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Um lugar feliz

Leonor Keil e Rafaela Santos, os cabeçudos de “Canas 44”

José Caldeira

“Canas 44” é um gesto de vontade e de otimismo perante o desaparecimento das coisas, das pessoas, dos lugares e da memória

Para este espetáculo, nós fizemos um levantamento de lugares e pessoas que já não existem e de pessoas e lugares que ainda existem”, diz uma delas quase no início, é uma espécie de explicação do que foi o projeto que desembocou no espetáculo a que chamaram “Canas 44”. Elas são duas, as intérpretes, Leonor Keil e Rafaela Santos. Tudo pode ser visto em termos binários, a dois, ou a duas, em termos de oposição ou de contraste, também. O que existe e o que já não existe; o que se tem e o que não se tem; o que era e o que é; quem é de fora e quem é de dentro; quem vive e quem morre — a lista poderia continuar. Elas — uma decidiu sair de Canas de Senhorim, a outra decidiu ir viver para Canas de Senhorim; uma queria ser bailarina e foi atriz, a outra queria ser atriz e é bailarina (mas na realidade também é atriz...); e cada uma tinha 44 anos quando decidiram fazer este projeto.

Canas de Senhorim foi um lugar próspero, cosmopolita, movimentado, que tinha engarrafamentos à meia-noite e mulheres chiques a cheirar a perfume pelas ruas, campos de golfe e de ténis, termas; e minas, e fornos elétricos, e muita poluição, e muito barulho, tudo como nos grandes centros, apesar de ser no centro do país e de ser um lugar pequeno. Mas, como diz uma delas, “a questão não é tanto quantos somos, mas como vivemos”. Isto antes como agora, quando as minas fecharam e foram inundadas para a terra não desabar, quando a multidão desapareceu, os fornos deixaram de trabalhar, lojas fecharam, casas foram abandonadas, os ingleses já lá não estão.

Canas de Senhorim é outra coisa agora, tudo esmoreceu. Mas — “cada casa tem o seu tapete de pétalas de magnólia e de cameleira à porta”. Canas pode estar ameaçada de esquecimento, mas as coisas não são, afinal, regidas pela tal operação binária que preconiza o tudo ou o nada, o sim ou não, a vida ou a morte. Há um “entre duas coisas” que é aquilo que corresponde a um curso da vida muito mais complexo que uma conta de ‘deve e haver’. Quem fica sente a apetência que a população manteve para a vida do espírito, para os novos projetos, para tudo aquilo que seja um movimento de preservação da memória, mesmo que ainda em passos algo incertos. Victor Hugo Pontes, que pegou nos textos preparados por Maria Gil e por Fernando Giestas, que lhes deu uma estrutura dramatúrgica e que com as atrizes e com a equipa do espetáculo criou e encenou aquilo que é a sua forma final, concluiu que o que interessa são mesmo as pessoas, elas é que são os lugares. E as pessoas são vivas, mutáveis, dinâmicas, imprevisíveis. A prova é que a Amarelo Silvestre, a companhia criada por Rafaela Santos e Fernando Giestas, em Canas de Senhorim, faz espetáculos que irradiam para o resto do país. E, como se diz no texto, o impossível acontece — “estou morta e tenho um sorriso nos lábios”, diz uma; “agora não posso morrer, estou ocupada”, diz outra. Melhor ainda, talvez: “Vivi aqui muito feliz, saí daqui muito feliz. Gosto de cá voltar”. Uma, volta feliz, outra, continua lá, também feliz.