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Homens de charuto

d.r.

O mundo perde-se de amores por “A Hora Mais Negra”. O filme está nomeado para os Óscares, Gary Oldman é (justamente) enaltecido e as massas parecem ter redescoberto um inusitado interesse sobre a figura ímpar e singular que foi Winston Churchill. O problema é que concentrar atenções num único filme, porque Hollywood assim o determina, faz esquecer outras obras que, no cinema e na televisão, engrandeceram de igual modo o mais célebre primeiro-ministro britânico

Reinaldo Serrano

Prova evidente que a indústria cinematográfica norte-americana sabe promover-se como poucas, é a quase histeria coletiva que envolve a celebração de “Darkest Hour” (“A Hora Mais Negra”), filme dirigido por Joe Wright e um dos nomeados pela Academia ao Óscar de Melhor Filme.

Nada me move contra o belíssimo trabalho do jovem realizador britânico que, anteriormente, já havia merecido digna atenção quando assinou “Pride and Prejudice” (“Orgulho e Preconceito”) em 2005, “Atonement” (“Expiação”) em 2007 e “Anna Karenina” em 2012; todos e cada um dos trabalhos mereceram tributo e aceitação pública o que, para alguém com 45 anos, há de significar algo de muito positivo.

Nada me move, sobretudo, quanto à notável interpretação de Gary Oldman no papel de Churchill, muito graças ao extraordinário trabalho de caracterização, ambos merecedores da estatueta dourada. Ou seja, em boa verdade nada me move contra esta obra cinematográfica exceto... a falta de memória para outras que, no cinema e na televisão, ajudaram a perpetuar a figura de Winston Leonard Spencer Churchill. É que, para melhor apreciar “A Hora Mais Negra”, mal não fará relembrar outros trabalhos que, desde há muito, retratam o incomparável chefe de governo do Reino Unido.

Desde logo merece atento visionamento um curioso filme de 1972 assinado por Richard Attenborough justamente intitulado “Young Winston”. Em português, o filme recebeu o nome mais entusiástico de “O Jovem Leão” e, sob a narrativa académica pura que jamais abandonou o estilo do realizador, assistimos aos primeiros tempos de formação pessoal e política do mais célebre político britânico. Mais de 45 anos sobre a sua estreia, “O Jovem Leão” vê-se com o mesmo agrado com que na altura venceu o BAFTA e o Globo de Ouro. É uma biografia assumida e inspirada (quando não, enraizada) nas memórias do próprio Churchill, que as descreveu em “My Early Years: A Roving Commission.

Dos tempos de escola à sua eleição para o Parlamento com apenas 26 anos, passando pelas suas aventuras e desventuras por terras do Império Britânico, as duas horas do filme constituem um retrato tão próximo quanto possível das palavras escritas pelo icónico político e são seguramente motivo de interesse para quem queira ter um primeiro olhar sobre a construção de caráter do homem que marcou a II Guerra Mundial.

Simon Ward foi o ator escolhido para interpretar a figura central e a verdade é que não deixou saudades; mas ver os desempenhos de Robert Shaw, Anne Bancroft, John Mills ou o sempre irresistível Robert Hardy são motivos de sobra para, na calada fria da noite, “Young Winston” merecer um olhar digno de registo.

Curiosamente, reencontramos Robert Hardy dois anos mais tarde numa produção feita especificamente para televisão e que teve em Richard Burton o ator escolhido para interpretar o papel de Churchill. Ao contrário do atual sucesso protagonizado por Gary Oldman, o telefilme de 1974 optou por não “vestir” o consagrado Richard Burton com as características que tornaram célebre a figura de Churchill; ao invés disso, a voz e a dicção do homem que conquistara plateias nos palcos e no grande ecrã foram chamadas para conferir credibilidade á personagem no filme dirigido por Herbert Wise.

Consta, aliás, que Burton ouviu vezes sem conta os discursos proferidos por Churchill, ao longo de vários meses, manifestando no final das audições reservas quanto à figura que fora chamado a retratar: o ator ficou particularmente desagradado com as palavras dirigidas pelo primeiro-ministro britânico às comunidades nipónicas residentes nos Estados Unidos e que, em última análise, nada tiveram a ver com a ação do país do sol nascente no grande conflito mundial. Canónico e pouco inventivo, “The Gathering Storm” só seria um nome digno de registo na produção com o mesmo título e para o mesmo suporte – a televisão – surgida em 2002.

Da co-produção da BBC e HBO nasceu uma sólida adaptação do primeiro volume de memórias que Winston Churchill escreveu e que, no seu conjunto, havia de conduzi-lo ao Nobel da Literatura. Desta feita, o político é exemplarmente retratado pelo grande Albert Finney, desempenho complementado a preceito pela eficácia constante de Vanessa Redgrave.

O telefilme (à semelhança do seu homónimo mais recuado no tempo) narra os tempos difíceis que Churchill enfrentou quando a década de 30 caminhava para o seu fim e quando a grande guerra caminhava para o seu início. Desprezado por muitos dos seus pares, olhado com soberba e desdém quando antecipava as intenções do nacional-socialismo, Churchill viu-se numa imensa solidão e agrura, enfrentada em conjunto pelo amor muito particular que uniu para sempre o político e Clementine, a mulher que teve um papel decisivo em praticamente todos os momentos da vida do líder e do homem. Esta cumplicidade muito própria atravessa o núcleo duro de um filme sério, sóbrio e que merece ser recordado ou sublinhado para os que o não viram, até pela “herança” que deixou.

Esta seria retomada sete anos depois quando, em 2009, a mesma parceria de produção chamou Brendan Gleeson para protagonizar “Into the Storm” – um retrato de Churchill em pleno conflito mundial, o seu papel determinante entre os Aliados, as suas lutas internas e externas e, sobretudo, a construção do mito que perpetuou para sempre o “V” da vitória aliada. Gleeson tem uma interpretação equilibrada mas difícil, porque é difícil suceder a Albert Finney, mas, ainda assim, o argumento e os diálogos, a construção narrativa com as suas nuances e a revelação de algumas surpresas ao longo do filme fazem com que mereça ser visto nas suas quase duas horas.

Para que mais não passem, aqui deixo uma última referência: chama-se simplesmente “Churchill”, estreou há pouco mais de seis meses e tem nas interpretações de Brian Cox e Miranda Richardson os trunfos maiores num filme dirigido por Jonathan Teplitzky e que se centra nos quatro dias que antecederam a ofensiva sobre a Normandia. As dúvidas, as críticas, os comportamentos, e a dolorosa consciência do seu afastamento do esforço de guerra endurecem ainda mais a figura de um líder que haveria ainda de ser penalizado pelo seu próprio povo, que hoje o enaltece sem fim.

A figura árida de Brian Cox, a solenidade firme de Miranda Richardson e algumas tomadas de imagem realmente impressionantes ajudam a equilibrar um filme que, ainda assim, parece revelar algumas fragilidades que o tornam mais num conjunto de momentos que num momento uno e contínuo, assim o enfraquecendo mas não o diminuindo por aí além.

O importante mesmo é perceber que ofertas não faltam para quem queira saber mais e porventura melhor sobre Winston Churchill. E se “A Hora Mais Negra” é digna de registo, que se registem igualmente as obras que, com menor publicidade, souberam honrar de igual modo o legado deixado pelo homem do charuto, da bengala, e das tiradas únicas: “A arte da previsão consiste em antecipar o que vai acontecer e depois explicar porque não aconteceu”.