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Lembra-te de mim sempre que ouvires uma guitarra triste

Pixar

No início de “Coco” ouvimos uma versão de “Remember me” divertida, festiva, exagerada. No final há uma versão suave, ternurenta, triste (e esta é a maneira certa de a cantar e ouvir). “Remember me” condensa em si toda a história do pequeno Miguel e da sua bisavó Coco, ou a história de uma família inteira, ou se calhar a história de um país e da memória que se vai perdendo. Este é o terceiro dos cinco textos que publicamos esta semana sobre os filmes nomeados pela Academia pela melhor canção original

Vamos falar-lhe sobre um mundo que é colorido, quase sempre festivo, e em que parte desse mundo pertence aos mortos. Mas estes não são mortos representados por esqueletos sinistros e caveiras velhas: os mortos do mundo de “Coco” – nomeado para melhor filme de animação e melhor canção original – são bem-dispostos, vestem-se bem, cantam, dançam e, a cada Día de los Muertos, festa tradicional mexicana para honrar os antepassados, abrem a porta que separa vivos de mortos e passam essa fronteira para fazer frente às saudades que têm dos que deixaram para trás.

É por isso que no primeiro dia de novembro, em “Coco” como no verdadeiro México, as famílias constroem altares com incensos, oferendas e fotografias dos seus antepassados, como se nessa noite eles voltassem à terra para, presume-se, vir buscar o que lhes oferecem e matar saudades. Em “Coco”, o conceito vai um pouco mais longe e existe realmente uma terra dos mortos de onde saem uma única noite por ano – a única condição é que as suas fotografias tenham sido colocadas pela família no respetivo altar. E, mais importante, que ainda haja alguém que conserve memórias dessas pessoas em vida.

É aqui que reside a chave para compreender a essência de “Coco” e da música que o marca, acompanha e, no fundo, resume: a memória. No início do filme, o tema “Remember me” (“Lembra-te de mim”, na versão portuguesa do filme) é interpretado por Ernesto de La Cruz (Benjamin Bratt), que foi uma estrela dos anos 1930/1940 no México e entretanto já morreu. Ernesto é na morte como foi na vida: egocêntrico, sedento de fama, e é assim que interpreta a canção. “Lembra-te de mim” vem com ritmo “mariachi” acelerado e orquestra a empolar a composição.

Mas esta não é a única versão – nem é, na verdade, a versão certa – de “Remember me”. Por entre reviravoltas e surpresas que trocam as voltas a quem vê o filme achando que sabe quem são os bons e os maus, o pequeno Miguel (Antonio Gonzalez), um aspirante a guitarrista que cresce no seio de uma família que odeia música, acaba por redescobrir a canção do seu ídolo Ernesto de la Cruz. Desta vez, ela é cantada como uma canção de embalar, suave, doce, só com guitarra, e os versos ganham novo sentido: “Lembra-te de mim / Embora eu tenha de me despedir / Lembra-te de mim / Não deixes que isto te faça chorar”.

Se estou longe, mantenho-te no meu coração

A história de “Coco” é sobre a família, a memória (representada de forma triste pela bisavó com Alzheimer de Miguel, a verdadeira Coco) e os laços que nos unem, tudo através de uma homenagem colorida à cultura mexicana e ao Día de los Muertos, património imaterial da Unesco. “Remember me” representa tudo isto: é uma canção terna, suave, que nas suas duas versões respeita as tradições do país que está a representar.

De resto, tanto a cultura como a música são parte essencial da história e da própria aura de “Coco”. Por isso, o casal que compôs “Remember me”, Kristen-Anderson Lopez e Robert Lopez, e que já ganhou o óscar por “Let it Go”, de “Frozen”, viajou até ao México para descobrir em primeira mão o que deveria incluir na composição desta canção. Aprenderam sobre mariachis e maracas, familiarizaram-se com ídolos latinos dos anos 1930 - como Pedro Infante e Jorge Negrete - para perceberem como deveria ser e cantar a personagem de Ernesto de la Cruz, e tiveram o que resumem como “uma pequena lição de musicologia”.

Para o casal, compor “Remember Me” foi uma experiência profundamente pessoal por vários motivos. Primeiro porque houve duas mortes na família de Robert Lopez – a avó e a mãe – em pouco tempo e a canção serviu-lhe de inspiração e chegou a ser tocada nas cerimónias fúnebres. Depois porque o casal está habituado a deixar as duas filhas em Brooklyn, onde a família vive, para ir trabalhar para Los Angeles e percebe o problema da distância e da memória que é essencial para compreender e sentir “Remember me”, contam ao “The Frame”.

Sobre “Coco”, o realizador, Lee Unrkich, diz assim: “Soube desde o princípio que queria fazer um filme livre de estereótipos e clichés e contar uma história que fosse culturalmente autêntica”. Teve medo de ser alvo de críticas da comunidade latina, sendo ele um homem branco de Cleveland sem qualquer ligação ao México. Por isso fez várias viagens, em jeito de pesquisa, ao país e ouviu as histórias pessoais dos membros da sua equipa com raízes latinas.

Lee Unrkich decidiu mesmo pôr as personagens a falar ou a cantar ocasionalmente em espanhol, sem direito a tradução, para que os mexicanos se pudessem identificar com aquelas personagens. Parece ter atingido o objetivo, ou não fosse “Coco” o maior sucesso de bilheteira no México de sempre. Quem acaba de ver a história de Miguel e da sua bisavó Coco, que com ele canta como se de repente se lembrasse de todos os que a amaram só por causa de uma canção, dificilmente não ficará com os versos a ecoar na cabeça: “Se estou longe, mantenho-te no meu coração / Lembra-te de mim sempre que ouvires uma guitarra triste”.

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