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É sobre todas nós

Foto Universal Pictures International

O texto que há de ler pode resumir-se assim: “Não conheço uma única mulher que não tenha a mais complicada, louca e bonita relação com a mãe”. “Lady Bird” é um dos nove nomeados para melhor filme nos óscares 2018 e eis a segundo de nove prosas que haveremos de ter ao longo dos próximos dias sobre cada um destes candidatos ao óscar principal

“Porque não podes dizer simplesmente que estou bonita?”, pergunta Lady Bird.

“Achava que nem te importavas com a minha opinião. Desculpa, estava apenas a dizer a verdade. Queres que minta?”, pergunta a mãe, Marion, de volta.

“Queria apenas que… Queria que gostasses de mim.”

“Claro que te adoro.”

“Mas gostas de mim?”

“Quero que sejas a melhor versão possível de ti.”

“E se esta for a melhor versão?” Da mãe, um olhar, silêncio. Mas um silêncio gritante entre “acredita, és bem melhor do que pensas” e o “é bom que isto não seja ao teu melhor”. De Lady Bird, a desilusão por não ter ouvido o que queria ouvir. Nenhuma delas estava certa. Personificam na perfeição cada um dos lados de um dos mais clássicos confrontos do crescimento: a relação entre mãe e filha.

É aqui que está a grande história de amor de “Lady Bird”. Christine McPherson, o nome verdadeiro de Lady Bird - que algures durante a adolescência decidiu que a alcunha lhe assentava bem melhor -, é uma jovem de 17 anos, cheia de dúvidas, sonhos e desejos. É segura e sabe quem é, sabe melhor ainda quem quer ser. Dramática por natureza. A mãe Marion é o oposto. É uma enfermeira que trabalha mais horas do que devia, engravidou já depois dos 40, é prática e racional, por vezes fria. O seu pragmatismo mantém toda a família no caminho certo e é ela que os sustenta quando o marido perde o emprego e entra num estado depressivo. Não sabem lidar uma com a outra e chocam muito, mesmo muito. Quando se amam, amam-se tanto - e só o percebem quando estão afastadas (mas não somos todos um bocadinho assim?).

Greta Gerwin é responsável pela realização e argumento de “Lady Bird” - está nomeada em ambas as categorias. “Não conheço uma única mulher que não tenha a mais complicada, louca e bonita relação com a mãe”, diz. A estas duas nomeações de Gerwin acrescem mais três: melhor filme, melhor atriz com Saoirse Ronan (Lady Bird) e melhor atriz secundária com Laurie Metcalf (Marion).

Foto Universal Pictures International

“Senti-me como se estivesse em casa.” Este é primeiro filme que Greta Gerwin, 34 anos, assina sozinha. Em mais de hora e meia há muito da realizadora - e também atriz - sem nunca ser necessariamente a história da vida dela. Lady Bird tem muito de Greta: “Nenhuma daquelas coisas aconteceu realmente, mas são todas verdadeiras”.

Gerwin é de Sacramento - “o interior da Califórnia” -, estudou num colégio católico e sempre teve o pulsar pelas artes, queria fugir para Nova Iorque. Tal e qual Lady Bird, que desejava ir estudar para o outro lado do país, porque isso significa “ir para onde estão os verdadeiros artistas, os escritores”, e, de certa forma, fugir da mãe e daquele local.

Em “Lady Bird” há todos os clichés da vida de uma miúda que se prepara para crescer. Há a melhor amiga (nada popular e sempre presente), o primeiro namorado (que nos deixa com borboletas na barriga), o irmão mais velho implicante (que se revela um apoio), o pai que não consegue repreender a sua menina (e a cumplicidade destes dois), a nova amiga linda e popular (mas que, enfim, talvez não seja a melhor companhia) e o tipo giro, misterioso, que parece completamente inacessível (afinal o mais acessível de todos, literalmente). E depois há a mãe. Oh, a mãe.

A atriz Saoirse Ronan, à direita, com a realizadora Greta Garwin

A atriz Saoirse Ronan, à direita, com a realizadora Greta Garwin

Foto Universal Pictures International

O musical da escola, as candidaturas para a faculdade, o baile de finalistas, a primeira vez - está lá tudo. Mas também está o medo. O medo de fazer as escolha erradas, de não ser fiel, de desiludir quem se ama. “Lady Bird” não tem grandes truques, prima pela simplicidade, pela genuinidade. Não precisa de mais. É um retrato de um momento da vida. É apenas bonito.

A escolha de Saoirse Ronan é absolutamente perfeita (aviso para comentário muito parcial: será, possivelmente, uma das melhores atrizes da sua geração, porque faz aquilo que poucas conseguem: é subtil, elegante e extremamente contida, não cai no exagero. Prova disso foi “Brooklin” (2015), pelo qual esteve nomeada também para melhor atriz e que tinha tudo para ser um filme lamechas e aborrecido mas que vive muito pela doce Ellis. Três anos depois, e de forma totalmente diferente, Ronan volta a conseguir fazê-lo em “Lady Bird”).

Um filme de miúdas só para miúdas?

Lá fora, os críticos e entendidos em cinema falam “num dos poucos filmes sobre o amadurecimento de uma mulher”. Se “Lady Bird” começa com uma deliciosa discussão entre mãe e filha dentro do carro, termina com uma conversa num tom bem diferente. E isso mostra como Lady Bird cresceu. Como todo o saco de emoções, problemas e questões que atormentam uma típica adolescente ficou para trás, em Sacramento, e já não estão em Nova Iorque, onde está agora e se irá tornar mulher.

Foto Universal Pictures International

“Lady Bird” é uma reflexão: é sobre o que é ser miúda, o que é ser mulher. Mais do que isso, é sobre ser alguém completamente normal. É sobre todas nós.

  • As pessoas mais ou menos

    O que é que fica depois da perda que não se sabe quem a causou? O vazio. O ódio. A culpa. “Três Cartazes à Beira da Estrada” é um dos nove nomeados para melhor filme nos óscares 2018 e é o primeiro de também nove prosas que haveremos de ter ao longo dos próximos dias sobre cada um destes candidatos ao óscar principal