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Coração selvagem

Aos 50 anos, a antiga primeira-dama de França mantém o charme e o poder de sedução, que alia sabiamente à gestão da imagem. Carla Bruni, a manequim, esteve no nosso país nos anos noventa, quando se maravilhou com as casas brancas de Faro, as fartas buganvílias e as praias intocadas do Porto. Mas é a primeira vez que vem a Portugal como cantora

Katya Delimbeuf

Katya Delimbeuf

em Paris

Jornalista

FOTO Yann Orhan

Carla Bruni não para de vapear no seu cigarro eletrónico. As câmaras de televisão da entrevista anterior apagaram-se e a cantora-compositora relaxa finalmente. Bruni tem a noção exata da sua imagem. O rosto absorto e o olhar distante acendem-se automaticamente ao som das palavras “está a gravar”. Os olhos azuis translúcidos iluminam-se, o sorriso rasga-se, sedutor. Numa suite branca e dourada do luxuoso Hotel Le Meurice, em Paris, está sentada numa poltrona, pronta a responder — de novo — às perguntas. Estamos a meio da digressão mundial que começou na Grécia, em outubro, e que terminará em maio, e a ex-manequim e ex-primeira-dama de França acusa o cansaço. Teve uma semana difícil a nível pessoal, com alguns lutos de pessoas próximas, explica-nos o agente, Alain Lahana. Mas apesar de se manter educada e atenciosa, está menos disponível do que é costume. Não quer falar de política sob circunstância alguma, que garante ser “o assunto que menos me interessa no mundo”. Furta-se a perguntas mais pessoais, resguardando-se atrás do enorme sorriso — o mesmo que usa habilmente para pontuar o fim de um assunto que não lhe agrada. Quando isso não basta, recorre ao humor, à ironia. Ao sarcasmo.

Carla Bruni é uma sedutora. O charme, a voz rouca, a forma como tapa ou destapa o olhar com a franja são armas que usa desde sempre — pelo menos desde os 19 anos, quando começou a sua carreira de manequim. Estávamos nos anos 90, no auge da era das top-models, e “La Bruni” entrava-nos casa adentro em todas as revistas de moda de topo. Duas décadas mais tarde, chegou com nova roupagem, a de cantora e compositora de canções, acompanhada pela guitarra. Em 2002, o disco “Quelqu’un m’a dit” revelava um talento que o mundo desconhecia. Mas esse amor à música, que a acompanha desde o berço e que chega agora na forma do sexto disco — o primeiro em inglês, “French Touch” —, foi sendo ofuscado pelo mediatismo, tanto da sua vida amorosa como da sua relação com o Presidente de França Nicolas Sarkozy, com quem se casou em 2008. Até 2012, a carreira musical esteve condicionada por aquilo que podia ou não fazer enquanto primeira-dama de França.

Sem obrigações, está livre para se dedicar à música por inteiro, como comprova esta digressão mundial, que inclui Portugal pela primeira vez — a 25 de janeiro no Coliseu de Lisboa, a 26 no Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz, a 27 no Coliseu do Porto. Nessa altura, Carla Bruni terá oportunidade de descobrir, passados 30 anos, se as buganvílias ainda são as mais exuberantes de todo o mundo, se as praias intocadas do Porto mantêm o seu estado virgem, se as aldeias do Sul continuam brancas da cor da cal. Com 50 anos acabados de fazer (em dezembro), verá também se o seu olhar sobre o mundo se alterou.

Filha de peixe

Apesar de só ter assumido publicamente a faceta de cantora em 2002, a música existe na vida de Bruni desde sempre. A mãe, pianista, e o pai, compositor de ópera, traziam as notas e as harmonias para dentro de casa. Em Turim, onde ela, a irmã Valeria e o irmão Gino passaram a infância, o som do piano era a permanente música de fundo. “Tivemos todos aulas, mas eu fui sempre mais autodidata”, conta. “A minha irmã era melhor no solfejo, eu aprendia de ouvido. Cada um tocava do seu lado, mas houve sempre muita música em casa.”

Literatura. Amante de poesia, escreveu letras de músicas com excertos de William Yeats, Emily Dickinson, W. H Auden e até do francês Michel Houellebecq, de quem ficou amiga

Literatura. Amante de poesia, escreveu letras de músicas com excertos de William Yeats, Emily Dickinson, W. H Auden e até do francês Michel Houellebecq, de quem ficou amiga

FOTO Eric J. Guillemain

A turbulência provocada pelas Brigadas Vermelhas em Itália, nos anos 70, com raptos e assassínios, levaram a família Bruni-Tedeschi, industriais que mantinham uma vida desafogada, a temer pela estabilidade e a mudar de país. França foi o destino eleito. Carla tinha sete anos e afiança não ter sentido qualquer alteração. “Em Paris, continuámos na escola italiana...” A avó, francesa, vivia com eles. A vida correu de forma leve, até que, aos 19 anos, Carla decidiu arriscar e inscreveu-se numa agência de manequins. “Rapidamente comecei a trabalhar.” O resto é conhecido. Foram mais de dez anos de viagens, capas de revistas, desfiles para estilistas de topo, amizades com fotógrafos de renome, que faziam ou desfaziam carreiras. Bruni assegura sobre o lado B do mundo da moda: “Nunca tive uma vida louca, nem era muito de ir a festas. Trabalhava muito. E, de qualquer forma, não tenho mentalidade de festeira.”

Nos bastidores da vida, a música mantinha-se uma presença constante. “Passeava muito com a minha guitarra. Tinha uma Baby Taylor pequena, que viajava comigo.” A composição de canções também lhe vem da juventude, sempre em francês e em italiano. “Gosto de escrever em italiano, e de cantar em italiano...”, partilha. Gosta de poesia e de literatura. No segundo álbum, “No Promises” (2007), Carla escreveu letras com excertos de poemas de William Yeats, Emily Dickinson, ou W. H Auden, e em 2008, no terceiro disco, “Comme si de rien n’était”, adaptou um poema do escritor francês Michel Houellebecq, ‘La Possibilité d’une Ile’, o que lhe valeu a amizade do autor. Enquanto esteve no Eliseu, escrevia e compunha à noite, depois de todos estarem deitados, numa salinha habitada pelos seus instrumentos.

Este quinto disco, o primeiro na língua de Shakespeare, nasce de um desafio do produtor canadiano David Foster. Ao assistir a um concerto de Bruni em Los Angeles, ele confessou-lhe, no fim: “Adoro a tua música, Carla, mas não percebo nada do que cantas”. Foi aí que surgiu a ideia de um álbum de covers, depois de a cantora ter explicado que não conseguia escrever letras em inglês por causa da métrica. O resultado é um disco eclético, de bom gosto, com versões inesperadas de clássicos como ‘Perfect Day’, de Lou Reed, ‘The Winner Takes it All’, dos Abba (que escolheu para cantar à guitarra, no final da entrevista), ou o surpreendente ‘Highway to Hell’, dos AC/DC.

Música. Filha de uma pianista e de um compositor de ópera, Carla Bruni teve sempre os sons e os instrumentos como banda sonora em casa. Os três irmãos tiveram aulas de piano. Carla só assumiu a faceta de cantora-compositora aos 35 anos

Música. Filha de uma pianista e de um compositor de ópera, Carla Bruni teve sempre os sons e os instrumentos como banda sonora em casa. Os três irmãos tiveram aulas de piano. Carla só assumiu a faceta de cantora-compositora aos 35 anos

FOTO Eric J. Guillemai

Da digressão mundial, conta que o melhor é estar no palco. O medo de enfrentar o público, combate-o com “um chá ou uma cerveja” antes dos espetáculos ou com “conversa fiada com os músicos”... Em Portugal tem muitos amigos e “uma pessoa muito próxima da família” (Fernanda Silva, uma algarvia que acompanhou as irmãs Bruni-Tedeschi a vida toda e que as continua a ajudar). “É um país lindo. Gravei há anos um anúncio publicitário numas praias intocadas no norte do país, de dunas, um sítio incrível. Fui várias vezes a Lisboa, onde tenho recordações de uma cidade linda com comida ótima e pessoas muito amáveis. Também trabalhei no Porto. Lembro-me de ver buganvílias como nunca tornei a ver em sítio algum, e de um rio que se atirava ao mar. Estive ainda, num verão, ao pé de Faro. Recordo-me de uma aldeia muito branca... Tenho muitas lembranças, apesar de conhecer mal o país...”

Em final de janeiro, quando Carla Bruni vier a Portugal, trará com ela Christian, o guarda-costas que a segue para todo o lado há dez anos, desde que foi destacado para proteger a primeira-dama de França. Polícia de Estado, confessa que a cantora é uma pessoa bastante mais preocupada com o bem-estar dele do que outras figuras para as quais trabalhou. “É simpática, preocupa-se”, diz.

A verdade vem sempre ao de cima

Há muitos anos que Carla Bruni convive com a exposição pública da sua vida. E parece estar habituada (e pacificada?) a esse facto. O ano passado, a mãe, Marisa Borini, publicou as suas “Memórias — Minhas caras filhas, vou contar-vos” com a autorização das filhas, Carla e Valeria (esta última atriz e realizadora). Em 306 páginas, a obra passa em revista toda a existência desta mulher singular e emancipada — da vida de pianista e de atriz à narração do encontro com o pai das filhas, Alberto, com quem manteve uma relação de cumplicidade a vida toda e a quem revelou a verdadeira paternidade de Carla, fruto de um affair com outro homem, Maurizio Remmert. Foi Alberto Bruni Tedeschi, no seu leito de morte, quem contou a verdade a Carla, tinha ela 28 anos. Em 2016, as “Memórias” de Marisa abriram ao público esse capítulo do foro privado. Carla desdramatiza, como faz em várias ocasiões: “Há anos que tudo isso era sabido. Acredito que o segredo e as mentiras são mais tóxicas do que aquilo que é tornado público. A verdade não me incomoda.”

Após a morte de Alberto Tedeschi, Carla conheceu o pai biológico, que vive no Brasil. Não foi estranho?, perguntámos. “Pelo contrário, foi muito bom. O meu pai tinha acabado de morrer, e outro pai apareceu-me. Não é algo que aconteça a muita gente.” Encontrou um pouco dela neste “novo pai” — “Carácter” essencialmente, afirma. Hoje, Maurizio Remmert faz parte da vida de Carla. “Chega amanhã (20 de dezembro) do Brasil, para passar uns dias connosco” (e celebrar o aniversário de Carla, a 23 de dezembro). “Os meus filhos adoram-no”, assegura.

A vida familiar de Bruni foi sempre rica em acontecimentos e em altos e baixos. Em 2006, a morte do irmão do meio, Gino Bruni, de sida, depois de anos de doença, tornaram Carla particularmente sensível ao tema. “Conhecia esta doença há muito tempo, mas basta olhar para os números para perceber que é uma epidemia mortífera”, afirma, explicando porque aceitou ser embaixadora do Fundo Mundial da Sida, em 2009 — cargo que exerceu até 2012, quando o marido, Nicolas Sarkozy, deixou a Presidência da República de França.

Com dois filhos de duas relações — Aurélien, de 16 anos, fruto de uma ligação com o filósofo Raphael Enthoven, e Giulia, de 6, filha de Nicolas Sarkozy — Bruni afirma que a principal diferença que sentiu ao ser mãe mais tarde foi “o cansaço, muito maior”. O primeiro filho, contudo, nasceu no seio de intensa controvérsia. Bruni conheceu Raphael em 2000, quando namorava com o pai dele, Jean-Paul Enthoven. Na altura, Raphael era casado com a filha de um conhecido escritor francês, Bernard-Henri Lévy. Os compromissos de ambos não chegaram para aplacar a nova paixão. Desta chama nasce um filho, Aurélien, e uma relação que durará até 2007. Mas a vingança da mulher traída será terrível: em 2004, Justine Lévy publica o livro “Rien de Grave” (Nada de Grave), onde reproduz a sua história de amor e todas as suas personagens. O livro é um best-seller, e Carla aparece bastante maltratada, como uma femme fatale recauchutada.

Pouco tempo depois, Carla Bruni conhece Nicolas Sarkozy num jantar e três meses mais tarde casam-se no Eliseu. É o início de outra vida para a cantora franco-italiana. A Carla Bruni ‘colecionadora’ de namorados — de Mick Jagger a Eric Clapton ou Vincent Pérez —, que se dizia aborrecida com a monogamia, passa a mulher fiel e dedicada a um só homem, a quem jurou amor eterno. “É sempre assim com o amor”, diz ela, “é muito banal. Digamos que antes de Nicolas estive noutro nível de compromisso. Senti-o de imediato. É difícil pôr em palavras estas subtilezas — são insuficientes.” Confirma que está tão apaixonada hoje como no início. Nicolas continua a oferecer-lhe flores todas as semanas. A sua versão de ‘Stand by Your Man’, uma das faixas de “French Touch”, assenta-lhe que nem uma luva. Mas se a voz e o intimismo convidam ao romance, há algo em Bruni que permanece indomado. Como os cavalos selvagens. Ou como o vento batido nas praias de dunas que tanto a marcaram no norte de Portugal.

O Expresso viajou a convite da Sons em Trânsito