Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

“A primeira vez que me tocaste... Estas maravilhas alguma vez cessarão?”

Fotos Studio/Produzent

Elio apaixona-se por Oliver e Oliver apaixona-se por Elio. Sabem que o primeiro amor é curto, mas aproveitam tudo, da curiosidade à provocação e do êxtase àquela espécie de luto abrupto. A acompanhá-los têm, durante o tempo que dura “Call me by your name”, a omnipresença subtil de Sufjan Stevens, que compôs duas canções delicadas especificamente para este filme: “Mistery of Love” e “Visions of Gideon”. Este é o último dos cinco textos que publicámos esta semana sobre os filmes nomeados pela Academia pela melhor canção original

A primeira coisa que se sente quando se vive um primeiro amor daqueles é uma curiosidade difícil de calar. Quer-se conhecer tudo: as formas, as palavras, o som. A pouco e pouco, a sensação de êxtase, a sensação de que há possibilidades infinitas no mundo e no futuro, de que de repente tudo ganhou uma cor nova, mais viva. Esse fascínio não pode acabar abruptamente. É aí que chega a angústia, a mágoa, a incompreensão. O fim, o mais previsível de todos.

As cores do primeiro amor de Elio acontecem primeiro em tons azuis, pintados às pinceladas, sem ordem nem obediência. É em azul que ele sonha com Oliver, “l’usurpateur”, quando está sentado fora de casa, à espera que o seu primeiro amor apareça. Pergunta por ele. Espera. Finge que está a dormir, que não quer saber, que não deu importância. Fica frustrado quando não passa a mensagem que queria. Afinal de contas, ainda é só o primeiro amor e não tem como saber que a comunicação se faz de maneiras muito mais complexas, ou às vezes até nem se faz de todo.

Foto Studio/Produzent

A espera de Elio faz-se, no entanto, com um elemento central que distingue o primeiro amor dele dos primeiros amores de todos nós: enquanto ele aguarda a chegada de Oliver no jardim, no quarto, na cama, ouve-se uma voz suave a intrometer-se e um piano a invadir o seu caminho. Dizem-lhe assim: “Já passou muito, muito tempo desde que memorizei a tua cara / Quando durmo no teu sofá sinto-me muito seguro /Eu diria que te amo, mas dizê-lo é difícil / Por isso não vou dizê-lo de novo nem vou ficar muito mais tempo”. Tudo à sua volta é azulado. As formas tornam-se difusas. A canção rouba-lhe as palavras. As meias palavras, as verdades que só são dadas a entender. O verso que remata: “As minhas palavras são instrumentos fúteis”.

Foto Studio/Produzent

[Façamos uma paragem neste exercício de explicar as cores e os sons de Elio e Oliver, os apaixonados de “Call me by your name”, para explicar uma série de coisas mais reais e menos mágicas: esta primeira canção de que falamos é um remix de “Futile Devices”, que como as outras duas canções de que ainda lhe vamos falar é de Sufjan Stevens.

Todas elas, por estranho que possa parecer, foram feitas sem que Sufjan visse o filme ou conhecesse o realizador, Luca Guadagnino. Este chegou a sugerir a Sufjan que quebrasse a sequência do filme e aparecesse de repente a tocar uma das suas canções, mas Sufjan defendeu que isso seria uma má ideia. Ele, por princípio, nem sequer gosta de música em filmes. Mas já lá vamos.]

Passamos à fase do auge, que no primeiro amor é mais extremo e efusivo porque sabemos que há de terminar a qualquer momento e que tudo o que nos sobrará serão memórias. No êxtase de Elio e Oliver conseguem que tudo seja verde brilhante, fresco. Correm os dois, sem nada que os distraia um do outro, por montes e cascatas, enquanto gritam:

- Elio!

- Oliver!

Entra Sufjan, que, como explicámos no pârentesis anterior, escreveu isto sem saber qual seria a cena do filme que incluiria a sua delicadeza e os seus versos. E ouve-se assim: “A primeira vez que me tocaste / Estas maravilhas alguma vez cessarão?”. Sufjan sabe que sim, claro que sabe, ou não trocasse a “primeira vez” pela “última” à medida que a canção vai avançando e tornando-se personagem principal da cena para que deixemos a intimidade de Elio e Oliver em paz, longe de olhos indiscretos. Sufjan canta sobre “a marca no ombro” do amado que lhe dói só de se lembrar, como doerá a Elio daí a pouco tempo. “Não encontrarei outro?”

Foto Studio/Produzent

[Sufjan não gosta de ouvir música em filmes porque considera que podem ter um efeito manipulador, explica em várias entrevistas. Por isso, nesta cena que lhe vamos contar a seguir, defende que poderia tirar-lhe o som e ela manteria o seu poder. Quem somos nós para contrariar Sufjan, que, já agora, está nomeado para o óscar de melhor canção original por “Mistery of Love”, a canção de que acabámos de falar.

É preciso saber que, como Sufjan detalhou ao “Los Angeles Times”, Luca lhe disse que muito do filme é na verdade uma homenagem ao seu trabalho, e por isso a estética combinada dos dois resulta de uma forma tão orgânica. Aliás, Sufjan já andava há muito tempo a trabalhar em “Mistery of Love”, mas ainda não tinha encontrado forma de a terminar. Escreveu-a, segundo as palavras dele, sobre “o primeiro amor, um amor de verão, a transcendência, mas também sentimentos profundos, a mágoa, aquela relação entre paixão e confusão”, o que nos dá o pretexto ideal para falarmos da canção final que Sufjan compôs especificamente para “Call me by your name”, “Visions of Gideon”.]

Foto Studio/Produzent

Elio está sentado em frente à lareira. Morde os lábios. Os olhos enchem-se de lágrimas. Ora chora, ora consegue controlar-se; ora deixa a água salgada correr livremente até à boca, ora a limpa antes que possa criar afluentes. Por vezes sorri. Sentir o êxtase e a perda inevitável do primeiro amor não é linear nem fácil, desenganem-se os que já se esqueceram disso. Sufjan tem 42 anos e não se esqueceu, por isso faz questão de voltar a acompanhar Elio na sua dor, sussurrando-lhe: “Pelo amor, pelo riso, voei até aos teus braços”. Enquanto isso, Elio chora. Chorará durante quatro minutos seguidos, sem desarmar. Desta vez é difícil decidir se as cores desta espécie de luto adolescente de Elio são azuis ou cinzentas. Não são fáceis de definir.
[Para terminar, é preciso contar que Sufjan também diz que as canções que compõe são sobre “a natureza finita das coisas”, que são “como este filme”: “Acontece uma vez na vida e é isso que é o primeiro amor para a maioria de nós”.

A palavra “etérea”, de que muitas vezes se abusa em textos sobre música (soa ofensivo usar clichés para falar de Sufjan, como se não houvesse mais palavras disponíveis), parece de alguma forma feita para definir a atmosfera criada pelas suas canções, num espectro que vai do azul ao cinzento passando pelo verde, dependendo da fase em que aquele amor efémero está. Depois, supõe-se, Elio há de começar outra vez, com uma nova palete de cores. Assim que conseguir levantar-se de diante daquela lareira.]

  • Um musical “antiquado” com músicas “prontas para o karaoke” e capazes de ganhar o Festival da Eurovisão?

    O que está no título deste artigo são algumas das coisas que se têm dito e escrito sobre 'The Greatest Showman', o novo musical de Hugh Jackman. Mas o filme e a canção nele que se destaca, 'This is Me', acumulam sucessos e cumprem a fórmula feel-good que serviu para os construir, levando multidões às salas de cinema e às aplicações de música, para descarregar uma das canções mais orelhudas do ano. Este é o quarto dos cinco textos que publicamos esta semana sobre os filmes nomeados pela Academia pela melhor canção original

  • Lembra-te de mim sempre que ouvires uma guitarra triste

    No início de “Coco” ouvimos uma versão de “Remember me” divertida, festiva, exagerada. No final há uma versão suave, ternurenta, triste (e esta é a maneira certa de a cantar e ouvir). “Remember me” condensa em si toda a história do pequeno Miguel e da sua bisavó Coco, ou a história de uma família inteira, ou se calhar a história de um país e da memória que se vai perdendo. Este é o terceiro dos cinco textos que publicamos esta semana sobre os filmes nomeados pela Academia pela melhor canção original

  • Porque é que havia de andar quando posso dançar?

    Em “Mudbound”, a música foi feita para ser lamacenta. A lama está por todo o lado, tudo é castanho cor de ódio. Mas a canção final, “Mighty River”, é sobre amor, só sobre amor. Este é o primeiro de cinco textos que publicamos esta semana sobre os filmes nomeados pela Academia pela melhor canção original

  • Não há canções que me façam querer levantar-me e mudar o mundo

    “Marshall” conta a história verídica de um advogado afro-americano que lutou pelo que estava certo numa altura em que até certas casas de banho lhe estavam interditas. 50 anos depois da sua luta, é a vez de um grupo de estudantes se tornar o símbolo da batalha pelo controlo do acesso às armas nos Estados Unidos. O que une as duas histórias? Uma canção que se tornou um grito de guerra. Este é o segundo dos cinco textos que publicamos esta semana sobre os filmes nomeados pela Academia pela melhor canção original

  • Quem controla a imprensa?

    É sobre jornalismo, influências, ganhos e perdas. O que está por por trás de um notícia que faz a primeira página de um jornal? Esta é a história de uma das grandes revelações da imprensa: os Pentagon Papers. E quem a conta são três nomes igualmente grandes: Steven Spielberg, Meryl Streep e Tom Hanks

  • É sobre todas nós

    O texto que há de ler pode resumir-se assim: “Não conheço uma única mulher que não tenha a mais complicada, louca e bonita relação com a mãe”

  • A sobrevivência é uma vitória

    Eles precisam de voltar para casa porque o inimigo aproxima-se cada vez mais. Eles precisam de sair de Dunquerque porque lá só há morte. Eles, os soldados, precisam de sobreviver

  • Hão de sentir a natureza do medo e do desejo

    Isto é simplesmente a história de duas pessoas - o cinema não precisa de mais para ser relevante. E há de encontrar estrofes abandonadas ao longo deste texto - são do extraordinário Sufjan Stevens e haverá de perceber porquê