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Um musical “antiquado” com músicas “prontas para o karaoke” e capazes de ganhar o Festival da Eurovisão?

O que está no título deste artigo são algumas das coisas que se têm dito e escrito sobre 'The Greatest Showman', o novo musical de Hugh Jackman. Mas o filme e a canção nele que se destaca, 'This is Me', acumulam sucessos e cumprem a fórmula feel-good que serviu para os construir, levando multidões às salas de cinema e às aplicações de música, para descarregar uma das canções mais orelhudas do ano. Este é o quarto dos cinco textos que publicamos esta semana sobre os filmes nomeados pela Academia pela melhor canção original

Se analisarmos os filmes que estão este ano nomeados pela Academia para o Óscar de melhor canção original, veremos que os candidatos parecem ter um tema comum que os une: a diversidade e a inclusão. É o caso de ‘Mudbound’ e ‘Marshall’, ambos sobre racismo e os preconceitos que nos separam; ‘Remember Me’, a história de uma família mexicana que, nos Estados Unidos, se torna assim o primeiro filme com um protagonista de uma minoria; ou de ‘Call me by your name’, centrado na história de amor de um casal homossexual.

Finalmente, há ‘The Greatest Showman’, que não é sobre uma história de alguém diferente, mas sobre as histórias de muitas pessoas diferentes (afinal, o que é que diferente quer dizer?) que se juntam para tentar encontrar uma casa comum, um lugar onde não tenham vergonhas e embaraços. Falamos de uma ‘mulher barbuda’, de um anão, de uma albina ou do suposto homem mais pesado do homem. Todos saem dos sítios onde têm estado escondidos sob a orientação de P. T. Barnum (interpretado por Hugh Jackman), que na realidade foi o inventor do conceito de circo.

P.T. Barnum é um verdadeiro empreendedor: começa por baixo, ninguém deposita nele expectativas, consegue o que quer com empréstimos e promessas (muitas vezes fraudulentas) e vai chegando ao topo, mesmo que seja sempre, até ao fim, olhado de lado por quem o rodeia e que não tenha créditos junto da alta sociedade, que despreza a ideia do seu espetáculo de ‘aberrações’. E, na realidade, ‘The Greatest Showman’ faz os possíveis para apagar as piores partes da vida e personalidade de P.T. Barnum – que ao que parece era um homem racista que explorava os seus artistas, uma faceta menos aprofundada em ‘The Greatest Showman’ – porque quer ser um filme que nos faz sentir-nos bem connosco e com o mundo.

‘This is Me’, canção que está nomeada para o Óscar, cumpre a mesma função: tudo nela vai em crescendo e é épico; começa com a voz solitária da atriz Keala Seetle (que faz de mulher barbuda no filme) e cedo se junta a ela um coro empenhado; as palmas, o compasso de marcha, os agudos, tudo se compõe para fazer de ‘This is Me’ empolgante, doce, fácil de ouvir. Os versos seguem a mesma linha: ‘Cuidado, porque aí vou eu/ E marcho ao meu ritmo/ Não tenho medo de ser visto, não peço desculpas/ Isto sou eu’.

O ‘Entertainment Weekly’ chamou a ‘The Greatest Showman’ um filme com ‘música pronta para karaoke’, e talvez seja isso que encanta tantos espectadores e que está a fazer dele um sucesso inesperado de bilheteira. Inesperado porque começou com maus resultados de vendas na semana em que chegou aos cinemas norte-americanos, mas de repente tudo são boas notícias: as vendas dispararam, a canção chegou ao primeiro lugar do top da Billboard, os Jogos Olímpicos quiseram usá-la para os seus spots publicitários. A realidade de ‘The Greatest Showman’ parece agora uma daquelas sequências rápidas que aparecem nos filmes de domingo à tarde, com uma música animadora e várias cenas que mostram como tudo corre bem às personagens. Na verdade, uma sequência que poderia fazer parte do próprio ‘The Greatest Showman’.

‘This is Me’ pode estar a ser apresentado como um hino à inclusão, tema apropriado para os tempos que vivemos (os compositores Beni Pasek e Justin Paul, que no ano passado ganharam o mesmo óscar por ‘City of Stars’, de La La Land, dizem que a ideia era fazer ‘um hino para pessoas que viveram toda a sua vida na sombra e que andam até à luz, declarando que querem ser vistos e amando-se assim’). Mas a ideia deixa algumas dúvidas: será a inclusão daquelas pessoas no espetáculo de P.T. Barnum uma maneira de as integrar e mostrar que não são diferentes e assustadoras, ou apenas uma forma de aproveitar as suas características para ser uma espécie de homem de negócios de sucesso e enriquecer?

O sucesso ‘milagroso’ de ‘The Greatest Showman’, como o ‘The Guardian’ lhe chama (o mesmo jornal que argumenta que canções do filme como ‘Never Enough’, ‘Reunite the Stars’ ou a própria ‘This is Me’ estariam aptas a ganhar um Festival da Eurovisão, não propriamente em tom elogioso) baseia-se muito na capacidade do filme de animar o público, mesmo sabendo que é em vários momentos kitsch e cheio de clichés. Numa das conversas entre P.T Barnum e o crítico de espetáculos James Bennet, que é muito crítico daqueles espetáculos, este acaba por conceder: ‘Gente de todas as cores, tamanhos e formas, como se fossem iguais… outro crítico ter-lhe-ia chamado uma celebração da humanidade’.

A sequência inicial, de praticamente dez minutos, volta a mostrar Hugh Jackman em registo ‘Les MIsérables’, a cantar mais do que a dialogar enquanto apresenta a personagem. No fim, ficamos com a sensação de que nem os momentos ‘feel-good’ do filme e o tom motivacional de ‘This is Me’ compensam as falhas do filme, um musical que tem sido descrito como ‘antiquado’. Mas a receita parece estar a dar frutos.

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    No início de “Coco” ouvimos uma versão de “Remember me” divertida, festiva, exagerada. No final há uma versão suave, ternurenta, triste (e esta é a maneira certa de a cantar e ouvir). “Remember me” condensa em si toda a história do pequeno Miguel e da sua bisavó Coco, ou a história de uma família inteira, ou se calhar a história de um país e da memória que se vai perdendo. Este é o terceiro dos cinco textos que publicamos esta semana sobre os filmes nomeados pela Academia pela melhor canção original

  • Não há canções que me façam querer levantar-me e mudar o mundo

    “Marshall” conta a história verídica de um advogado afro-americano que lutou pelo que estava certo numa altura em que até certas casas de banho lhe estavam interditas. 50 anos depois da sua luta, é a vez de um grupo de estudantes se tornar o símbolo da batalha pelo controlo do acesso às armas nos Estados Unidos. O que une as duas histórias? Uma canção que se tornou um grito de guerra. Este é o segundo dos cinco textos que publicamos esta semana sobre os filmes nomeados pela Academia pela melhor canção original

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    Em “Mudbound”, a música foi feita para ser lamacenta. A lama está por todo o lado, tudo é castanho cor de ódio. Mas a canção final, “Mighty River”, é sobre amor, só sobre amor. Este é o primeiro de cinco textos que publicamos esta semana sobre os filmes nomeados pela Academia pela melhor canção original

  • Quem controla a imprensa?

    É sobre jornalismo, influências, ganhos e perdas. O que está por por trás de um notícia que faz a primeira página de um jornal? Esta é a história de uma das grandes revelações da imprensa: os Pentagon Papers. E quem a conta são três nomes igualmente grandes: Steven Spielberg, Meryl Streep e Tom Hanks

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    O texto que há de ler pode resumir-se assim: “Não conheço uma única mulher que não tenha a mais complicada, louca e bonita relação com a mãe”

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    Eles precisam de voltar para casa porque o inimigo aproxima-se cada vez mais. Eles precisam de sair de Dunquerque porque lá só há morte. Eles, os soldados, precisam de sobreviver

  • Hão de sentir a natureza do medo e do desejo

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