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Serralves traça caminhos para a internacionalização da arquitetura portuguesa

Rui Duarte Silva

Com um vasto prestígio internacional, a arquitetura portuguesa vive entre o fulgor cultural e a incapacidade de se consolidar fora de portas como sector de atividade. Que caminhos podem ser tomados para a internacionalização? As respostas podem começar em Serralves

Identificar os desafios e encontrar fórmulas para internacionalizar a arquitetura portuguesa é o objetivo do workshop “Architecture International Challenges”, organizado em Serralves, esta quarta e quinta-feira. O encontro reúne vários protagonistas do sector, de forma a potenciar a reflexão e traçar o estado da arte arquitetónica, não apenas na sua vertente cultural, mas sobretudo na sua componente empresarial.

A arquitetura portuguesa tem brilhado, nos últimos anos, a nível mundial, tendo como expoentes máximos Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto Moura, ambos agraciados com o Prémio Pritzker. Se o prestígio desta classe profissional em Portugal é um facto, não é menos verdade que o estatuto alcançado está mais associado a uma perspetiva cultural da profissão, não se traduzindo num tecido empresarial forte.

“Os arquitetos têm sempre uma abordagem muito cultural”, começa por explicar ao Expresso Ana Maio, comissária deste workshop, onde se promove o “network”, a partilha de experiências e o contacto com instituições no terreno. “Queremos lançar, pela primeira vez, este debate sobre a internacionalização da arquitetura portuguesa, de uma forma mais estruturada e promovendo a reflexão”, complementa a arquiteta portuense, que desde 2013 colabora com Serralves.

“Todos os arquitetos, de alguma forma, tentam internacionalizar-se, mas falta ir para os mercados, estabelecer contactos com parceiros e com outros ateliers”, evidencia Ana Maio. “Em Portugal ainda existe muito a ótica do escritório e do atelier de artista, muito ligada à vertente cultural da arquitetura”, nota a comissária, algo que, defende, “não se pode perder, mas faz com que a estruturação e a gestão empresarial estejam ainda numa fase muito inicial”.

“Do prestígio até à aquisição de obras de arquitetos portugueses vai um grande salto”

A programação arrancou na tarde desta quarta-feira, com a palestra do arquiteto Gonçalo Byrne, detentor de uma obra extensa e diversa, com uma carreira internacional de mais de 30 anos, pontuada com vários prémios. Entre as distinções atribuídas ao autor português de 77 anos, encontra-se o Piranesi/ Prix de Rome e a Medalha de Ouro da Academia de Arquitetura de França.

Perante a plateia de Serralves, assim falou Byrne. “A intensidade de trabalho que os arquitetos portugueses têm conseguido noutros países não é de maneira nenhuma equivalente à projeção que a arquitetura nacional possui, enquanto vertente cultural e forma de conhecimento”. O arquiteto afirma que “desse prestígio — obtido sobretudo a partir de 1960 — até à aquisição, no estrangeiro, de obras de arquitetos portugueses vai um grande salto”, embora reconheça que “atualmente os desafios são muito vastos do que eram há 30 anos”.

Na opinião de Gonçalo Byrne, o processo de internacionalização da arquitetura portuguesa faz-se através da participação de arquitetos nacionais em conferências ou da docência em academias estrangeiras, mas, acima de tudo, com a participação em concursos públicos. “As oportunidades de trabalho raramente passam pelo convite direto”, afirma o autor, para quem “a participação em concursos de arquitetura tem sido o principal instrumento para conseguir desenvolver trabalho no estrangeiro”. Na maioria das candidaturas que apresenta, Gonçalo Byrne fá-lo em colaboração com gabinetes locais, traçando “uma forma bastante dialogante de conceber os projetos”.

“Vocês não podem fazer só projetos”

Nem só arquitetos marcam presença no auditório do Museu de Arte Contemporânea de Serralves ao longo destes dois dias, sendo que na tarde desta quarta-feira também representantes da Associação Empresarial de Portugal (AEP) e da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) apresentaram estratégias de gestão, mecanismos e apoios financeiros aos quais se podem candidatar os ateliers.

A diretora da área internacional da AEP, Mónica Moreira, tentou sensibilizar a audiência — constituída por muitos arquitetos e estudantes — para uma aproximação à atividade comercial. “Vocês não podem fazer só projetos. Têm de pensar na estrutura financeira das vossas empresas e na forma como os financiamentos do Portugal 2020 vos podem ajudar”, afirmou a responsável. “Não fiquem cingidos ao que é a atividade da arquitetura. Capacitem-se na parte financeira e na componente da legislação; aumentem os vossos conhecimentos de marketing digital e utilização das redes sociais”, apelou ainda Mónica Moreira.

O workshop prossegue esta quinta-feira, a partir das 10h, e a programação pode ser consultada AQUI. Esta é uma iniciativa inserida no projeto “Arquitetura 3.0 — Promoção de Novos Modelos de Internacionalização”, financiado pelo programa Norte 2020 e dinamizado por Serralves.

Também no âmbito do “Arquitetura 3.0”, Serralves organizou recentemente um concurso para a conceção arquitetónica de um pavilhão expositivo amovível, uma vez que as exposições itinerantes são uma das grandes apostas do museu de arte contemporânea. Foram 25 as exposições realizadas fora de portas em 2017 e, este ano, o objetivo é organizar 35 mostras em várias autarquias de todo o país, nem sempre dotadas com os equipamentos culturais mais indicados para o acolhimento das obras de Serralves.

Como resultado deste concurso, Serralves inaugura esta quinta-feira, às 18h00, a exposição “Work in Progress”, apresentando até 24 de fevereiro uma seleção das propostas de arquitetura recebidas. “A exposição surge de um concurso público de Serralves para a conceção de um pavilhão expositivo que possa ser levado para qualquer cidade. O objetivo é que tanto possa ser colocado numa rua estreita como possa ser instalado no Terreiro do Paço”, explica Ana Maio.