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Sérgio Godinho: “Tento não perder o que há de essencial na vida, porque é fácil facilitar”

ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

Conversa com os olhos no retrovisor no momento em que Sérgio Godinho lança um novo disco de originais: “Nação Valente”

Cristina Margato

Cristina Margato

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Jornalista

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

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Fotojornalista

Na vida é fácil facilitar, diz Sérgio Godinho, e a verdade é que ele faz tudo por não facilitar, por não se deixar ir, por não corresponder apenas às expectativas dos outros, que dele esperam isto ou aquilo. Seria fácil, de facto, e seguro, aos 72 anos, ainda mais com a fama que tem. É impossível, no entanto, imaginá-lo nessa situação. Basta atender às letras das canções que escreveu ao longo de mais de 45 anos de carreira, que juntas, por certo, dariam não só um livro sobre a arte e a dificuldade de viver como outro sobre a forma de ser português. Sérgio Godinho é um homem múltiplo, com várias vidas, atento à própria vida, à vida dos outros, que tantas vezes transporta para dentro das suas criações. No ano passado editou um romance. Tem outro pronto a lançar e projetos para continuar a escrever. Dar, por isso, nota de que passaram sete anos entre um disco de originais e outro não quererá dizer nada. Porque no meio não houve um vazio. Houve um livro de crónicas, “Caríssimas Canções”, que subiu a palco; um espetáculo, “Liberdade, ao vivo”; a feliz reunião com Jorge Palma, no palco e em disco (“Juntos”); um livro de contos, “Vida Dupla”; e o seu primeiro romance, “Coração mais que Perfeito”. E foi por isso que, nestes sete anos, voltámos frequentemente à sala de estar dele. Desta vez fazemo-lo com os olhos no retrovisor e num novo disco de originais, a que chamou “Nação Valente” e que sai dia 26. Pelo título já se percebe que Portugal não lhe escapou. Como nunca lhe escapa. Dir-se-ia, aliás, que é tão forte como os amores, “essas facas de dois gumes”.

Não gosta de falar no passado?
Gosto. Já falei extensivamente. Há livros escritos. O passado construiu o meu presente e também me dá armas para o futuro. Isto parece um slogan político (risos), mas é de facto verdade.

Onde é que estabelece a linha que não permite que entrem na sua vida?
Não falo das minhas relações pessoais, amorosas. Aí há uma linha vermelha, até porque entra na privacidade da outra pessoa. Não gosto de aparecer nas revistas cor de rosa. Neste momento, estamos em minha casa mas o foco não pode ser a casa

Não significa que não fale do amor?
Claro. Falo do amor. Tive e tenho uma vida muito rica em matéria de amor.

Já tem mais de 70 anos, e quando as pessoas se aproximam destas idades começam a lembrar-se da infância. Isso acontece consigo?
Tenho 72 anos. Nunca me esqueci da infância. Não nos devemos esquecer da infância, porque ela traz um manancial de informação e de inocência que se deve conservar, mesmo que muitas coisas que acontecem na vida possam estragar essa inocência. Eu conservo dentro de mim esse pedaço de inocência. Não devemos deixar entrar o cinismo, porque é, de todos os sentimentos negativos, aquele que é mais árido. Não gosto nada daqueles discursos das distopias obsessivas, de que não há esperança nenhuma. Sou menos de distopias e mais de utopias. Mas não faço disso uma missão. Dou passos concretos, e sei que elas se aproximam e se afastam. Não é uma questão de otimismo ou pessimismo. É uma forma de estar na vida. O facto de ter filhos e de os educar — e de também ter netos — fez-me repensar a maneira como estive na vida. A nível familiar tive uma infância e uma adolescência muito boa. Com influências e presenças. Os meus pais eram pessoas interessantes, embora de maneiras muito diferentes. Tinham um grau de cultura muito bom. A minha mãe tinha o curso superior de piano e tocava os clássicos em casa. O meu tio Carlos tocava os boogie-woogies da altura, e era uma grande alegria ouvi-lo tocar. O meu pai também era uma pessoa interessada pela cultura, um grande leitor, como a minha mãe. O meu pai vinha de uma tradição familiar, uma vez que a minha avó paterna tinha sido, entre outras coisas, alfarrabista. Os livros sempre foram algo de sacramental na minha casa. Eu tinha 12 anos quando apareceu a televisão e os meus pais não a quiseram ter em casa, porque acharam que roubava tempo essencial à leitura. Estavam sempre agarrados a um romance...

Gostava de ler?
Sim. Fui um leitor muito precoce. Com 13 anos li “O Crime do Padre Amaro” [Eça de Queirós]. Entrei logo a matar. Os meus pais veneravam o Eça, entre outros escritores. Não eram do ramo Camilo [Castelo Branco].

É o irmão do meio?
Sou. Até se costuma dizer que o irmão do meio é o que sofre dos dois lados e por isso sofre mais, mas no meu caso não foi nada assim.

É por isso que tem um disco chamado “O Irmão do Meio”?
Não. Nesse disco reuni uma série de pessoas, uns mais novos outros mais velhos. O José Mário Branco, o Milton Nascimento, o próprio Caetano [Veloso] que é mais velho do que eu. Também está o Carlos do Carmo. A ideia não era dar importância à idade, mas fazer pontes, confluências entre vários criadores através das minhas canções. Daí o nome.

Ainda estudou piano, mas com pouca convicção...
Tive uma professora que tinha sido colega da minha mãe no Conservatório. Era uma joia de pessoa, mas seguia um ensino muito configurado. Eu tinha um defeito: decorava e fingia que estava a ler, logo, não progredia. O ouvido já estava lá. Devia ter sido estimulado de outra maneira. Tenho alguma coisa de preguiça, mas depois de bem encarrilado já me posso tornar teimoso e não preguiçoso. Nas canções e nos outros escritos sinto que fui ativamente teimoso até ficar bem. Ao fim de três anos, disse que não queria mais, e a minha mãe devia ter insistido, mas não insistiu. O piano é o meu instrumento preferido, e aquele que me toca mais, e agora que vivi esta aventura com o Jorge Palma, que toca muito bem, eu sentia uma sã inveja por não tocar piano e por ser para ele tão natural fazê-lo. Já para não falar no Filipe Raposo que também me tem estado a acompanhar em espetáculos.

De facto tem procurado a companhia de pianistas...
Sim, mas este meu novo disco é mais acústico, mais guitarras, embora a primeira canção ‘Grão da Mesma Mó’, da autoria de David Fonseca, tenha piano, tocado por ele.

Mas há um piano nesta sala. Toca?
Não, ponho as mãos no teclado mas não toco. Serve para outros músicos. O som do piano toca-me mais do que o de um violino. Eu oiço muito música clássica e barroca, mas um concerto para piano de Beethoven toca-me mais do que um concerto para violino de Mozart. Enche-me a alma.

Pensei que compunha ao piano, procurando acordes...
Aconteceu-me com uma ou duas canções. Não sou um instrumentista de raiz. Toco pouco guitarra. Nos espetáculos com o Jorge Palma eu era uma guitarra de acompanhamento. A guitarra nunca foi um instrumento intrínseco. Há uns tempos tive um problema numa mão, uma luxação, o que me limita um pouco, mas eu também nunca fiz concertos de voz e guitarra. Considero-me muito insuficiente, e se calhar não tenho aquele drive de instrumentista para me tornar um perfeccionista na guitarra. Nos primeiros discos tocava muito mais guitarra. A partir de certa altura quis estar mais solto, com um grupo de músicos sólidos como tive desde o final dos anos 70. No palco, preciso de estar liberto.

Porquê?
Para poder mexer-me. É a interatividade e a expressividade. Não é que eu seja demasiado teatral, embora também tenha essa disciplina e a tenha praticado, mas faço gestos que não poderia fazer e que sinalizam a canção que estou a interpretar.

Experimentou muitas artes diferentes, depois de ter começado a sua vida artística no teatro. A última arte a aparecer foi a literatura. Como músico começou por ter sucesso numa época de mudança social, na qual se tornou uma voz importante. Noutra altura, poderia ter ido para outra arte se não tivesse sido agarrado pela música?
O que aconteceu foi que eu tinha mais do que o Marco Paulo (risos). Tinha três amores: o teatro, o cinema e a música. Estudei Psicologia em Genebra, durante dois anos. Não posso dizer que fui aluno do Piaget, porque ele vinha dar uma aula de cátedra uma vez por semana. Mas senti que a Psicologia não me interessava muito porque era muito direcionada para a teoria e prática do Piaget. Nessa altura percebi que o meu caminho só podia ir pela música, pelo teatro ou pelo cinema. Cheguei a pensar em ir para uma escola de cinema. Ainda realizei três filmes. Chamaram-se “Ultimactos”, até por sugestão de Fernando Lopes. Eu tinha-lhe dito que se ia chamar “ultimatos” e ele é que sugeriu que eu pusesse o cê. A música sempre foi um caminho desde que comecei a aprender guitarra aos 15 anos, depois de ter comprado uma guitarra com um trabalho de verão que fiz no escritório do meu pai, que, na altura, era comerciante de têxteis. Foi simbólico ter sido comprada com o meu dinheiro. Eles até ma teriam oferecido, se tivesse pedido uma guitarra baratinha.

Era uma casa de muitas regras?
Era. A minha mãe era mesmo bastante regrada. Mas uma casa da qual me lembro de uma forma muito positiva.

Quando sai de casa não é por causa deles?
Não. Saio aos 20 anos, porque preciso de ter vida e de ter mundo. Sabia que no dia em que fosse chamado para o serviço militar não iria responder. O meu pai era ferozmente contra Salazar. Eu vinha de uma família de tradições republicanas. A história da Guerra Colonial sempre foi julgada muito negativamente pelo meu pai, que tinha opiniões muito fortes em relação a isso. Ele era um anglófilo, até porque tinha negócios com Inglaterra. Ia muito lá. Ele era um social-democrata verdadeiro. Dizia: “A Inglaterra teve a inteligência de entregar as suas colónias.” Embora a inteligência também tenha sido de um senhor chamado Gandhi. Quando eu era adolescente, o meu pai já dizia que não fazia sentido haver colónias. O avô do meu pai, o ator Verdial, foi quem leu a proclamação a 31 de janeiro de 1891, no Porto, aquando da primeira tentativa da implantação da República, um golpe falhado. Havia um orgulho na família. O meu avô esteve deportado.

O seu pai nunca teve problemas por causa das suas opiniões?
Não, porque eram só opiniões. Ele não se metia, de facto, na política. Sabia que havia familiares nossos que tinham tido problemas, e ele queria preservar a vida dele e a da família.

De onde é que nasce a necessidade de ter mundo?
Nasce dos livros e do gosto que os meus pais me incutiram pelas viagens. Eles viajavam e traziam livros das cidades onde tinham estado. Havia uma certa curiosidade. Houve um acontecimento muito importante, cujo significado percebi mais tarde. O meu colega Manuel António Pina mostrou-me “On the Road” (“Pela Estrada Fora”), do Kerouac. Ele estava muito entusiasmado com o livro. Eu li-o e perdi o fôlego. Há livros melhores, mas não se pode dizer de todos os livros isto: “Ele deu-me vontade de partir, de ir mesmo pela estrada fora.” Essa ativação foi, de facto, muito potenciada pelo “Pela Estrada Fora”.

O Manuel António Pina nunca foi “pela estrada fora”...
Ele era mais sedentário, que eu saiba. Éramos muito amigos. Mostrou-me também Neruda, e toda aquela aparente simplicidade poética. Conversávamos muito, no Café Orfeu, que ficava perto do liceu. Depois perdi-lhe um bocado o rasto. Via-o às vezes.

Apesar de ser do Porto não se nota sinal de bairrismo...
Sou um cidadão do mundo. Adoro o Porto, e sinto que tenho uma raiz muito forte lá. Quando voltei a Portugal, com 29 anos, depois do 25 de Abril, vim diretamente para Lisboa, porque fui convidado para fazer uma peça chamada “Liberdade, Liberdade”, com a Céu Guerra e o João Perry, e estava a preparar um disco que queria gravar em Lisboa. Gosto de conhecer cidades novas, e Lisboa era uma cidade praticamente desconhecida. Tinha cá estado duas vezes com os meus pais. Gostei muito de ir descobrindo Lisboa, pouco a pouco. Hoje, tenho mais do dobro dos anos vividos em Lisboa, mas o Porto continua a ser fundamental para mim. É uma identidade.

Como é que essa identidade se expressa?
Há um humor agreste, um lado de autocrítica que é afirmado de uma maneira até truculenta. Não sou uma pessoa especialmente truculenta mas tenho um sentido crítico muito aguçado, que não está sempre a ser empregue, até porque acho que se tem de ver com quem se fala. O Porto tem uma independência de pensamento que foi formada ao longo de anos, mesmo em relação a certas posições políticas, embora às vezes também seja bastante volátil.

Perdeu o sotaque...
Quando volto ao Porto, a música da frase volta muito rapidamente. Sou um bocado osmótico. Não consigo evitar.

Estudar Psicologia naquele tempo não deveria ser muito comum...
Sempre achei interessante, é a curiosidade da vida. Mas queria, sobretudo, sair e viver autonomamente. Não consigo perceber esta coisa de se ir ficando em casa dos pais até aos trinta e tal anos.

Conseguiu que os seus filhos saíssem antes?
Não fui eu que os empurrei para fora de casa. Foram eles que saíram naturalmente. E tiveram também necessidade de criar o mundo deles, a própria independência e autonomia. Aqueles dois anos em Genebra, em que vivi sozinho, alugando um quarto de estudantes, foram tempos de grande libertação, e, no entanto, não vivia num ambiente opressivo familiar, embora tivesse regras.

Também criou regras para os seus filhos? Tem sido um pai exigente?
Acho que sim, acho que há um grau de exigência. Os três tem uma consciência ética. São honestos. E atenção: tiveram três mães diferentes que também foram importantes. Não estou aqui a tirar os louros para mim, embora também tenha que ver comigo.

Foi um pai muito presente?
Sim, sempre. Quando veio a primeira neta, a Margarida, que tem agora 11 anos, houve duas ou três pessoas que me disseram “agora é que vais prestar atenção, quando se é novo não se presta atenção”. São malucos? Eu prestei atenção aos meus filhos sempre. A Jwana nasceu quando eu tinha 29 anos, em Vancouver.

Onde alguém disse que foi hippie, embora a história não seja bem assim...
Nunca fui hippie. Vivia numa casa comum a dez pessoas. Isso até deve vir do Porto: nunca tive grande simpatia pelos hippies.

Parece que o autocolante se colou bem a si...
O que vem na internet parece verdade. É ridículo. Eu estive dois anos no musical “Hair”, que contava a história de um grupo de jovens hippies que se opunha à guerra no Vietname. O movimento hippie morreu de morte natural, foi o Summer of Love. Nunca fui muito flower power e peace & love, porque tenho um lado mais urbano, embora adore a natureza. O mar sempre foi fundamental. Sou dos elétricos, comecei a andar de elétrico, com seis anos, no Porto, para ir a casa dos meus avós.

Foi determinante?
Sim, foi. Porque essa autonomia correu muito bem. Nunca tive experiências muito traumáticas.

E por isso confia no mundo e nas pessoas?
Sim, acho que há um sentimento positivo perante o mundo. À partida confio nas pessoas, mas acho que há muita gente muito sacana. Também já tenho uma experiência de vida longa. Há sempre o fosso entre ricos e pobres, e Portugal continua a ser um país de desigualdades. Sinto-me realmente português, e este disco chama-se “Nação Valente”.

Falta o esplendor?
O esplendor está cego, às vezes. Sinto-me realmente português. É cá que eu quero viver, embora me sinta um cidadão do mundo. Gosto de conhecer outros lugares, outras comidas, entrar na vida das pessoas um bocadinho. O que eu acho interessante em Portugal é que sendo muito pequeno é diverso, até do ponto de vista da geografia. Costumo dizer aos estrangeiros que Portugal é um corte vertical numa estrutura que é horizontal, a Ibéria. Há uma diversidade que não existe, por exemplo, em países como a Holanda.

E a verdade é que não se cansa de viajar em Portugal?
Felizmente, tenho muitos convites de vários teores.

Das suas várias vidas?
Sim, porque por um lado tenho os concertos, que é também uma coisa que se esgota, até porque não sou o artista das festas da verão. Embora por vezes também me convidem. E depois sou convidado como escritor.

Nos concertos não o cansa que as pessoas esperem sempre que cante os seus grandes sucessos, como ‘O Primeiro Dia’, ‘O Brilhozinho Nos Olhos’?
Eu já canto (risos). Há canções que canto muitas vezes porque, apesar de tudo, me dão prazer. Mas não me cansam.

Não está sempre à espera de fazer a canção perfeita, embora as tenha feito?
Não sei se são perfeitas.

Sobrevivem, atravessam gerações...
É verdade, têm uma grande capacidade de sobrevivência. Constato. O que acho que é as canções mais vivenciais, que no fundo são o grosso, vão sendo descobertas por outros públicos e outras gerações de uma forma natural, porque lhes toca num ponto qualquer da sensibilidade. Acontece com canções como ‘O Primeiro Dia’, que é uma canção de vida, de rutura, de encontro consigo mesmo, mas também com canções como ‘Liberdade’, mais sociopolíticas, até porque o mundo nunca vai ser perfeito. Nem digo: “Gostava de não cantar estas canções por já não serem precisas.” O mundo nunca vai ser perfeito. Tenho consciência disso. Sempre tive. Estamos presos por fios invisíveis. Por exemplo, a canção ‘Liberdade’ diz: “A paz, o pão/ habitação, saúde, educação/ Só há liberdade a sério quando houver/ Liberdade de mudar e decidir.” O que é que é a “liberdade de mudar”? Esta é que é a frase oculta que desvenda a canção. Muita gente não sente a liberdade de mudar. Vale para muita coisa. Para a violência doméstica, para as condições de vida de uma forma geral. Há amarras que podem ser para as próprias pessoas inexplicáveis ou que elas não as querem explicar a si mesmas. Essas canções vão dizendo coisas diferentes. Mas há casos em que as pessoas vêm ter comigo e dizem: “Olhe, aquela canção para mim foi muito importante.” Relacionam-na com um momento especial da vida delas. No outro dia, um taxista, um homem entre os 50 e 60 anos, disse-me que havia uma canção minha em que pensava bastante. “Sabe aquela em que diz ‘toda a gente passou horas em que andou desencontrado como à espera do comboio na paragem do autocarro’.” E rematou, quase com amargura: “A minha vida foi tantas vezes assim.”

ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

Emociona-se?
Fico obviamente muito tocado. Disse-lhe isso. De facto, foi uma coisa muito genuína, e eu não estava à espera daquela canção, que é a ‘Lá em Baixo’. A ‘Espalhem a Notícia’ também é muito mencionada, e foi uma canção que nasceu e cresceu sem rumo. É também uma canção erótica, “eu vou ao fim do mundo/ eu vou ao fundo de mim”. Foi como se tivesse nascido daquela canção uma criança ou uma hipótese de criança. Foi uma das tais canções que não estavam todas programadas, embora todas programadas nunca estejam. Mas há canções em que decido que quero falar sobre determinadas coisas. Quando fiz ‘Fotos do Fogo’, por exemplo, havia a guerra nos Balcãs, e queria falar daqueles rapazes que massacram e matam porque é assim e os outros também fazem. Precisava de falar nisso. ‘Domingo no Mundo’ é sobre um rapaz que trabalha numa fábrica de fogos de artifício, porque queria falar do trabalho infantil. Depois, há outras canções que vão nascendo.

Quando uma canção é sobre uma pessoa próxima diz-lhe?
Digo-lhe. Normalmente são pessoas que me estão muito próximas.

Cada canção tem uma história paralela, se bem que depois crescem e fogem...
Sim, passam a ser dos outros. E isso é bom. Desde que ninguém se suicide por causa disso.

Nos seus discos varia sempre entre o amor e a crítica social, o que faz com que muitos digam que é um cantor de intervenção social, coisa que detesta...
Para mim isso não quer dizer nada. Essa foi uma etiqueta que surgiu logo a seguir ao 25 de Abril, e que não me define. O prefácio das canções do Zeca foi feito pelo José Mário Branco e ele desmonta isso completamente, dizendo que a obra do Zeca é muito mais vasta, não se deve limitar ao papel de cantor de intervenção.

Também não gosta que o colem a partidos políticos...
Não é não gostar. Levo com isso. Eu colaborei com mais do que um partido de esquerda.

Colaborar é fazer concertos?
Sim, fui muitas vezes, e espero continuar a ir, à Festa do “Avante!”. Também fui a acontecimentos do Bloco de Esquerda. Sobretudo, não gosto muito de cantar em campanhas eleitorais, porque nos transformam em ‘bibelôs’. Pode-se apoiar. Já escrevi um texto para apoiar a Marisa Matias, nas últimas eleições presidenciais, porque achei que era interessante apoiá-la, por ter um percurso de trabalho muito interessante no Parlamento Europeu. Eu não tenho medo. Não é para não me definir. Apoiei algumas vezes o PC, no caso do PS, aconteceu cantar uma vez na Madeira.

Nunca fez parte de um partido político?
Não está no meu código genético. É algo que me é tão estrangeiro e estranho. É preciso que haja gente para o fazer, claro.

Os partidos políticos são todos ‘Grão da Mesma Mó’, nome do tema com que abre o seu novo álbum?
Não acho que sejam. Mas há éticas diferentes. Em todo o Bloco Central há coisas que são grão da mesma mó. Esta é uma canção em que se pensa um bocado a vida: “fazes que fazes ou pões sementes a crescer”.

E para si também é importante não fazer o que os outros estão à espera que faça. Não corresponder aos desejos de todos e assumir a responsabilidade perante a própria vida.
Sim, é fazer pela própria vida, puxar pelo brio próprio, é ter a consciência de que se pode ser mais fraco, mais cobarde ou mais corajoso. Não ter medo. O medo é outro fio invisível. Mas ‘Grão da Mesma Mó’ também tem coisas muito atuais, que podem ser relacionadas com os fogos: “Precisas de água/ a terra também/ ventos cruzados (…)/ Vivida a planta/ Refeita a casa/ É espaço em branco/ Tempo de escrever/ E abrir asa.” É também sobre essa passagem do tempo. E depois continua: “Mas há linhas de água que cruzas sem notares.” E isto é muito comum: “E oh, estás no deserto e talvez no oásis, se o olhares.”

Essa é uma maneira positiva de olhar para as coisas e de nos refazermos?
E tem de ser sempre assim. Estamos sempre em perda, e perdemos muitas coisas na vida. Tem de se agregar qualquer coisa de essencial. Com a passagem do tempo e dos anos tento não perder o que há de essencial na vida, porque é fácil facilitar. E há coisas em que não podemos facilitar. Temos de ser muito sérios em relação a nós próprios.

Em que é que não se pode facilitar?
Não se pode facilitar relativizando certos valores. Mesmo em coisas simples. Quando se fala dos outros, por exemplo, achando que está mal fazê-lo mas é muito interessante dizer essas coisas, não só estamos a trair o outro como nos estamos a trair a nós próprios. Há que estabelecer linhas de água na nossa ética, nas nossas convicções, ainda que às vezes se cruzem. O importante é não perder o lugar onde estava a linha de água, pode-se sempre voltar atrás.

Faz isso na sua vida?
Não sou perfeito e não me estou a armar em herói. Às vezes cruzo a linha sem saber, mas sei onde está a linha. O problema é quando nem se nota, como digo na canção.

Esta é uma das canções mais complexas e bonitas do disco. É uma espécie de hino...
Foi muito surpreendente, porque foi uma canção muito trabalhosa.

Há nesta canção também parte do quotidiano “E a senha já tirada, já tardia do doente (…)/ E cada um falar-te das histórias da sua vida/ Feliz, dorida.” Chateia-o que as pessoas se metam consigo na rua?
As pessoas escolhem um estatuto. Nunca me esqueço que a Bethânia anda sempre resguardada e que eu andei com o Caetano de carro pela rua. O Chico costumava correr no calçadão e as pessoas diziam: “Olha, o Chico.”

E o Sérgio também escolheu estar na vida, não só nas letras que escreve?
Sim, escolhi estar na vida. Eu sou um observador natural. Tenho as antenas ligadas. Gosto de estar numa esplanada a beber um vinho, de olhar para uma pessoa e pensar como é que será a vida dela. É um exercício de ficção.

Neste disco torna-se sobretudo um letrista. O que é estranho tendo em conta que diz que começa sempre por compor a música...
O que eu senti em relação a este disco e que quis levar mais longe foram as parcerias. Conversei sobre isso com o Nuno Rafael e com o Paulo Salgado, que trabalham de perto comigo. É algo que já tinha feito noutros discos, de que é exemplo o “Coincidências”. Aqui decidi alargar o leque e o conceito pedindo a vários compositores que me dessem uma música. É, de facto, verdade que costumo começar pela música e só depois faço a letra. Pedi ao Hélder Gonçalves, ao Nuno Rafael, que foi também quem produziu o disco, ao José Mário Branco, ao Pedro da Silva Martins, dos Deolinda, e ao Filipe Raposo, que me tem acompanhado ao piano. E há uma canção da Márcia, porque achei que era interessante ter uma versão, num tempo muito diferente. É uma canção muito bem escrita e tem uma frase que é exemplar “quem quiser pintar passados vai ter muito por emendar”. Ela escreve muito bem, é mesmo um talento. Não foi para a apoiar, foi porque me apeteceu cantar esta canção. Acho que há uma nova geração que faz coisas muito interessantes.

Prefere que essa nova geração cante em português em vez de cantar em inglês?
Acho que não há que ter medo de cantar em português. Sobretudo porque é um falso problema achar que não soa bem.

O próprio Sérgio começou por escrever em francês...
Há quatro canções do primeiro disco, “Os Sobreviventes”, que primeiro tiveram uma letra em francês. Depois, quando finalmente percebi que era em português que me queria exprimir, fiz as letras, mas são completamente diferentes. Também tinha esse bloqueio, posso compreender...

Voltando ao ‘Grão da Mesma Mó’ há uma passagem que diz “não queiras ser um exemplo,/ nem um mau exemplo por si só”. Existe esse peso em si, de ser visto como um exemplo?
De facto, sei que sou respeitado, agora, não quero dar o exemplo. Não me quero pôr nesse papel exemplar, para o bom e para o mau. É também uma questão de não me levar demasiado a sério. Eu levo-me a sério, mas não me quero levar a sério perante a sociedade. Não gosto daquela frase que começa assim: “Eu sou um homem que...”

Até porque tem consciência que a identidade não está fechada, está em movimento...
Sim, por exemplo, neste disco de parcerias, só tenho duas canções com letra e música minhas, embora as letras sejam todas minhas, mas acabo por ter uma identidade forte. Quando o Pedro da Silva Martins ouviu a canção ‘Até Já, Até Já’, que ele tinha mandado uma música com um tra-la-lá, disse: “É incrível, isto tornou-se uma canção tua!” Eu acho que sim, todas as canções ficaram muito pessoais.

Embora, por vezes, se note que está a seguir alguns compositores, como acontece com o José Mário Branco, com o tema ‘Mariana Pais, 21 Anos’, ou no caso do Nuno Rafael, no ‘Tipo Contrafacção’...
O mais engraçado foi que o Nuno Rafael ficou muito surpreendido. Começou a surgir-me aquela ideia da contrafação, e há um momento em que eu digo “tipo contrafação”, como o queijo tipo serra, já nem é a contrafação, que é o que está a acontecer na sociedade. Os grandes líderes políticos de hoje têm menos grandeza do que muitos outros tiveram no passado. Já são “tipo qualquer coisa”... É um bocado irónico que nesta história da Europa, Angela Merkel surja como uma das líderes mais credíveis. É evidente que a forma como ela tratou os refugiados, para seu prejuízo, mudou a nossa perspetiva sobre ela, depois dos anos da troika. Em relação à canção do José Mário, ‘Mariana Pais, 21 Anos’, o ponto de partida foi uma rapariga e uma canção que aparece no primeiro disco dele, que é ‘Mariazinha’. Pensei em mim e também na minha vontade de ter mundo quando parti de Portugal. “Diz-me para onde vais com essa sede de ter mundo.” O José Mário é muito bom harmónica e melodicamente e, de facto, nesta canção eu canto um pouco como ele. Quase intuitivamente. Não é para o imitar.

‘Nação Valente’, que dá nome ao álbum, dá conta do momento político...
Sim, é a que está mais próxima da política. Fala de um período pós-troika. “Não quero ter-te acorrentada.” Nós ainda temos correntes e estamos, de certo modo, acorrentados a diferentes compromissos. Fico contente com o facto de certas coisas estarem a correr bem a nível económico. Mas isso não quer dizer que não estejamos acorrentados. “Não quero pôr-te numa gaiola/ De mão estendida por esmola.” E digo: “Há de haver outra solução/ Para esta tão valente nação”, e depois falo no refrão daquilo que é Portugal e sobre o que quero que Portugal seja, que é “Fronteiras antigas/ Fronteiras abertas/ Quero um país de ideias libertas”. Nós temos que viver tanto das mágoas que temos, todos nós, uns mais do que outros, e alguns até de uma maneira trágica, e das ofertas da vida. Esse refrão espelha muito a maneira como penso e é também um reflexo de Portugal, como eu quero que seja.

É de facto um otimista bem resolvido...
Acabo por ser, sim. Eu sou um ativo positivo. Tento agir de uma forma positiva. Porque também há os ativos negativos, que são os que estão sempre a escarafunchar no mal. E depois há os passivos positivos, que deixam que as coisas aconteçam, e eu também tenho esse lado. Mas não é tão patente. E depois há os passivos negativos, que são a desgraça completa.

De certo modo parece que os anos não passam por si...
Em certas coisas passam... A minha vida não é só peace & love.

Teve fases más?
Sim, mas tenho um instinto de sobrevivência muito forte. O meu primeiro disco chama-se “Os Sobreviventes”. Não é, porém, um instinto de sobrevivência daqueles que sacaneiam os outros. Não é essa a solução. A minha vida também foi pautada por alguns excessos e químicos, embora o excesso maior tenha sido o álcool. Sobretudo o uísque. Mas há 11 anos que o deixei de beber totalmente. Estava farto.

Há em si essa vontade de passar à frente...
Sim, geralmente não volto atrás. Sobretudo em ruturas amorosas, nunca fui muito de voltar atrás. Uma vez que está acabado, está acabado...

Isso quer dizer que tenta tudo até ao fim?
Às vezes para lá do fim (risos). O tema do fim dos amores interessa-me, porque é dramaturgicamente forte. Tenho uma canção, ‘O Fim de Tudo’, que os Clã também cantam, onde digo que “o fim de tudo é um recomeço e olha, eu bem que mereço tratar bem do melhor de mim.” Tenho outra chamada ‘Emboscadas’, que o Camané cantou, “nesta dor em que nos vejo de nos ver quase no fim”. Aí é um fado. São subtemas recorrentes na literatura ou na ficção para-amorosa. Interessam-me as ambiguidades, não ficar no retrato a preto e branco. Aparece também nos meus contos e no meu romance “Coração mais que Perfeito”, de 2017. Estou a rever outro romance, que vai sair em setembro.

As histórias de hoje vêm de uma espécie de repositório do tempo de aventureiro?
Há histórias que eu ainda hei de contar. A história das minhas duas prisões no Brasil. São duas prisões muito espaçadas no tempo. A primeira é durante a ditadura, e a segunda foi nos anos 80, porque estava expulso do Brasil e, embora tivesse sido absolvido da primeira, nunca tinha sido revertida a ordem de expulsão.

Dois maus bocados...
Sim, mas que também são enriquecedores, porque se nos aguentamos e conhecemos outros lados da vida, os outros e o que são os outros, tornam-se histórias ricas, mas não quero entrar em pormenores porque quero escrever sobre isso. Devo-me isso.

Algum dia pensou: “Vou reformar-me?”
A música é-me essencial, enquanto tiver voz e não fizer figuras tristes... Há uns meses apanhei um susto porque fiquei rouco durante uns tempos. Recuperei. A voz é um instrumento falível. Não estou sempre a compor. Ao ter descoberto esta outra vida criativa, a dos romances, da ficção, até mais do que a da poesia, percebi que vou continuar a escrever. Acabando este livro que estou a rever, a coisa seguinte será as histórias do Brasil. Mas este disco é agora a minha prioridade.