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Não há canções que me façam querer levantar-me e mudar o mundo

“Marshall” conta a história verídica de um advogado afro-americano que lutou pelo que estava certo numa altura em que até certas casas de banho lhe estavam interditas. 50 anos depois da sua luta, é a vez de um grupo de estudantes se tornar o símbolo da batalha pelo controlo do acesso às armas nos Estados Unidos. O que une as duas histórias? Uma canção que se tornou um grito de guerra. Este é o segundo dos cinco textos que publicamos esta semana sobre os filmes nomeados pela Academia pela melhor canção original

No palco sentavam-se dois grupos de pessoas: de um lado os sobreviventes do ataque à escola de Stoneman, na Flórida, que fez 17 vítimas mortais; do outro senadores americanos eleitos por aquele Estado e uma representante do lóbi das armas. A sessão, um formato de perguntas e respostas que permitiu àqueles jovens afirmarem-se como rostos de um movimento que pretende regular o acesso às armas, foi organizada pela CNN na semana passada e apresentada como um momento histórico. E enquanto os estudantes e os políticos eram filmados e o público se instalava, soavam uns versos no ar: “Nada tem significado se não lutares por alguma coisa / E eu vou lutar por ti”.

Aqueles versos vêm de “Stand up for something”, que começou por ser a canção original do filme “Marshall” e mereceu uma nomeação para melhor canção original pela Academia. Mas a verdade é que se transformou em muito mais do que isso. Desde que foi lançada, “Stand up for something” já foi usada como grito de guerra pelos sobreviventes do ataque da escola de Stoneman, pela Women’s March ou pelo movimento #MeToo, só para citar alguns exemplos.

A razão é fácil de compreender: os versos de “Stand up for something” correspondem a uma fórmula cliché o suficiente para resultar em contextos em que é preciso unir multidões e vaga o suficiente para se adaptar às várias lutas e exigências desses mesmos contextos. Muito disso vem de versos como “You can’t just talk the talk, you have to walk the walk”, uma filosofia perfeita para os estudantes que são os novos símbolos pelo controlo das armas nos Estados Unidos: há anos que se espera que sejam tomadas medidas enquanto se debate o assunto, mas os ataques continuam a suceder-se.

“Stand Up for Something” foi precisamente composta para se assemelhar a um hino, mais especificamente a hinos inspiradores dos anos 1960 como “A Change is Gonna Come” ou “Respect”. A explicação é dada pela compositora Diane Warren, veterana nestas lides: esta é a nona vez que é nomeada nesta categoria – e pode ser a primeira vez que ganha, o que a torna uma espécie de Leonardo diCaprio dos compositores. De Warren já ouvimos composições épicas como “I Don’t Wanna Miss a Thing”, dos Aerosmith, em “Armagedeon”, mas também gritos de outras guerras como “Til it Happens to You”, interpretada por Lady Gaga para um documentário sobre abuso sexual nas universidades.

A guerra não está ganha

É este o tipo de canções que Warren – que trabalhou com Andra Day e o rapper Common, intérpretes de “Stand Up for Something” – prefere trabalhar e é por isso que gostaria muito de finalmente levar o troféu para casa. “Marshall”, o filme que começou por ser o pretexto de “Stand Up for Something”, retrata precisamente uma época de luta: passa-se nos anos 1960, no estado norte-americano do Connecticut, e conta o caso verídico de Joseph Spell (interpretado por Sterling K. Brown), um negro acusado de violar e tentar matar uma mulher negra. Spell é defendido por Thurgood Marshall (Chadwick Boseman), que se tornará depois o primeiro afro-americano a ocupar um lugar como magistrado no Supremo Tribunal de Justiça dos Estados Unidos.
Por muita justiça que Marshall, com os seus dotes inegáveis e uma perspicácia de espantar, consiga fazer, há uma cena marcante nos momentos finais do filme: sentindo-se vencedor, Marshall esbarra de novo com a realidade de uma América racista e segregacionista, que dessa vez assume a forma de um lavatório de casa de banho só para pessoas brancas. A guerra não está ganha, depreende-se do olhar de desânimo, enquanto segue para mais uma batalha em tribunal.

O sentimento que “Stand Up for Something” continua a transmitir é esse, como era intenção de Diane Warren, que queria uma canção que “fosse daquela era e desta era” (podia ser um hino da altura, mas é atualizado pelo rap atual de Common). Fê-la por uma razão simples: “Porque não há canções neste momento que me façam querer levantar-me e mudar o mundo”.

A compositora, como os intérpretes, acredita que a cada dia que passa “Stand Up for Something” ganha mais vida própria e se torna mais “oportuna”. “Faz o melhor que conseguires / Depois podes olhar-te ao espelho / Orgulhoso de quem te olha de volta / Define a vida que vives / Não pelo que tiras e dás / Se apostares no amor não haverá maneira de perderes”. Parecem ser as lições que se tiram da história de Marshall, que naquela altura olhava com desânimo para o lavatório branco para brancos, ou dos estudantes de Stoneman, que passam por cima da tragédia pessoal para se encarregarem de uma missão maior do que eles. É que, como diz Diane Warren, antes como agora, é preciso continuar a defender direitos básicos: “Direitos civis, direitos humanos, direitos das mulheres, direito a ir à escola, direito de ir a um centro comercial ou direito de ir a um concerto sem que alguém abra fogo com uma pistola”. E é preciso uma banda sonora que lhes dê força para isso.

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