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Os passos em volta dos territórios que moram dentro dos outros que somos nós

Gabriel Tizón

A exposição fotográfica coletiva “Be A Photographer”, patente na galeria Shairart, em Braga, leva o público numa viagem por territórios exteriores e interiores. Em foco está o trabalho de Gabriel Tizón, fotógrafo e ativista que acompanhou e viveu a realidade de milhares de refugiados

André Manuel Correia

Gabriel estava na ilha de Lesbos, na Grécia, local onde chegavam, todos os dias, em 2015, barcos de resgate com refugiados. A sua missão era captar a realidade de quem deixava as tempestades de um passado ainda presente, sem o horizonte de um futuro firme. Rostos invisíveis de uma crise migratória. Para muitos, não passam de números. E eram aos milhares. Aproximando-se de um homem, acabado de desembarcar, ofereceu-lhe ajuda. O único pedido que recebeu foi um cigarro. Vinha desde a Síria. Contou ao fotógrafo galego que tinha um cancro em estado muito avançado. Os médicos deram-lhe poucas semanas de vida. Depois de alguns minutos de conversa, por curiosidade, Gabriel Tizón enquadrou a pergunta: “onde vai buscar a força para continuar a viagem?” A resposta chegou sem filtros. “Caminho pela minha dignidade e por respeito a mim próprio. Não quero morrer debaixo de uma bomba. Quero morrer tranquilamente, como acho que mereço”.

Esta é uma das muitas histórias por detrás de aproximadamente 50 fotografias da autoria de Gabriel Tizón, pertencentes a uma série intitulada “Europa, Século XXI” e que serve de charneira para a exposição coletiva “Be A Photographer”, inaugurada este sábado na galeria Shairart, em Braga, e patente até 24 de fevereiro. A entrada é livre para este jogo fotográfico sem fronteiras, em que o objetivo é levar o público numa viagem reflexiva sobre o conceito de território.

Pare. Olhe. Questione. Quem somos nós? E os outros? Somos os outros. Entregues a uma deambulação por geografias interiores não cartografadas. Forasteiros de nós mesmos, de quem nos vamos aproximando todos os dias. Somos a capacidade de encontrar em cada ser humano um território inexplorado, sem colonizar as mundividências que nos diferenciam e unificam.

Os registos fotográficos de Gabriel Tizón representam quase metade do que pode ser visto nesta exposição internacional, onde confluem também as perspetivas captadas pela lentes de outros autores, como o grego Dimitri Mellos, que retrata a beleza da coabitação de culturas da sociedade nova-iorquina. A estes dois nomes internacionais, juntam-se ainda os portugueses André Castanho Correia, Limamil, Ricardo Reis e o jovem estreante Miguel De. Todos eles colocam no centro dos seus trabalhos problemas periféricos e fazem incidir a luz na penumbra do esquecimento mediático.

Picasso defendia que “a pintura não é feita para decorar os apartamentos; é um instrumento de guerra ofensivo e defensivo contra o inimigo”. É isso que fazem estes seis fotógrafos, pintando com as objetivas, a partir de uma ampla paleta de temas humanitários. Desbravam, com uma dimensão política e de intervenção, a multiculturalidade. Porque cada pessoa é um mundo com universos dentro. “Be A Photographer” serve como uma sirene capaz de despertar uma consciência coletiva. Um alerta esteticamente cru, onde ficam bem focados temas como as desigualdades sociais e a odisseia forçada daqueles a quem os senhores da guerra deixaram despojados de tudo.

Gabriel Tizón

A mostra surge inserida na programação de Braga Capital Criativa da UNESCO e “o mote surge de um encontro ocasional com o trabalho de Gabriel Tizón”, explica ao Expresso Helena Mendes Pereira, curadora da exposição, juntamente com Catarina Martins. “Aquela série de fotografias impressionou-me verdadeiramente e, a partir daí, começámos a trabalhar a ideia de território e de fronteira. Foi assim que desembocámos na escolha dos outros fotógrafos”, complementa a investigadora em políticas e práticas culturais e artísticas contemporâneas.

“Não se trata de uma crise de refugiados, mas de uma crise de valores”

As fotografias de Gabriel Tizón ocupam o corpo central e lateral esquerdo do espaço expositivo. Numa visita guiada conduzida pelo autor espanhol ao Expresso, inicia-se um percurso, acompanhando o caminho - onde o desespero e a esperança andam de mãos dadas - efetuado pelos muitos migrantes que o espanhol teve a oportunidade de acompanhar. Começou este trabalho em 2015, quando se deparou com uma nova forma de pensar, relacionada com aquilo que considera ser uma “inexistência de valores nos lugares onde se supõe que existem”.

Gabriel fez 15 viagens, num périplo por mais de 10 países. Percorreu a rota balcânica e a costa da Líbia, com o único propósito de ir ao encontro daqueles que chegavam sem nada. Regressa frequentemente. Não esquece quem acompanhou pelo caminho. Reencontra várias vezes aquelas pessoas, com as quais criou amizade. “Muitas delas tinham tudo, como qualquer um de nós, e são provenientes de culturas milenares - como a Síria ou o Irão - muito mais antigas do que a nossa. Eram arquitetos, médicos, professores, et cetera. De um dia para o outro, ficaram sem nada e são mal recebidas quando chegam à Europa”, lembra o fotógrafo de 44 anos, multipremiado e com alguns livros publicados, para quem “não se trata de uma crise de refugiados, mas de uma crise de valores”.

Aproxima-se de cada ser humano e das histórias de vida que lhe “alimentam a personalidade”. Afasta-se dos preconceitos. “Eu sou espanhol, sou galego e, se for a uma cidade africana, sou considerado turista. Mas se um africano cá vier, é rotulado como um imigrante. Parecem convenções insignificantes, mas a mim não me servem”, assevera este artista sem fronteiras.

A terra pertence à Terra. As fronteiras só existem na nossa cabeça”, acrescenta Gabriel Tizón, fotojornalista desde 1995 - tendo trabalhado para o “El País” e colaborado com muitos outros órgãos de comunicação social -, até ter trocado o frenesim de uma redação pela liberdade criativa e, sobretudo, pelas causas sociais. “Era um encargo necessário para me colocar a comida na mesa, mas ao longo do tempo vai-se perdendo o efeito surpresa da fotografia. Há uma linha editorial, há pouco tempo… Atualmente, não tenho nada disso”, afirma o galego, natural de Ferrol. “Nunca levo um guião, nunca sei para onde vou. Gosto de me deixar surpreender. Vendem-nos medo a toda a hora. Vivemos rodeados de imposições, entre o êxito e o fracasso.

Querem que sejamos grandes, bonitos, bem-sucedidos… Tentam constantemente mostrar-nos os caminhos bons e os caminhos maus. Isso, para mim, não existe, é uma forma de nos anularem. Tudo tem a ver com a forma como caminhamos”, argumenta o fotógrafo.

Gabriel Tizón

“E há quem chame terroristas a estas pessoas”

O percurso é duro, até porque Gabriel Tizón não se limita a fotografar à distância. Já dormiu num cemitério com centenas de migrantes e atravessou águas incertas, numa pequena embarcação, carregada com quase 200 pessoas que escapavam do rebentamento das ondas de destruição em que os seus países de origem mergulharam . Sente na pele todas dificuldades vividas pelos refugiados que acompanha, tal como uma menina síria de nove anos que encontrou na Sérvia, a caminhar, sozinha, sem pai nem mãe.

Também na Sérvia, junto à fronteira com a Croácia, encontrou um rapaz que se aproximou dele e de alguns companheiros. “Pediu-nos um livro. Fomos comprá-lo e, quando lho demos, ele começou a chorar. E há quem chame terroristas a estas pessoas”, recorda o autor e ativista, fundador da ONG denominada “Causas Comuns”, criada para prestar apoio a refugiados no terreno. “Gosto de estar com as pessoas e a fotografia é quase uma desculpa para todas estas vivências”, reconhece Gabriel Tizón, para quem “as fronteiras só existem na nossa cabeça” e defensor de que “todos nós somos territórios individuais”.

Gabriel Tizón

Numa Europa em que os extremismos proliferam novamente, muitos olham para os migrantes como invasores, algo inconcebível para este fotógrafo. “Estive recentemente em Paris, onde reencontrei muitas das pessoas que acompanhei e fotografei durante a minha rota pelos países balcânicos. Fiquei alucinado com aquilo que vi na capital francesa, conhecida como a ‘cidade do amor’. Ali pude ver a realidade de aproximadamente 20 mil pessoas que dormem nas ruas parisienses ou em locais periféricos, para que os turistas não as vejam”, lamenta Gabriel Tizón.

Numa das fotografias patentes na exposição “Be A Photographer, pode ver-se um passaporte caído no mar, algo que assume um simbolismo particular. “Se temos um passaporte, podemos entrar tranquilamente. Se não o tivermos, tudo nos é negado. Não depende da pessoa que somos, mas sim do papel que possuímos. Vivemos numa sociedade em que o papel vale mais do que a personalidade, não interessa se somos boas ou más pessoas”, nota Gabriel Tizón, um humanista capaz de colocar em evidência as cicatrizes dos valores ocidentais. Afirma não ser um “mitómano”. Não idolatra futebolistas, como Ronaldo ou Messi, nem dedica especial atenção às celebridades de Hollywood. No filme da sua vida, são todas aquelas pessoas que fotografou a assumirem o protagonismo. “Admiro-as imenso, porque não sei se teria a mesma coragem. São as minhas grandes referências”, revela o fotógrafo.