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Ler os Óscares

A chegada dos Óscares é sempre motivo de interesse por parte de quem se interessa por cinema ou, pelo menos, pelas vedetas de Hollywood. E as categorias de melhor filme e melhores atores e atrizes são as mais mediáticas, é importante lembrar que boa parte do que se vê na tela saiu da pena de artistas talentosos. Alguns deles Nobel da literatura

Reinaldo Serrano

Bob Hope entregando o Óscar a Marlon Brando, na cerimónia de 1955

Bob Hope entregando o Óscar a Marlon Brando, na cerimónia de 1955

getty

E eis que um frémito de inusitada excitação percorre como que em ondas a indústria cinematográfica. Ironia e excessos à parte, o facto é que, goste-se ou não, o mundo dos que gostam de cinema vê com a antecipação própria dos grande eventos a chegada dos Óscares ao grande palco.

Meia dúzia de dias separa a antecipação da concretização: a cerimónia tem lugar em Los Angeles na madrugada do próximo dia 5 de março (horário e data relativas ao nosso país). Espera-se, pois, que a passadeira vermelha se apresente como o primeiro momento de deleite, de puro gáudio para os apreciadores e apreciadores de moda, de excentricidade, de volúpia, do glamour possível em tempos há demasiado tempo conturbados no vasto universo de Hollywood.

Daí que também seja lícito esperar a mensagem política, a piada fácil, a piada difícil, o cinismo no sorriso forçado dos vencidos, juras de admiração eterna dos vencedores para os que o não foram, ilusões e desilusões, o ensaio das surpresas (“juro que não pensava ganhar”), o sentimento de injustiça, o desapontamento de uns e o regozijo de outros. Há de tudo e para todos em matéria de nervos e das flores da pele cuidada a preceito, que ninguém sai de casa querendo fazer figura ou, quem sabe se pior ainda, de figurante.

Em cada ano que passa é assim e assim é desde o distante ano de 1929, quando 270 pessoas assistiram no Hotel Roosevelt à primeira entrega da estatueta de 35 centímetros distribuídos por cerca de 4 quilos de peso. Já agora, lembrar aqui que passam este ano os 65 sobre a primeira cerimónia transmitida via TV: foi a 19 de março de 1953 e o anfitrião de ontem detém ainda o recorde de hoje - o lendário Bob Hope apresentou o a cerimónia dos óscares por... 19 vezes.

A experiência do comediante, aliada à sua sobeja sageza, tornaram vívidas as palavras que um dia proferiu a propósito da noite dos óscares: é a noite, disse, em que “esquecemos as diferenças e velhas lutas e começamos outras”... Passariam 13 anos sobre 53 para que, em 66, os óscares fossem televisionados a cores.

Serve o historial abreviado para lembrar uma categoria tão presente quanto ausente em cada cerimonial: o óscar para Melhor Argumento Adaptado; porque, necessariamente, provém de uma obra literária (de dramaturgia, ensaio ou ficção) que, injustamente, é lembrada numa noite e esquecida na anterior. Quer isto dizer que ver um filme baseado num livro (por ser eventualmente mais fácil ou apenas mais ocioso) secundariza a própria obra na qual se inspirou. Sem sentido de justiceiro mas procurando repor alguma justiça na equação, seguem-se alguns exemplos de obras dignas de serem lidas antes, ou depois, de serem vistas em formato de écrã.

Sem qualquer ordem particular, a primeira que me ocorre é de Ernest Hemingway. Chama-se “Por Quem os Sinos Dobram” (“For Whom the Bell Tolls”) e foi transposta para o cinema por um quase desconhecido Sam Wood. Realizado em 1943 (3 escassos anos, portanto, desde a edição do livro), o filme conta com esperados e sólidos desempenhos de Gary Cooper e Ingrid Bergman, pese embora quem tenha arrecadado a estatueta dourada tenha sido um obscuro (quando comparado com as estrelas de primeira grandeza) Akim Tamiroff, premiado com o óscar de Melhor Ator Secundário.

Ingrid Bergman recebendo o Óscar para melhor atriz, tendo à direita Bob Hope e à esquerda Jennifer Jones

Ingrid Bergman recebendo o Óscar para melhor atriz, tendo à direita Bob Hope e à esquerda Jennifer Jones

getty

Esta obra de Hemingway parte de um pressuposto, também ele literário, bebido (ou não estivéssemos a falar de Hemingway) num texto do poeta inglês John Donne que, algures no século XVII, em boa hora escreveu: “A morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”

O escritor seguinte vem, ele próprio, a dobrar: John Steinbeck, figura maior no panorama literário universal, permitiu à sétima arte fazer arte de primeira com as adaptações de “As Vinhas da Ira” (“The Grapes of Wrath”) e “Ratos e Homens” (“Of Mice and Men”). A primeira, escrita em 1939, foi justa merecedora do Pulitzer de Ficção e do National Book Award. A sua adaptação ao cinema foi rápida e inesquecível, ou não tivesse sido assinada pelo mestre John Ford. Henry Fonda e o injustamente esquecido John Carradine encimam o elenco desta história passada na Grande Depressão, traduzida no sofrimento que uma família, no seio de outras famílias, encontra em busca de uma terra prometida que não passa de uma... promessa.

Steinbeck já havia impressionado dois anos antes, em 1937, quando deu à estampa “Ratos e Homens”, uma vez mais com o cenário da Grande Depressão a envolver a dramática história de dois homens (um deles portador de deficiência) que partem em busca da subsistência possível. A história é poderosa, trágica e, em dados momentos, pungente, e as interpretações do grande e nem sempre devidamente reconhecido Burgess Meredith e de Lon Chaney, Jr dignificam no cinema a obra imortal de Steinbeck. Houve ainda várias outras adaptações mas, mais recentemente, merece destaque a que Gary Sinise assinou e protagonizou em 1992, coadjuvado por um papel feito à medida para John Malkovich.

Um ano depois surgiu, pelo olhar de James Ivory, uma outra notável adaptação, desta feita de um romance escrito em 1989 pelo mais recente Nobel da Literatura, o inglês de origem japonesa Kazuo Ishiguro. Trata-se de “The Remains of the Day” (“Os Despojos do Dia”), narrativa sublime sobre a memória de um mordomo que julgou ter servido um grande aristocrata, até surgirem duras e angustiantes dúvidas sobre a grandeza do proprietário de Darlington Hall; ao mesmo tempo, o serviçal é confrontado com um amor contudo, quando não reprimido, que tenta recuperar, mas o tempo pode ser o seu maior inimigo.

Anthony Hopkins tem, na minha modesta opinião, o melhor desempenho da sua vasta carreira neste filme onde é impossível não destacar a figura de Peter Vaughan, recentemente falecido, que deixa uma marca impressiva como pai de Hopkins, ancião seguidor de um irrepreensível sentido de dever numa profissão que é uma forma de missão de vida.

Claro que as palavras de cada um dos autores acima mencionados têm o poder próprio do verbo mas, verdade seja dita que, se uma imagem vale mais que mil palavras, não é menos verdade que há palavras que valem mais que mil imagens. Entre o ler o ver, o importante mesmo é não passar ao lado. Da vida ou das grandes obras que, em papel ou em película, acabam por nos enriquecer.