Lello com palavras e desenhos de Valter Hugo Mãe

A Livraria Lello será "habitada" pela criatividade de diversos autores ao longo dos próximos meses

Rui Duarte Silva

A Livraria Lello, no Porto, dedica o mês de março à produção literária de Valter Hugo Mãe. Uma exposição de desenhos, conversas com os leitores e a reedição da obra “O Paraíso São Os Outros” proporcionam uma viagem pelo universo onírico do autor “imprudentemente poético”

Todos os dias, na Rua das Carmelitas, no Porto, os turistas fazem fila em frente à emblemática Livraria Lello. Pagam para entrar, tirar fotografias e deambular pelo espaço no qual J.K. Rowling se terá inspirado para construir o universo fantástico de Harry Potter. Mas uma livraria não vive sem o encanto dos livros, a paixão dos leitores e, acima de tudo, sem os artesãos da palavra, mestres na arte de exercer feitiços criativos e de criar novos mundos. Nesse sentido, é agora lançado o conceito de “livraria de autor”, materializado nos ciclos “Autor do Mês”, pensados para transformar escritores em autênticos protagonistas. O escolhido para o primeiro capítulo da iniciativa é o romancista e poeta Valter Hugo Mãe.

“É um autor singular que consegue unir várias expressões artísticas na sua dimensão literária. Permite-nos explorar o pensamento humano em diversas vertentes. Considero-o um autor completo, como no período do Renascimento”, argumenta Maria Bochicchio, programadora cultural da Livraria Lello, “Todos os meses teremos um autor diferente e, em abril, será Ana Luísa Amaral”, avança a curadora italiana ao Expresso.

Ao longo de março, a magia da escrita e também dos desenhos do artista vilacondense vai estar em evidência, com um conjunto de ações que promovem a aproximação com os leitores. Esta quarta-feira, ao final da tarde, foi inaugurada a exposição “Agradecer aos Pássaros”, com 14 desenhos a tinta-da-china do autor “imprudentemente poético”, habituado a dar vida aos bonecos que rabisca nos cadernos, quando está sentado à mesa do café ou quando se encontra em casa em momentos mais introspetivos, nos quais a criatividade esvoaça livremente.

O homem que aprende com os pássaros a ter os pés no chão

Relativamente ao título da exposição - em que os desenhos estão dispostos nos dois pisos da livraria - Valter Hugo Mãe frisa, ao Expresso, o fascínio pelos pássaros. “É um animal que me inspira muito. É muito gracioso e tem um dos corpos mais belos do reino animal. Compadeço-me muito com a sua vulnerabilidade, sazonalidade e com o facto de os pássaros perecerem no inverno. Há uma ternura incrível em tudo isto”, começa por dizer. “Há uma lição que devemos aprender com os pássaros: podemos ter ascensões magníficas na vida, mas é importante preparar-nos para a queda, para essa terna falência durante o inverno. Podemos aprender com eles a morrer com graça”, acrescenta o autor, a quem Saramago apelidou de “tsunami literário”.

“Só não me envergonho destes desenhos, porque tenho uma grande falta de lata”, confessa Valter Hugo Mãe, entre risos. “Eu desenho muito. Nos meus cadernos de escola sempre rabisquei bonecos. É como se estivesse a estudar a mão e ensina-me a disciplina do gesto”, sustenta o autor que, também esta quarta-feira na Livraria Lello, apresentou uma nova edição da obra “O Paraíso São os Outros”, adornado com as suas próprias ilustrações. “São muito espontâneas e despidas. Não pretendem ser imagens virtuosas. São toscas, têm muito erro e, a dada altura, isso começou a parecer-me válido”, explica o escritor.

“Não tenho saudades de achar que ia morrer nem do medo de partir o osso da pila."

“Não tenho saudades de achar que ia morrer nem do medo de partir o osso da pila."

Rui Duarte Silva

No mês da poesia, a programação cultural da Lello coloca em foco a profícua e diversificada produção artística do autor, residente nas Caxinas, em Vila do Conde, capaz de se expressar nas mais diferentes marés da linguagem. Com um estilo literário sem lei e sem austeridade na plasticidade das palavras, o escritor que em tempos estudou Direito, acabou a fazer “Contabilidade” de poemas e, mais tarde, exerceu funções como vocalista dos “Governo”. Começou a frequentar a Lello aos 19 anos e, confessa, sempre ter desejado ali viver. “A Lello é um espaço de sonho. É pura imaginação, parece uma coisa retirada de uma fábula em que aparece uma livraria. Podia ser a livraria da Alice, num universo encantado”, descreve Valter Hugo Mãe, convencido, quando era “miúdo”, de que iria morrer aos 18 anos e com medo de partir “o osso da pila” (título de um dos seus poemas).

Mas o tempo passou. O medo também e, agora, aos 46 anos, com mais de duas décadas de carreira literária, ainda se considera um “homem imprudentemente poético”, talvez por ter a perceção de que tudo é efémero. “Não tenho saudades de achar que ia morrer nem do medo de partir o osso da pila. Mas continuo a sentir-me muito perecível e bastante perplexo por ter conseguido fazer 46 anos”, revela Valter Hugo Mãe. “Não encaro a vida como uma coisa garantida. Num instante passou a minha infância, a minha juventude; num instante passaram mais 20 anos e, entretanto, aqui estou eu, careca e gordo. Tento aproveitar o tempo, que se precipita a uma velocidade obscena, e quero estar sempre atento a cada dia. Sinto-me muito grato por todos os momentos e não me quero distrair da felicidade”, finaliza o escritor, que no dia 24 de março (sábado), estará na livraria para conversar com os leitores e para uma sessão de autógrafos. No mesmo dia, será ainda oferecido um desenho a um leitor, com dedicatória.

Entre os muitos seguidores do escritor presentes nesta quarta-feira, estava uma jovem, Paula Akkari, de 20 anos, escondida entre alguma timidez. É brasileira e está em Portugal há duas semanas. Vai ficar durante seis meses para estudar Psicologia. Aproxima-se e mostra-nos uma fotografia, registada em São Paulo, ao lado do escritor que tanto admira. Valter passa mesmo ao lado dela. Paula não diz nada. O Expresso chama-o e diz-lhe que está ali alguém desejoso de falar com ele . Ele pára. Ela mostra-lhe a fotografia. Conversam e, rapidamente, a timidez de Paula converte-se em emoção. “Eu cito muito ele nas aulas de Psicologia e de Fenomenologia, quando abordo temas como o luto ou o aborto. É um autor que recomendo tanto a pessoas que gostam de literatura como a outras que se interessam por psicologia. Permite-nos entrar em contacto com os sentimentos. É um autor de quem eu gosto muito, mas também a minha mãe, que lê os livros para a minha avó”, assevera a jovem, que começou por conhecer o escritor através das páginas de “A Desumanização”.

Uma livraria cada vez mais aberta ao público e aos autores

A programação é contínua e, esta quinta-feira, Dia Internacional da Mulher, pelas 18h, a Lello dá a palavra às leitoras de Valter Hugo Mãe, momento que poderão ler alguns dos seus excertos favoritos do autor. Iniciativas idênticas decorrerão nas quintas-feiras seguintes, 15 e 22 de março, sempre pelas 18h, desta feita abertas tanto a homens como mulheres.

A pensar nos leitores de palmo e meio, Valter Hugo Mãe vai estar rodeado dos mais pequenos, a ler para eles, este domingo, pelas 11h30, no momento “Conto de Magia”, dedicado à literatura e leitura infantojuvenil. A mesma ação repete-se no dia 25 de março, no mesmo horário.

A comemorar o 112.º aniversário, a Lello oferece um presente aos amantes da leitura, abrindo as portas da cave - até hoje inacessível -, por onde passaram milhares e milhares de livros. O espaço terá agora uma função multiusos, servindo para conferências, conversas com autores ou projeções de filmes, ações inseridas numa programação cultural intitulada “Vozes Vivas”.