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George Saunders: “Nascemos para amar, mas tudo o que amamos é temporário”

FOTO Johnny Louis/FilmMagic

Ganhou o Man Booker Prize de 2017 com “Lincoln no Bardo”, um romance que o júri destacou pela forma e estilo completamente originais. A história faz parte da história norte-americana. A morte do filho do presidente Lincoln

Para um pai a perda de um filho é a pior tragédia que um ser humano pode viver. Foi por essa a razão que demorou tanto tempo a escrever sobre a dor de Lincoln?
Achei esta história muito bonita, porque reside nela um grande dilema: nascemos para amar, mas tudo o que amamos — incluindo nós próprios — é temporário. Neste caso, Lincoln teve que enfrentar este dilema quando tanta gente contava com a sua liderança.

Até “Lincoln no Bardo” apenas tinha escrito contos. Só escreveu este romance quando teve tempo, dinheiro, espaço para o fazer?
Não, na verdade o que eu queria mesmo fazer era escrever esta história em particular. Quando comecei a escrever percebi que o tamanho do romance era o que melhor se adequava à história. Todas as histórias têm nelas inscrito uma espécie de ADN e uma parte do trabalho do escritor é descobrir qual o tamanho que a história requer.

Cruzou-se com a história da morte do filho de Lincoln há pelo menos duas décadas. Porque é que lhe foi tão difícil escrevê-la antes?
Sim, é verdade. Foi um familiar da minha mulher que me chamou a atenção para a cripta, onde Lincoln, destroçado com a morte do seu filho, o visitou por “diversas vezes” para o abraçar e de algum modo interagir com o corpo, num dia em que passávamos de carro junto ao cemitério. Não sei explicar o que me agarrou nesta história. Tentei afastá-la, mas ela voltou de modo insistente. Finalmente, em 2012, decidi tentar escrevê-la, desse lá para onde desse. O que me fez hesitar durante tanto tempo foi a sinceridade, a carga emocional, a dificuldade própria ao assunto e também a sua natureza histórica. Não sabia como escrevê-la e, ao mesmo tempo, torná-la interessante.

Incluiu excertos dos documentos que encontrou na sua pesquisa. Esses textos eram mais pungentes do que as suas palavras?
Pareceu-me que esses excertos tinham a simplicidade e a autoridade que acentuariam e fortaleceriam as vozes mais irreais e fantasmagóricas. Se um leitor começar a duvidar da veracidade dos fantasmas, um narrador histórico apareceria e usaria os factos como engodo, de modo a que o leitor voltasse a acreditar na história. Gostaria de acrescentar que parte dos textos “históricos” foram na realidade inventados por mim.

Porque é que todas as personagens estão mortas (só Lincoln está vivo) e todas as histórias estão acabadas?
Não acho, na verdade, que as suas histórias estejam acabadas — eles ainda têm consciência de que há algo em jogo. Estava muito interessado na história da morte de Willie Lincoln e na reação do Abraham Lincoln a esta, e a única pessoa viva nesse cenário era, de facto, Abraham. Num trabalho de ficção os “problemas” são muitas vezes oportunidades. Assim, neste caso, o “problema” de apenas existir uma pessoa viva deu-me “oportunidade” de encontrar uma outra forma, e uma forma autêntica, de a narrar, perguntando: “Quem mais está no cemitério à noite que me possa ajudar a contar esta história?”

É um livro sobre a vida que temos ou sobre a morte que queremos evitar?
Creio que é sobre ambas. Escrever sobre pessoas em conflito, estejam vivas ou mortas, é, na realidade, escrever sobre as suas próprias vidas. A comunidade que existe no cemitério não é diferente de qualquer outra comunidade de seres humanos. Os seus habitantes estão presos à imagem que têm deles próprios; a coisas como a identidade, a própria primazia e honestidade, da mesma forma que nós estamos presos a estas coisas enquanto estamos vivos. Sendo assim, e em última análise, um livro escrito por um ser humano vivo terá sempre a vida como tópico.

Por que escolheu uma estrutura polifónica?
Sinceramente, deparei-me com ela e gostei. E isto, para mim, é um princípio artístico muito importante. Se formos fiéis ao nosso próprio interesse e ao que nos entusiasma atingimos maior profundidade e complexidade. O escritor é uma espécie de máquina de “procurar energia”. Tem de perguntar o que lhe dá prazer, interessa, anima. É aí que se encontra o livro mais profundo.

O livro é muito trágico, mas há uma intenção clara de não ser demasiado sério o tempo todo. O humor é intencional?
Sim. A vida é ao mesmo tempo, e a cada instante, engraçada e trágica. Nós apenas fazemos essa distinção, comédia versus tragédia, para facilitar a categorização das coisas. Tenho de discordar um pouco da afirmação de que o livro é “muito trágico”. Um grande número de fantasmas são libertados através das ações positivas de Willie, de Lincoln e dos parceiros, e eu acho isso esperançoso. À medida que ia escrevendo, mantive sempre presente uma passagem dos evangelhos gnósticos, onde Jesus diz qualquer coisa como: “Se trouxeres à tona o que está dentro de ti, o que for trazido à tona salvar-te-á. Se não trouxeres à tona o que está em ti, o que não for trazido à tona destruir-te-á.” Alguns dos fantasmas trazem, de facto, à tona o que têm dentro de si, e isso salva-os; o que, para mim, é algo esperançoso.

É um livro sobre o desencanto com a vida ou sobre a luta para enfrentar a morte iminente?
Sobre os dois. As pessoas que estão no livro, ou seja, no bardo, escolheram-se a si próprias pelo facto de não terem tido uma vida satisfatória, de não terem caminhado para a morte com uma alma feliz. Assim, toda a gente feliz e ajustada está noutro local — num outro livro, possivelmente.

O que é que este prémio significa para si?
Dá-me, sobretudo, confiança para tentar, da próxima vez, algo maior. Assegura-me que, por mais estranho que o livro possa ser, as pessoas são capazes de me acompanhar com prazer nesta minha viagem.

Pensa que inventou uma nova narrativa, como alguns críticos afirmam?
Não tenho a certeza disso, sinto-me bem pelo facto de ter encontrado uma forma que me ajudou a contar a história que queria contar, honrando os acontecimentos originais.

Foi fácil esquecer as regras de como “deveria” ser?
Sim, e eu penso que a chave é focar-me em ser verdadeiro e tentar encontrar beleza autêntica e verdade emocional. Não estou muito interessado em formas experimentais por si só, mas prefiro ir ao coração da história, custe o que custar. Gosto da ideia de “experimentação necessária”. Imaginemos uma sala cheia de gente à espera de dançar frente a um artista no palco. Se as formas convencionais, ou seja as “regras”, não forem suficientes para as pessoas dançarem, então o artista terá que pensar noutra coisa.

Walt Whitman influenciou-o de alguma forma?
Adoro Whitman. Espero que a influência dele seja sentida neste livro. Para mim, ele era um grande espírito. Parece um dos primeiros budistas americanos.

O que é que está a escrever agora? Pensa que no futuro usará as mesmas técnicas que usou em “Lincoln no Bardo”?
Estou a começar a escrever ficção outra vez e honestamente não tenho ideia de como o farei. Para mim, essa é a parte engraçada: tentar encontrar novas formas de fazer as coisas, formas que respondem em particular à matéria em que estou a trabalhar. Este método significa que não vou decidir de antemão o tema da história e que técnicas irei usar. É preciso descobri-las “no campo”. Estou a escrever uma série televisiva para a Amazon baseada no meu conto “Carvalho do Mar”.