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Cultura

Um punk vegan vai à caça dos medos com bandeiras de sonhos queimadas

Susana Neves

“Magma” é a mais recente criação de Flávio Rodrigues, em estreia no Teatro Carlos Alberto, entre 15 e 17 de fevereiro. Que guerras são travadas no interior de cada um? O poema cénico, coreográfio e sonoro do artista leva-nos até a um campo de batalha existencial

André Manuel Correia

Um fundo branco. A candura necessária à destruição ou reconstrução. A alvorada para uma paisagem sonora em chamas. Tecidos com padrões militares pousados, agitados depois como bandeiras simbólicas de utopias queimadas. A poética de uma guerra fria no interior do corpo, como uma obra aberta aos abismos individuais. Um lugar existencial onde a violência e o poder implodem na solidão e no silêncio. Assim se pode começar por descrever “Magma - No Limite da Selvajaria”, o mais recente solo de Flávio Rodrigues, numa criação onde a atitude punk convive harmoniosamente com incursões mais introspetivas.

O espetáculo, em estreia no Teatro Carlos Alberto (TeCA), entre 15 e 17 de fevereiro, leva o criador a entrecruzar as fronteiras de corpo, identidade e género, numa miscelânea artística onde a dança, a performance e o som dão origem a uma nova e arrojada linguagem. Morfemas inscritos no movimento. Versos em gestos. Traduções abertas sobre o significado de estarmos aqui. Hoje. Agora. Sozinhos. Em sociedade.

Sozinho em palco, o bailarino e performer veste a pele de um guerrilheiro revolucionário - com as calças queimadas de lixívia - para travar uma luta contra os medos e os paradoxos da existência, autodenominando-se como o “último filho da esperança e do sonho”. Memórias, metáforas, silêncio, dor, coragem, amor, desistência e resistência. Tudo isto fica plasmado em “Magma”, como uma erupção criativa ou a exaltação de um poema coreográfico, cénico e sonoro.

Em linha com a obra que desenvolve há 12 anos, Flávio Rodrigues constrói uma peça, mais próxima de uma ‘performance’, a partir da ideia de uma violência ausente. Invisível. Ruidosa no silêncio que habita cada um de nós, numa batalha niilista. O processo de criação, conta o coreógrafo no final de um dos ensaios, estendeu-se durante oito meses e foi o mais longo da carreira. “Levei para o estúdio imagens, filmes e livros que me remetiam para uma ideia de violência muito presente, ainda que de uma forma poética e subjetiva”, explica o artista, para quem a obra “Sobre a Violência” (1970), da filósofa alemã de origem judaica Hannah Arendt, se assumiu como um elemento charneira.

“É um projeto autobiográfico. Ergo aqui uma bandeira de esperança. É como começar do início, num fundo branco, depois de trabalhos mais negros que desenvolvi no passado”, refere o intérprete de 34 anos, “sempre um pouco zangado com o sistema, mesmo estando num teatro nacional” pela primeira vez.

“O Porto está cada vez mais ‘cooltural’, mas não sei se tem mais arte”

Habituado a estrear as suas produções no Porto, Flávio Rodrigues sempre o fez em contextos mais “underground”, com um diversificado portfólio constituído por performances, filmes, instalações, paisagens sonoras e intervenções públicas.

Ao olhar para a cidade, nota-a diferente. “O Porto era conhecido por esse lado muito punk e alternativo. Tínhamos coisas muito interessantes a acontecer em zonas muito estranhas. Quase tudo isso desapareceu. O Porto está cada vez mais ‘cooltural’, mas não sei se tem mais arte”, nota o coreógrafo, detentor de um trabalho já apresentado em festivais e galerias de artes de vários países, como Áustria, Espanha, Moldávia ou Bélgica.

“Magma - No Limite da Selvajaria” resulta de uma coprodução com o Teatro Nacional São João e conta com o apoio da Associação Útero. Pode ser visto na próxima quinta (15) e sexta-feira (16), às 21h, e no sábado (17), com exibição às 19h. Após a estreia no TeCA, a peça será apresentada no dia 20 de fevereiro no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra.