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O triunfo do cinema

“Marrowbone”, do espanhol Sergio G. Sanchez, abre a secção competitiva da próxima edição do Fantasporto

d.r.

O Porto era um deserto. O cinema fora exilado para a periferia e remetido para as salas de centros comerciais, cujo negócio, já se percebeu, é antes de mais a venda de pipocas e refrigerantes. O cinema é ali entendido apenas como o acessório capaz de induzir ao consumo desmesurado de produtos de alto valor calórico.

Para quem gosta mesmo de cinema, a ida àquelas salas transformou-se num ato penoso. Uma violência a que voluntariamente alguns se submetem quando deparam com a absoluta falta de alternativa para poderem ver numa sala escura e numa tela gigante o filme de que gostam, concebido para ser visto numa sala escura e com tela gigante.

“The Post”, de Seteven Spielberg

“The Post”, de Seteven Spielberg

d.r.

A perversidade desta forma de apresentar e ver cinema alastrou e penetrou em locais ou ocasiões inimagináveis. Há dias, numa pré-apresentação para jornalistas do filme “The Post”, feita como habitualmente numa sala de um centro comercial, o impensável e nunca antes visto aconteceu. A escassos segundos do início do projeção entram na sala quatro jovens, dois rapazes e duas raparigas. Se não todos, a maioria eram jornalistas, pelo que se percebeu pelas conversas. Vinham atulhados de pipocas, que mastigavam diligentemente, para desespero dos restantes espetadores, enquanto na tela evoluíam as incidências de uma daquelas grandes histórias que honram o jornalismo.

Até que a displicência levou um(a) dele(a)s a entornar o conteúdo de um gigantesco pacote de pipocas, que se espalharam pelas escadas e distribuíram de forma ainda mais intensa o cheiro enjoativo que tanto as caracteriza.

Desde há um ano, tudo mudou para os verdadeiros cinéfilos da cidade do Porto. É verdade que já havia a programação do Teatro do Campo Alegre. Apesar de condicionada à oferta de uma só distribuidora e, por norma, com apenas um filme em cartaz, era já um oásis de cinema independente.

“Olhares Lugares”, de Agnés Varda e JR

“Olhares Lugares”, de Agnés Varda e JR

d.r.

Até que o mítico cinema Trindade, no coração da baixa da cidade, foi devolvido à vida. Com duas salas muito confortáveis e uma oferta eclética e substancial, chega a ter em exibição seis filmes diferentes por dia. Todos com a qualidade e a procura de cinematografias diversificadas como mínimo denominador comum. E, tal como o Rivoli, o Passos Manuel ou o Teatro do Campo Alegre, sem pipocas, nem refrigerantes.

Associada à reabertura do Trindade veio a criação de um cartão, o “Tripass”, destinado aos frequentadores mais regulares. Mediante o pagamento de uma quota anual de €10, os subscritores têm acesso a preços reduzidos a todas as sessões do Trindade e do Campo Alegre, e ainda à intermitente oferta do Teatro Municipal Rivoli e do Passos Manuel. Aqui incluem-se os festivais Porto/Post/Doc, com uma notável programação na área do novo documentário, entre novembro e dezembro, e o Fantasporto, que começa no dia 20 deste mês de fevereiro.

O “Tripass” está a ser um sucesso absoluto. Já tem cinco mil subscritores e estão a ser pensados novos benefícios para os detentores do cartão. Esta semana, o Trindade está a comemorar o primeiro aniversário com antestreias todas as noites. As salas estão sempre cheias de espetadores interessados em conhecer os diversos mundos de que se compõe o universo da criação cinematográfica.

“A forma da água”, de Guilhermo del Toro

“A forma da água”, de Guilhermo del Toro

Não se pense o Trindade como um reduto minoritário, onde só se exibem filmes estranhos destinados a satisfazer os gostos esquisitos de uma minoria militante. O que define aquela proposta, explorada pelos responsáveis pelo Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira, é antes uma tentativa de dar espaço ao bom cinema. Seja qual for a origem geográfica. Sem preconceitos, mas sem favorecimentos injustificáveis.

O sucesso do Trindade, as salas cheias no Porto/Post/Doc demonstram como o Porto não quer ser um deserto. E confirmam, de novo, o triunfo do cinema.