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O osso do som

“Video Fields”, 2015, de Michael Snow, na Culturgest, em Lisboa

Em exibição, em Lisboa, o trabalho sonoro mas também os filmes e vídeos de um artista canadiano decisivo para os campos da música improvisada, do filme experimental e da arte contemporânea

Não é incomum os artistas manifestarem a sua criatividade em áreas diferentes. Porém, no caso do canadiano Michael Snow (Toronto, 1929), estamos na presença de um verdadeiro homem da renascença. Snow que começou como músico profissional de jazz nos anos 40, continua ativo aos 88 anos prolongando uma obra que se estende pela música experimental e improvisada, pelo filme, pelo vídeo, pela pintura, escultura, fotografia e instalação. O mais impressionante é que na maioria dessas explorações, o seu contributo é de relevância superior.

Com o duchampiano título “O Som da Neve / The Sound of Snow”, a mostra que se exibe em Lisboa foca-se no trabalho dele em cinema, que começou a desenvolver quando se mudou para Nova Iorque, em 1962, no vídeo e sobretudo na obra em som, apresentando projeções e instalações sonoras e um ciclo de filmes que não é um complemento mas que corre paralelo à exposição e que inclui algumas das obras que se tornaram referenciais para os caminhos do cinema experimental. É o caso de “Wavelength” (1967), um filme revolucionário que desafia os conceitos de narrativa, enquadramento espacial e temporalidade e estabelece significativas e inovadoras relações entre a imagem e o som. “Wavelength” foi logo recebido, nos anos 60, com grande entusiasmo e é referido pelo crítico Gene Youngblood no livro “Expanded Cinema” (1970) como um exemplo forte de uma visão estruturalista em filme. Apesar do seu entrosamento com a vanguarda nova-iorquina, Snow regressou a Toronto em 1971, mas continuou a realizar filmes decisivos para o cinema underground, como “Rameau’s Nephew”, 1974, uma espécie de políptico fílmico que é uma das suas mais complexas criações e que se estende por mais de quatro horas em combinações estruturais como a convergência e dissonância entre as imagens e a sua descrição por um narrador, a prosopopeia, o jogo de planos ou uma associação cinestésica entre vozes e cores; e “So Is This”, 1982, um metafilme que existe na medida em que se vai definindo a si próprio através da linguagem verbal.

Nos filmes, como em todas as outras manifestações da obra, a perceção, o modo como esta é configurada pela experiência do tempo, pela linguagem e pela especificidade dos meios é fundamental. Snow intensifica e desnaturaliza a nossa relação com o mundo sob o filtro dos meios e das tecnologias.A centralidade de uma noção de estrutura (ou de combinação de elementos estruturais) é transversal às obras apresentadas na Culturgest, sejam elas produzidas a partir da imagem, do som, da linguagem verbal ou da combinação de algumas destas possibilidades, contrariando a narrativa e a linearidade visual, tomando a imagem como processo e não como entidade relevante em si mesma e explorando as condições próprias de cada dispositivo.

“Solar Breath (Northern Caryatids)”, 2002

“Solar Breath (Northern Caryatids)”, 2002

foto mana

Comissariada por Delfim Sardo, a exposição não assume uma sucessão cronológica, perseguindo antes um encadeamento possível entre estas explorações que transportam o visitante ao interior de uma lógica criativa que é também, percebe-se quando concluído o percurso, uma ética da experimentação.

Se o som é o elemento comum às obras apresentadas, é precisamente naquela que abre a exposição que este está ausente. “That/Cela/Dat”, 2000, que foi criada para a exposição “Voici”, comissariada por Thierry de Duve, é uma instalação que tem como antecedente o já referido “So Is This”, e é composta por dois monitores vídeo e um ecrã central nos quais se sucedem as palavras de um texto em inglês, francês e neerlandês cuja sincronia e simultaneidade enfatizam uma espécie de tempo linguístico que resulta desconcertante e risível. Gerado por associações e distorções verbais ou fruto do imprevisto, o humor é aliás uma característica quase sempre presente na obra de Snow. Veja-se “#720 (Thanks to Robert Crumb)”, 1988, que utiliza três pranchas daquele autor de BD, referência da contracultura americana, vistas em três projetores de slides assentes sobre garrafas de vinho “de qualidade e com alguns anos” e rodeadas por jornais do dia.

Uma característica particularmente distintiva na obra de Snow é que ela opera com muita frequência no núcleo específico de cada meio e dispositivo mas ao mesmo tempo pressiona esse meio a dialogar com outras possibilidades (como acontecia com “The Walking Woman”, uma série em que o mesmo motivo atravessava vários suportes e que o fez aproximar-se do filme no início dos anos 60). Isso torna-se particularmente impressionante quando utiliza a matéria abstrata do som ou quando cria um fluxo que é simultaneamente sonoro e visual mas que existe no espaço como na instalação recente “Piano Sculpture”, 2009.

“That/Cela/Dat!”, 2000

“That/Cela/Dat!”, 2000

foto mana

Noutros trabalhos, o som pode associar-se a uma condição performativa como em “W in the D”, 1974, a sua primeira instalação exclusivamente sonora, na qual se ouve Snow assobiar frases musicais cuja duração depende da quantidade de ar que inspirou; pode gerar uma farsa etnográfica como na falsa recolha de música indígena de “The Last LP”, 1987; ou transformar-se num jogo linguístico duchampiano como em “Sinoms”, 1989, no qual 22 vozes leem os nomes dos sucessivos 34 presidentes da câmara do Quebeque.

Por vezes trata-se de produzir deslocações percetivas entre o “natural” e o “artificial”, entre o analógico e o eletrónico como em “Video Fields”, 2015, que nos submerge pela energia visual de seis projeções de imagens de vento ondulando paisagens intensamente verdes embora o som que ouvimos seja, na verdade, criado com um sintetizador. Ao contrário, em “Solar Breath (Northern Caryatids)”, 2002, o que parece um truque de montagem é afinal a simples exibição de um muito raro fenómeno natural do vento que suga e expulsa a cortina de uma janela, mantendo-a suspensa por momentos num equilíbrio improvável.

Por mais analítica que seja, a obra de Snow é quase sempre iminentemente sensorial, ou seja, cria condições que sugerem a possibilidade de o visitante construir uma experiência. Epítome desse programa é talvez “Diagonale”, 1982, a obra da exposição em que o som é usado de uma forma completamente escultórica pelo posicionamento na sala de 16 altifalantes ocultos que criam uma quase palpável viagem sonora.

Pela inteligência processual, pela abrangência e consistência dos seus interesses alimentados por uma curiosidade omnívora, Snow foi capaz de criar uma obra monumental em contextos artísticos muito diferentes — do cinema experimental à música improvisada, passando pela arte contemporânea — e de em todos eles deixar uma marca distintiva. “The Sound of Snow” é só uma parte do ‘sistema’ Snow, mas uma parte particularmente substancial.