Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

O longo adeus de Elton John

FABIO TEIXEIRA/Anadolu Agency/Getty Images

No momento em que o artista britânico anuncia uma última digressão mundial, com trezentos concertos, o Expresso recorda a sua carreira

Luís M. Faria

Jornalista

Para pessoas a entrar na meia-idade, talvez a maior surpresa que dá o anúncio de que Elton John vai terminar as digressões (após uma última, gigantesca, que se chamará Farewell Yellow Brick Road e o levará aos cinco continentes, com três centenas de concertos ao longo de três anos) é o facto de ele justificar a sua decisão, em parte, por ter chegado aos setenta anos.

Elton John ainda só tem setenta? Começámos a ouvi-lo na nossa tenra juventude, e ele já era um veterano. É bem provável que o melhor do seu trabalho estivesse feito nessa altura. Nos anos 80 adquiriu uma certa reputação de kitsch, graças a canções como ‘Nikita’, mas manteve-se um artista extremamente popular. Sempre pareceu eterno, no bom e no mau sentido.

Mesmo num registo de gosto discutível, foi sempre um performer entusiástico. Com um estilo inspirado tanto no rock dos anos 50 como na soul e nos blues, tanto em Little Richard (na forma de tocar piano) como em Liberace (na pose), nunca deixou de percorrer o mundo e de produzir melodias memoráveis. ‘Sacrifice’, e ‘Can You Feel the Love Tonight’ impuseram-se nos anos 90 como outras canções se tinham imposto antes; ou seja, ubiquamente.

Houve alturas, não poucas, em que era difícil sair de casa sem ouvir uma canção de Elton John. Mas o seu óbvio talento, a par com a generosidade que mostrava noutras áreas, compensava as objeções estritamente musicais que pudesse haver. Nos últimos anos, de resto, ele recuperou um pouco do sentido de aventura original, colaborando com bandas rock como os Queens of the Stone Age.

Produtivo, inspirado e rápido

Elton John nasceu Reginald Kenneth Dwight, a 25 de março de 1947, em Pinner, no Middlesex. Filho de um membro de uma banda, foi criado num subúrbio de Londres. Aos onze anos conseguiu uma bolsa para a venerável Royal Academy of Music, onde esteve quatro anos. A sua aprendizagem musical continuou depois numa série de empregos que foi tendo, incluindo tocar num pub. Fascinado com o rock’n’roll dos anos 50, mas também com os blues, começou a escrever música profissionalmente aos 20 anos, com Bernie Taupin.

A colaboração profissional entre os dois prolongar-se-ia ao longo das décadas, com uma interrupção na década de 70. O método foi sempre o mesmo: Taupin escreve as letras e envia-as a Elton, que então faz a música, tipicamente depressa. O sentido melódico, aliado à solidez do conhecimento musical, resulta em canções escritas num estilo instantaneamente reconhecível e que, sendo agradáveis ao ouvido, têm geralmente uma qualidade formal acima da média.

No espaço de poucos anos, surgiram os álbuns que fizeram o nome de Elton John, com temas irrepreensíveis como ‘Daniel’, ‘Crocodile Rock’, ‘Your Song’, ‘Candle in the Wind’ e ‘Goodbye Yellow Brick Road’ (do álbum epónimo, o mais famoso da sua carreira). “Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy”, um dos álbuns mais sofisticados, é de 1975. Com igual sucesso na Europa e nos EUA, Elton tornou-se um dos músicos mais populares do mundo, estatuto consagrado com a sua participação no filme “Tommy”, baseado na ópera rock dos The Who.

A bronca do Casino Estoril

Há muito uma figura do establishment, Elton – ou melhor, Sir Elton – ganhou um Oscar em 1995 por uma das canções do filme animado “O Rei Leão”, cuja banda sonora assinou. Consagrações, não lhe falta nenhuma. Na vida privada, as coisas nem sempre correram bem. Ele atravessou um período em que consumia drogas e teve depressões. Correu outros riscos na sua vida privada e admite que teve sorte em escapar à SIDA. Quanto à sua identidade sexual, demorou a assumir-se. Chegou a casar com uma engenheira de som alemã, união que durou alguns anos e ele garante ter sido sincera. Segundo explicou mais tarde, encontrava-se em negação. Em 1993, conheceu o homem com quem ainda hoje vive, o documentarista David Furnish. Os dois oficializaram a sua união de facto em 2005.

Há décadas que Elton contribui para organizações que combatem a SIDA. A princesa Diana também estava ligada a essa causa, e quando morreu ele atuou no funeral, tocando a sua famosa canção ‘Candle in the Wind’, com a letra adaptada para se referir à “rosa inglesa” em vez de a Marilyn Monroe. O CD resultante poderá ser o mais vendido de sempre – os números são incertos em relação ao único eventual concorrente, a canção ‘White Christmas’ – e os lucros foram todos para organizações de beneficência.

Em 2014, assim que a lei britânica o permitiu, ele e Furnish foram dos primeiros casais gays a contrair matrimónio no país. Nessa altura já tinham dois filhos, ambos concebidos com recurso a barriga de aluguer. Elton explica que essa é uma das razões por que vai parar as digressões – para poder acompanhar os filhos numa fase em que eles já estão na escola e não são tão “portáteis” como antigamente.

Em Portugal, onde ele veio diversas vezes – a começar pelo primeiro festival de Vilar de Mouros, em 1971 – ainda há quem recorde a bronca de 2000, quando o músico abandonou o Casino Estoril 15 minutos antes do espetáculo que devia ter dado. O motivo terá sido uma discussão telefónica com Furnish. 1200 VIP ficaram à espera no Salão Preto e Prata. O diretor do Casino anunciou que ia processar o artista e que o seu piano (a “traquitana”) havia sido posto na rua. Só 9 anos depois, quando Elton voltou a Portugal, se efetuou oficialmente a reconciliação.