Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

A arte conta como o engenho da industrialização atracou em Matosinhos

DR

A exposição “Urbevoluções”, com quase 30 obras da coleção de arte da Câmara de Matosinhos, leva o público numa viagem entre o final do séc.XIX e a primeira metade do séc.XX, como um navio-espelho que acompanha a metamorfose de uma povoação onde a industrialização atracou

Num tempo distante, em certas épocas do ano, era possível atravessar o rio a pé. O areal era mais extenso. O porto de Leixões ainda não figurava na paisagem. A ponte-móvel e as fábricas também não. As lavadeiras cantavam alegremente nas margens do Leça. Ali, juntas, em uníssono, em tardes estivais ou sob um céu cinzento-tempestade, afogavam as agruras do quotidiano. As águas lavavam as roupas. Levavam as lágrimas. Ouviam as preces. Devolviam à terra os homens e as sardinhas. Até que, subitamente, as águas começaram a trazer uma revolução na corrente. O cenário romântico esbateu-se e, pelas ruas, alastrou um cinzento-cimento. A industrialização atracava, a partir de 1899, em Matosinhos. Prepare-se para um passeio temporal entre o final do século XIX e a segunda metade do séc. XX, numa navegação artística pela história da cidade. Porque a arte é como um navio-espelho.

A transformação urge na urbe. Sem aviso prévio. O retrato naturalista de uma comunidade piscatória dava lugar a um quadro neorrealista de uma povoação a despertar para o admirável mundo novo da urbanização. Estavam em marcha as “Urbevoluções”. Trata-se de uma palavra inventada a servir de título para a exposição de arte, inaugurada este sábado no Museu da Quinta de Santiago, localizado na freguesia de Leça da Palmeira. A mostra coletiva, composta por aproximadamente 30 obras pertencentes à coleção da Câmara Municipal de Matosinhos, fica patente até 6 de maio, neste antigo palacete do final do séc.XIX, atualmente de portas abertas para o público,

Através das pinceladas e da expressividade do traço de artistas como Francisco José Resende (1825-1893), Agostinho Salgado (1905-1967), Aurélia de Sousa (1866-1922), António Carneiro (1872-1930), Carlos Carneiro (1900-1971), Jaime Isidoro (1924-2009), Augusto Gomes (1910-1976) e Joaquim Lopes (1886-1956), entre outros, o público embarca numa viagem diacrónica pela metamorfose urbanística. É a cidade, como um corpo em constante mutação, espelhada através da arte. Às obras dos pintores portugueses, juntam-se também os trabalhos de Hirosuke Watanaki, um japonês que se apaixonou por Matosinhos na década de 1960 e que aos 92 anos ainda fala fluentemente português.

Numa visita guiada para o Expresso, Cláudia Almeida, coordenadora do Museu da Quinta de Santiago, explica que “os quadros expostos apresentam abordagens diferentes do ponto de vista estético a cada paisagem ou a cada cenário”. A responsável realça a presença de “pintores mais naturalistas, como Agostinho Salgado e Aurélio de Sousa, outros mais modernos - exemplo disso é uma obra de Jaime Isidoro, já mais realista - e alguns mais naïf, como Margarida Ramalho”.

As obras expostas nas diversas salas do antigo palacete - onde em tempos habitou a família Santiago de Carvalho e Sousa - testemunham artisticamente o desaparecimento de quarteirões inteiros, casas, jardins e praças públicas, um antigo mercado, estátuas, capelas, cinco pontes, lavadouros públicos e praias fluviais onde dezenas de barcos de pesca tradicional repousavam para depois desafiarem a sorte. “As revoluções que podemos encontrar nestas obras focam-se precisamente no Porto de Leixões, porque é o tema mais retratado nos quadros. A passagem de um rio muito romântico e calmo para um rio industrial. É essa a grande transformação”, frisa Cláudia Almeida.

Numa das salas, a exposição “Urbevoluções” apresenta também uma seleção de fotografias que refletem a evolução e o desenvolvimento urbanístico matosinhense, acompanhadas pela projeção de um vídeo com imagens de arquivo.