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“Trump é uma fraude maciça”: Philip Roth 1933-2018

FOTO Philip Montgomery/The New York Times

Um dos grandes autores do século XX e um 
dos mais lúcidos escritores da história da literatura deixou de escrever mas ainda tem muito a dizer

Por Charles McGrath*

C
om a morte de Richard Wilbur em outubro, Philip Roth tornou-se o membro mais antigo do departamento literário da Academia Americana de Artes e Letras, esse majestoso Hall of Fame no Audubon Terrace, em Manhattan norte, que está para as artes como Cooperstown para o basebol. Ele é membro desde que se recorda, num tempo em que a academia incluía figuras hoje praticamente esquecidas como Malcolm Cowley e Glenway Wescott — luminárias encanecidas de outra era. Recentemente, Roth juntou-se a William Faukner, Henry James e Jack London como um dos muitos poucos americanos nas edições francesas Plêiade (modelo para a Library of America nos EUA), e a editora italiana Mondadori também vai publicar a sua obra na sua série Meridiani de autores clássicos. Toda esta eminência tardia — que inclui ainda o prémio espanhol Príncipe das Astúrias em 2012 e ser nomeado comandante da Legião de Honra francesa em 2013 — parece ao mesmo tempo gratificá-lo e diverti-lo. “Veja lá isto”, dizia-me ele o mês passado, segurando o volume da Mondadori, com a sua encadernação ornamentada e tão grosso como a Bíblia, onde se reúnem títulos como “Lamento di Portnoy” e “Zuckerman Scatenato”. “Quem é que lê livros assim?”.

Em 2012, quase a chegar aos oitenta anos, Roth anunciou que se tinha reformado da escrita. (Na verdade, tinha parado dois anos antes). Desde então, tem passado algum tempo a esclarecer as coisas. Escreveu uma carta longa e emocionada à Wikipedia, por exemplo, contestando a ideia revoltante, avançada pela enciclopédia online, de que não era uma testemunha credível da sua própria vida. (A Wikipedia acabou por recuar e refez completamente o artigo sobre Roth). Também está em contacto regular com Blake Bailey, a quem nomeou seu biógrafo oficial e que já reuniu 1900 páginas de notas para um livro que deverá ter metade desse tamanho. Mais recentemente, supervisionou a publicação de “Porque Escrever?”, o décimo e último volume da edição da sua obra na Library of America. É uma espécie de varridela final e polimento do seu legado, reunindo uma seleção de ensaios literários dos anos 60 e 70; o texto integral de “Shop Talk”, uma coleção de 2001 com conversas e entrevistas a outros escritores, muitos deles europeus; e uma secção de ensaios e discursos de despedida, vários publicados agora pela primeira vez. Não por acaso, o livro termina com a frase “Aqui estou eu” — quer dizer, entre capas.

Mas essencialmente faz a vida de um reformado no Upper West Side. (Quanto à sua casa no Connecticut, para onde costumava retirar-se para longos períodos de escrita, já só a usa no verão). Encontra-se com amigos, vai a concertos, verifica o e-mail, vê filmes antigos no FilmStruck. Há pouco foi visitado por David Simon, o criador de “The Wire”, com quem está a fazer uma série em seis partes baseada em “A Conspiração Contra a América”. Diz ter a certeza de que o seu romance está em boas mãos. A saúde de Roth é boa, embora ele tenha feito várias operações a um problema de costas recorrente. Parece bem disposto e satisfeito. Embora refletido, quando quer consegue ser bastante divertido.

Entrevistei Roth várias vezes ao longo dos anos, e o mês passado perguntei se podíamos voltar a falar. Como muitos dos seus leitores, interrogava-me sobre como o autor de “Pastoral Americana”, “Casei Com um Comunista” e “A Conspiração Contra a América” veria este período estranho em que vivemos. E tinha curiosidade em saber como passava o tempo. Sudoku? Televisão diurna? Ele aceitou ser entrevistado, mas só por e-mail. Explicou que precisava de algum tempo para pensar no que queria dizer.

Velhice. A saúde de Roth é boa, embora ele tenha feito várias operações a um problema de costas recorrente

Velhice. A saúde de Roth é boa, embora ele tenha feito várias operações a um problema de costas recorrente

FOTO Philip Montgomery/The New York Times

Daqui a uns meses vai fazer 85 anos. Sente-se um ancião? Como tem sido envelhecer?
Sim, daqui a uns meses sairei da velhice e entrarei na velhice profunda — deslizando cada vez mais profundamente até ao temível Vale da Sombra. Neste momento, é espantoso ainda estar aqui ao fim de cada dia. Quando vou para a cama à noite, sorrio e penso: vivi outro dia. E torna a ser espantoso acordar oito horas depois e ver que é de manhã e continuo cá. Sobrevivi mais um dia, pensamento que me faz voltar a sorrir. Adormeço a sorrir e acordo a sorrir. Dá-me muito prazer ainda estar vivo. Mais: quando isso acontece, como tem acontecido mês após mês e semana após semana desde que comecei a receber Segurança Social, produz a ilusão de que esta coisa nunca vai terminar, embora obviamente eu saiba que pode terminar num instante. É um pouco como jogar um jogo, dia sim dia não, um jogo de apostas elevadas onde para já, contra as probabilidades, continuo a ganhar. Veremos até quando a minha sorte durará.

Agora que se reformou, alguma vez sente falta de escrever ou pensa em desreformar-se?
Não. Porque as condições que me levaram a deixar de escrever ficção há sete anos não mudaram. Como digo em “Porque Escrever?”, em 2010 tive uma forte impressão de que tinha feito o meu melhor trabalho, e tudo mais seria inferior. Já não estava na posse da vitalidade mental ou da energia verbal ou da condição física necessária para montar e suster um grande ataque criativo de qualquer duração e uma estrutura complexa tão exigente como um romance (...) Cada talento tem os seus termos — a sua natureza, o seu alcance, a sua força; também o seu fim, a sua duração, a sua vida (...) Nem toda a gente pode ser frutífera até ao fim.

Olhando para trás, como vê os seus mais de 50 anos como escritor?
Excitação e gemidos. Frustração e liberdade. Inspiração e incerteza. Abundância e vazio. Ir sempre em frente ou atabalhoar. O reportório diário de dualidades oscilantes que qualquer talento aguenta — e tremenda solidão, também. E o silêncio: 50 anos numa sala silenciosa como o fundo de uma piscina, extraindo, quando tudo corria bem, a minha dose diária mínima de prosa utilizável.

Em “Porque Escrever?”, reimprimiu o seu famoso ensaio “Escrever Ficção Americana”, onde argumenta que a realidade americana é tão louca que quase ultrapassa a imaginação do escritor. Disse isso nos anos 60. E agora? Alguma vez anteviu uma América como aquela em que vivemos hoje?
Ninguém que eu conheça previu uma América como a de hoje. Ninguém (exceto talvez o ácido H. L. Mencken, que descreveu a democracia americana como “a adoração de chacais por idiotas”) podia imaginar que a catástrofe que atingiria os EUA no século XXI, o mais rebaixante dos desastres, surgiria não sob, digamos, o aspeto aterrador de um Big Brother orwelliano, mas sob a ameaçadoramente ridícula figura de commedia dell’arte de um bufão gabarolas. Quão ingénuo fui nos anos 60 ao pensar que era um americano a viver em tempos absurdos! Quão pitoresco! Mas, afinal, o que é que eu podia saber em 1960 sobre 1963 ou 1968 ou 1974 ou 2001 ou 2016?

FOTO Philip Montgomery/The New York Times

O seu romance de 2004, “A Conspiração Contra a América”, parece hoje estranhamente presciente. Quando saiu, algumas pessoas viram-no como um comentário à Administração Bush, mas não havia nem de longe tantos paralelos como parece haver hoje.
Por muito presciente que “A Conspiração Contra a América” lhe possa parecer, há com certeza uma enorme diferença entre as circunstâncias políticas que invento lá para os EUA dos anos 40 e a calamidade política que tanto nos consterna hoje. É a diferença em estatura entre um Presidente Lindbergh e um Presidente Trump. Charles Lindbergh, na vida como no meu romance, pode ter sido um genuíno racista e um antissemita e um supremacista branco com simpatia pelo fascismo, mas também era — devido ao extraordinário feito do seu voo transatlântico solitário aos 25 anos — um autêntico herói americano, 13 anos antes de eu o pôr a vencer a presidência. Historicamente, Lindbergh foi o jovem piloto corajoso que em 1927, pela primeira vez, voou non-stop através do Atlântico, de Long Island até Paris. Fê-lo em 33,5 horas, num monoplano com um único motor e um único lugar, assim se tornando uma espécie de Leif Ericson do século XX, um Magalhães aeronáutico, um dos primeiros expoentes da era da aviação. Trump, por comparação, é uma fraude maciça, a soma maligna das suas deficiências, destituído de tudo exceto a ideologia oca de um megalomaníaco.

Um dos seus temas recorrentes tem sido o desejo sexual masculino — desejo contrariado, em metade das vezes — e as suas muitas manifestações. O que acha do momento em que parecemos encontrar-nos, com tantas mulheres a dar a cara e a acusar tantos homens muito conhecidos de assédio sexual e abuso?
Conforme indica, enquanto romancista não sou estranho às fúrias eróticas. Homens envolvidos em tentação sexual é um dos aspetos das vidas masculinas sobre os quais escrevi em alguns dos meus livros. Homens recetivos ao apelo insistente do prazer sexual, acossados por desejos embaraçosos e pela persistência da luxúria obsessiva, enfeitiçados até pela atração do tabu — ao longo das décadas, imaginei um pequeno grupo de homens perturbados exatamente por essas forças inflamatórias, com as quais têm de negociar e lidar. Tentei não fazer compromissos ao retratar cada um desses homens como ele é, cada um como se comporta, excitado, estimulado, esfomeado nas mãos do fervor carnal e enfrentando o conjunto de dilemas psicológicos e éticos que as exigências do desejo apresentam. Não fugi à dureza dos factos do porquê e do como e do quando homens tumescentes fazem o que fazem, mesmo quando isso pudesse não estar em harmonia com o retrato que uma campanha de relações públicas masculina — se houvesse tal coisa — poderia preferir. Entrei não apenas dentro da cabeça masculina mas na realidade dessas pulsões cuja pressão obstinada, pela sua persistência, pode ameaçar a racionalidade de uma pessoa. Pressões às vezes tão intensas que podem chegar a ser sentidas como uma forma de loucura. Em consequência, nenhuma das condutas mais extremas sobre as quais tenho lido ultimamente nos jornais me espantou.

Antes de se retirar, era conhecido por cumprir dias de trabalho muito, muito longos. Agora que parou de escrever, o que faz com todo esse tempo livre?
Leio — estranhamente ou não, muito pouca ficção. Passei toda a minha vida de trabalho a ler ficção, a ensinar ficção, a estudar ficção e a escrever ficção. Em pouco mais pensei até há cerca de sete anos. Desde então tenho passado boa parte do dia a ler História, sobretudo História americana mas também História europeia moderna. A leitura substituiu a escrita e constitui a maior parte da minha vida mental, o seu estímulo.

O que tem andado a ler ultimamente?
Desviei-me um pouco e tenho abordado uma coleção heterogénea de livros. Li três obras de Ta-Nehisi Coates, dos quais a mais eloquente, do ponto de vista literário, é “The Beautiful Struggle”, a sua memória de um desafio de infância pelo seu pai. Ao ler Coates, tomei conhecimento de uma obra de Nell Irvin Painter, o compêndio provocadoramente intitulado “The History of White People”. Painter trouxe-me de volta à História americana, a “American Slavery, American Freedom” (escravatura americana, liberdade americana) uma grande história académica daquilo a que Morgan chama “o casamento da escravatura e da liberdade” tal como existia na Virgínia dos inícios. Morgan levou-me sinuosamente a ler os ensaios de Teju Cole, embora não antes de eu fazer um grande desvio para ler “O Desvio”, sobre as circunstâncias em que foi descoberto no século XV o manuscrito do subversivo “Sobre a Natureza das Coisas”, de Lucrécio. Isso levou-me a atacar parte do longo poema de Lucrécio, escrito algures durante o primeiro século depois de Cristo, numa tradução em prosa de A. E. Stallings. Daí passei para o livro de Greenblatt sobre como Shakespeare se tornou Shakespeare, “Will in the World”. Como é que no meio de tudo isto acabei por ler e apreciar a autobiografia de Bruce Springsteen, “Born to Run”, não consigo explicar, exceto dizendo que parte do prazer de ter agora tanto tempo à disposição para ler o que me aparece no caminho é que isso conduz a surpresas não premeditadas.

Cópias de livros em pré-publicação chegam regularmente pelo correio, e foi assim que descobri “Pogrom: Kishinev and the Tilt of History”, de Steven Zipperstein. Ele aponta o momento no início do século XX em que o destino dos judeus se tornou fatal de um modo que anunciava o fim de tudo. “Pogrom” levou-me a descobrir um livro recente de história interpretativa, “The Jewish Century”, onde Yuri Slezkine alega que “a Era Moderna é a Era Judia, e o século XX, em particular, é o Século Judeu”. Li “Impressões Pessoais”, de Isaiah Berlin, os seus ensaios-retratos sobre o elenco de figuras influentes do século XX que ele conheceu ou observou. Há uma aparição de Virginia Woolf em todo o seu génio aterrador e há páginas especialmente fascinantes sobre o encontro inicial à noite, numa Leninegrado devastada pelos bombardeamentos, com a magnífica poetisa russa Anna Akhmatova, então na casa dos 50, isolada, solitária, desprezada e perseguida pelo regime soviético. Escreve Berlin: “Leninegrado não era para ela mais do que um vasto cemitério, o túmulo dos seus amigos (...) O relato da tragédia sem alívio que era a sua vida ultrapassou tudo o que alguém jamais me havia descrito em palavras faladas”. Falaram até às 3 ou 4 da manhã. A cena é tão comovente como qualquer coisa em Tolstoi.

Na semana passada, li livros de dois amigos, a pequena e sábia biografia de James Joyce por Edna O’Brien, e uma autobiografia excêntrica e cativante, “Confissões de um Velho Pintor Judeu”, por um dos meus mais queridos amigos, o grande artista americano R. B. Kitaj. Tenho muitos queridos amigos mortos. Um certo número deles eram romancistas. Tenho saudades de descobrir os seus livros novos através do correio.

*Exclusivo “The New York Times”/
Tradição de Luís M. Faria

SAI O FANTASMA

Texto de Clara Ferreira Alves

Texto de Clara Ferreira Alves

“Nós, pessoas que leem e escrevem, estamos acabados. Somos fantasmas que testemunham o fim da era literária”. A frase pertence ao romance de Philip Roth “Exit Ghost”, e é argumentada por Amy Bellette, uma das personagens, em conversa com o alter ego de Roth, o escritor Nathan Zuckerman. Bellette está a citar outro escritor, E. I. Lonoff. Lonoff, material da imaginação, aparece em mais de um dos livros de Roth, autor que criou uma teia familiar de personagens que o acompanharam ao longo da carreira terminada aos 80 anos, oficialmente, quando anunciou ter parado de escrever. Aos 78 anos, dois anos antes, sabemo-lo agora, Roth renunciou à pena. Sem pena, diga-se de passagem. Mais de meio século passado a ouvir as vozes na solidão de um quarto, apurando a prosa e o raciocínio, deixaram-no exausto e faminto por uma existência normal. Amigos, convívios, tédios, prémios, leituras e, supõe-se, os festins das adulações e idolatrias que ligam com o nome Philip Roth. Mais a vigilância dos biógrafos. A pena deixou de precisar do tinteiro, com grande pena dos milhões de leitores no mundo que são, como eu, amantes de Roth. E sobraram as interrogações e as ausências. Que bom seria ouvir Roth sobre esse novelo de iniquidades que dá pelo nome e pela marca Trump. Que bom seria saber o que pensa sobre o movimento #MeToo e as perversões, tão rothianas, de Harvey Weinstein e afins. Que bom seria, enfim, ter um novo romance de Roth para ler numa nova estação do ano. No more.

Esta entrevista não chega para suprimir as ausências mas dá-nos uma ideia, a leitores e admiradores, do que perdemos. O grande escritor, por vezes, serve profeticamente os costumes e os tempos que estão para vir, e se relermos “O Complexo de Portnoy”, que padece os vícios da arrogância da juventude e da prepotência do corpo e do desejo, encontraremos essa intenção carnal e animal, o sexo que tudo derrota e humilha até se satisfazer. A intenção é, evidentemente, masculina, máscula, porque Roth sempre se colocou na pele do homem que acaricia e penetra a pele da mulher. Esta presciência, que na maturidade descambaria numa obra-prima chamada “O Animal Moribundo”, onde o sexo, o amor e a morte, os grandes temas, se intercetam, valeu-lhe uma nota negativa da pudibunda Academia Nobel.

O famoso prémio premiou escritores menores do que este judeu nascido em Newark, New Jersey, do lado errado das luzes de Manhattan. O que se especulou sobre tal não-atribuição, ou atribuição-fantasma. Uns diziam que era por ele ser um judeu a tentar desvendar a condição do judeu americano. A teoria nunca fez sentido, porque Saul Bellow fez exatamente a mesma coisa de outro modo e ganhou o Nobel. Outros diziam que era a misoginia, a priápica misoginia dos homens dos romances, o plural é sempre masculino, incluindo o dito Nathan Zuckerman, que apresentava as virtudes e defeitos do dito Roth. Quem pode impedir a interpretação que se arroga os direitos e deveres de um corpo e de uma mente alheios? Quem, melhor do que Roth, poderia descobrir para melhor criticar a misoginia de Roth? Ele mesmo se encarrega de ressalvar que atribuir às personagens do escritor as características do autor é um erro de paralaxe e um crime que os críticos literários praticam com reincidência. Sobretudo os críticos sem obra nem experiência ficcional que se entretêm nas dilacerações da alma do outro em vez de escavarem a própria. E assim se criou, no jargão do criticismo por vezes confundido com cretinismo, um ser híbrido que era simultaneamente um moralista, e negar o compasso moral de Roth é nunca o ter lido, e um debochado. Como se os deboches dos seus homens, os que ele inventou e aos quais deu um ponto de observação e uma ação (Aristóteles e Fitzgerald tinham razão, a personagem é a ação e a ação é a personagem) fossem os deboches dele. Ou como se os deboches fossem naturalmente, pela mera inserção dos órgãos genitais masculinos nos corpos femininos, ou pelo secreto desejo dessa inserção, deboches. A moral dominante é repressora e está embrulhada em hipocrisia. Em “O Animal Moribundo”, ou em “A Mancha Humana”, podemos concluir que não se trata de diminuir as mulheres ou de as categorizar secundariamente na intriga. Trata-se de concluir, sem mistérios e sem atenuantes, que o instinto sexual é uma força tão poderosa como o criminoso instinto da sobrevivência, e que o mais avisado dos seres pode em qualquer momento trocar a impensada (i)mortalidade por um instante de desejo. O impulso lê-se igualmente autores tão bem comportados como T. S. Eliot, do I dare disturb the universe?, ou tão malcomportados como Oscar Wilde e Paul Bowles. Ninguém quer medir a vida em colherinhas de café. Sabemo-lo muito bem, se quisermos ser realistas, desde os modernos Ibsen e Tchekov. Pelo menos.

Nota-se que Philip Roth responde cautelosamente à pergunta sobre o novo movimento de libertação das mulheres que entrou agora, como todas as revoluções, na fase do Terror, julgando e condenando os que o desafiam ou contrariam. #Metoo e youtoo na idade do Twitter e do YouTube. Que estão à espera? Responder a isto com livros do passado, livros que contêm cenas eventualmente chocantes, é tão perigoso como caminhar na trôpega velhice sobre gelo sujo. Escorrega-se. Cai-se. Ora o velho senhor não está para isso. Diplomaticamente, escuda-se com os desvios e devaneios da espécie humana na versão masculina heterossexual, a que ele conhece e tratou. Vinha avisando que a carne a des raisons que la raison ne connaît pas. É preciso cuidado com a nova moral cibernética e indignada. Já não estamos na era literária, como diria Lonoff, somos apenas as testemunhas, os que lemos e escrevemos, de um tempo que passou. As novas feministas não gostariam de ler tantas vezes a palavra fellatio. Ou de saber dos seus efeitos num rapaz desprevenido como o protagonista de “Indignação”. Exit a preconceituosa cumplicidade do escritor com os seus atores.

Philip Roth respondeu por escrito na entrevista, o que lhe deu tempo para burilar, afiar a ponta do lápis até o traço ser forte e definido deixando de ser grosso e esborratado. Foi isto que ele fez na carreira literária, afiar a frase, trabalhar as palavras numa combinatória de infinitas possibilidades até achar a versão final, a que satisfizesse o perfeccionismo da consciência. Philip Roth não é apenas um dos grandes escritores do século XX, é um dos mais lúcidos e inteligentes escritores da história da literatura, se tal existe. É preciso lê-lo com atenção e demora, até lhe decifrar a ambição da gramática e da matemática, até perceber o teorema por resolver. Certas frases de, por exemplo, “A Mancha Humana”, e a sua postura ontológica, ou de “Pastoral Americana”, têm uma densidade que supera largamente os efeitos da intriga. Da história. Eliot, de novo: o propósito da literatura é tornar o sangue em tinta.

O escritor americano acompanhou sempre a marcha, a longa marcha, da condição americana, que nem sempre se confunde com a condição humana. Não se trata apenas dos movimentos dos direitos civis ou da libertação sexual, ou dos perigos de transformar o santuário da democracia e da liberdade num altar onde se idolatram os tiranos do século XX, os que também exterminaram e mandaram exterminar judeus. Em “A Conspiração Contra a América”, Philip Roth antecipa um “fascismo” americano. Haveria que ouvi-lo sobre Trump. Mais uma vez, a lucidez destrói as comparações. Charles Lindbergh era um herói americano, autoritário e racista, Trump é um bufão, é uma soma das suas imperfeições e incapacidades, tiques e toques. Trump é uma caricatura e nem sequer a caricatura de um herói. É o produto do culto da celebridade e do dinheiro, que controla nas massas inanes o desejo de uma vida melhor. A cópia é o modelo dominante nas classes destituídas e anestesiadas pela televisão e a internet. Não o mérito, a cópia. Ou, na versão menor, a que nenhum Shakespeare conseguiria emprestar grandeza, a inveja e o ressentimento, o ódio ao outro que não é como nós, ao estrangeiro. E a indiferença perante o mal. Esta anomia contemporânea teve o profeta maior em Albert Camus, que não viveu para ver o século XXI tornar reais as vergastadas personagens.

Sobre Trump, Roth é incisivo e sintético. E, sabemo-lo agora, nada na personagem parece que o inspiraria a escrever mais do que aqui diz. Trump, enquanto personagem da realidade, não tem dimensão ficcional suficiente, é bidimensional, cartão e cola. Não tem densidade e muito menos grandeza. Trump não é Nixon, Tricky Dick, que inspirou um livrinho menos lido das mais de três dezenas que o autor escreveu. “Our Gang”, não traduzido em português, é uma ficção que satiriza com ironia e comicidade o grande mestre do crime. Richard Nixon era um bandido, tinha a espessura de um bandido, a perspicácia de um bandido. Roth chama-lhe Trick E. Dixon, e faz dele um Presidente que esconde atrás das boas intenções e de uma linguagem brandamente codificada, uma novilíngua orwelliana, os crimes contra a humanidade. Uma das partes mais hilariantes do livro é aquela em que Trick E. Dixon declara guerra à Dinamarca, um país assolado pela pornografia. Algo está mal no reino da Dinamarca e não é nada que as armas nucleares não resolvam.

Não esqueçamos que os tempos de Nixon eram da maior brutalidade e inquietude, as pessoas marchavam nas ruas, marchavam contra a Casa Branca, manifestavam-se nas escadas do Capitólio e no campus da universidade, morriam das balas da polícia, iam para a prisão em nome das convicções. Cassius Clay virou Muhammad Ali. Jane Fonda virou Hanoi Jane. E, nos confins da Ásia, uma guerra mentirosa e perdida pelos generais e os políticos, morria e matava em nome do combate ao comunismo. O Vietname, os movimentos feministas e libertários, as insurreições dos negros, a violência e a rebeldia generalizadas no final dos anos 60, apanharam Tricky Dick nos anos 70. A América mudou, e um certo idealismo, incluindo o do bom jornalismo, fê-la mudar. O idealismo é uma qualidade em vias de extinção. Mal visto no sistema capitalista global. Mal visto nas redes sociais que não suportam o que se opõe ao vácuo narcisismo. Se têm tudo o que querem para quê quererem mais?

Visto que o autor se retirou de cena há meia dúzia de anos, e aprecia a substância, Donald J. Trump nunca servirá de material para uma sátira política. Nunca saberemos o que perdemos no dia em que o escritor pousou a pena. Sabemos que deixou de ler ficção, uma confissão extraordinária que reforça a ideia de que, nos tempos extraordinários em que vivemos, a ficção deixou de representar o mundo. Ou deixou de constituir-se como representação e vontade do mundo. Roth, um velho no fim da vida que considera cada dia em que acorda quente e desperto um milagre, um autor que conheceu e descreveu como nenhum outro as indignidades do envelhecimento, as renúncias forçadas do corpo e da mente, lê ensaios e lê História. Lê sobre a escravatura, que nunca foi a sua condição, e lê sobre Shakespeare e ser-se Shakespeare. Faz sentido. Faz sentido duplamente. Não só porque se regressa sempre a Shakespeare quando se trabalha com palavras, como quem pretende regressar a uma inocência perdida, também porque o mistério de Shakespeare, da escrita de Shakespeare, do colosso que Shakespeare foi e é, continua tão indecifrável no fim da vida literária como no princípio. Uma obra onde desfila a variedade humana capturada com um esplendor cómico e trágico, sempre dramático, até hoje inigualável. Quanto mais se lê mais se afasta de nós pelo génio e pela complexidade, como as estrelas das galáxias que as leis do universo em expansão vão empurrando para longe de nós.

O respeito de Philip Roth pela literatura, pela arte, é o do bom entendedor. A ficção exigir-lhe-ia uma energia e um cérebro que ele, devido aos anos avançados, deixou de ter. E a concupiscência foi-se. A ficção assim praticada devora a vida e precisa da vida.
E. I. Lonoff tinha razão. O título de “Exit Ghost” retirou-o Roth da leitura de “Macbeth” de Shakespeare. É uma das instruções de palco na cena de Banquo, o fantasma. A mesma instrução aparece em “Júlio César” e “Hamlet”. Sai o fantasma. No livro com esse título, disserta-se sobre a presidência de George W. Bush e o primeiro mandato, a propósito. Philip Roth esteve atento aos presidentes esdrúxulos. E às incoerências de um sistema que se reclama de pesos e contrapesos de modo a impedir a eleição de ectoplasmas. O mundo anda às avessas, e os ectoplasmas são agora os literatos, os que acreditam no poder da arte, da cultura, da linguagem, da educação, da formação da personalidade e da inteligência. Os elitistas mal-afamados. A esta elite de liberais bem-pensantes de Nova Iorque, muito diferente da de Hollywood, pertence Philip Roth, testemunha do fim da era literária. Exit ghost.
Destruam Copenhaga. Com fogo e fúria.