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Entre Bergman e Tarkovsky no Fantasporto

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Filme da Estónia recria o universo dos campos bálticos, entre neves, gelos, lobos e bruxas

“November” do realizador estónio Rainer Sarnet passado quinta-feira à noite foi uma das surpresas desta 38ª edição do Fantasporto. A atmosfera e as lendas da vida rural estónia de começos do século XIX são evocados numa inspirada fotografia a preto e branco. Há uma alma nórdica que anda por ali à solta, tão depressa fazendo lembrar o Bergman de “O Sétimo Selo”, como “Andrei Rubliov” de Tarkovsky.

A aristocracia germânica, mesmo decadente, explora os camponeses estónios mas estes vingam-se, roubando tudo o que podem do palácio. Nada escapa. Nem na igreja, onde as hóstias são subtraídas ao padre para fazer bruxarias. Este engenho ancestral na arte de sobreviver leva-os a tentar enganar toda a gente: a emissária da peste e o próprio diabo mas, como alguns descobrirão à sua custa, vigarizar o maligno é uma arte que não está ao alcance de todos.

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Não é fácil retratar um modo de vida sujo e amoral sem cair no grotesco mas um ou outro momento menos conseguido é compensado por cenas senão de antologia, pelo menos de muito boa qualidade. A não perder (se a fita chegar ao circuito comercial) desde as primeiras imagens, a cena do “kraat” (objecto enfeitiçado com a ajuda do diabo) a roubar gado alheio.

Falando em monstros e feitiços, das Filipinas veio “The Woman in Unit 23B” de Prime Cruz. De novo a antropologia a servir de inspiração à tela, neste caso com a maldição que pesa sobre uma linda rapariga, condenada ciclicamente a transformar-se num monstro alado (a lendária nanannagal) que devora corações, isto literalmente falando, excepto o do rapaz que ama…

Referência ainda para um interessante filme húngaro (outra cinematografia em ascensão, infelizmente pouco divulgada entre nós) cujo título e de alguma forma a temática remetem para Peter Greenaway (O Cozinheiro, o Ladrão, a sua Mulher e o Amante dela). Tratou-se de “The Butcher, the Whore and the One Eyed Man” de Janos Szass, ou seja, o carniceiro, a puta e o zarolho… Uma descida aos “bas fonds” da Hungria dos anos 20, baseada num caso real em que o desejo, a cobiça e a vingança vão ferver em banho-maria no mais apropriado dos cenários: um matadouro de gado.