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O novo desafio europeu: fazer séries melhores que as americanas

Cena de “The Halcyon”, uma produção da ITV

d.r.

Perante o imparável sucesso das séries televisivas, o relatório da Eurodata 2017 dá conta analítica do crescimento das séries originais; do crescente volume de produções país-a-país, território-a-território, assinalando a força particular com que as coproduções se revelaram no ano passado. Vale o que vale, mas o barómetro dos analistas da Eurodata sedeados em Paris indica que as séries norte-americanas estão a ser desafiadas por produções europeias, especialmente as britânicas. E que o género séries ganhou força no horário nobre de países como os Estados Unidos, a Turquia e a Dinamarca, por exemplo

Texto Luís Proença

Os Estados Unidos mantêm o domínio quanto às séries televisivas exibidas no âmbito dos treze países sob a análise do “Eurodata Report” (Alemanha, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos da América, França, Israel, Itália, Holanda, Reino Unido, Rússia, Suécia, Turquia e Venezuela).

Comparando 2017 com 2016, e apesar de um ligeiro decréscimo, as produções norte-americanas somam ligeiramente mais de metade da penetração quanto às horas de emissão do que efetivamente vai para o ar. O decréscimo é de 53% para 51%, de um ano para o outro.

As produções britânicas, pelo contrário, aumentaram a penetração. As importações para os territórios considerados crescem dos 8% para o 11%, no mesmo período de tempo. O relatório anual da Eurodata sobre as séries televisivas de ficção com guião revela que a popularidade das séries originais produzidas no Reino Unido levaram a uma redução na importação de séries ‘made in USA’.

Particular apetite verificado nos territórios escandinavos. A série “The Halcyon”, um drama produzido pela ITV, entrou diretamente para o sétimo lugar dos programas mais vistos na Suécia, aquando da estreia, por exemplo.

Ao nível da análise mais pormenorizada, a Eurodata conclui que a quebra na exibição de séries norte-americanas, registada de um ano para o outro, incide sobretudo no chamado prime time (horário nobre), geralmente fixado no período do dia entre as 20h e as 24h (ou 19h-23h, nalguns países do norte do mundo). Em contrapartida, assinala-se um aumento na exibição de ficção produzida localmente, nestes ‘slots’ horários de maior consumo televisivo, em cada um dos países analisados.

Há sete anos, 75% das séries exibidas no horário-nobre eram originários dos Estados Unidos versus apenas um quarto, cuja origem eram “todas as outras origens”. Sete anos é muito tempo e os ponteiros do consumo dizem que as importações dos Estados Unidos caíram 43% nesse intervalo de tempo e que a diversificação das compras para exibição de “todas as outras origens” treparam 57%.

As séries locais, desenvolvidas em cada país, desde a escrita, passando pela seleção e escolha de elencos nacionais, ambientação e produção, gravações e edição – grosso modo -, foram as mais difundidas no ano passado, nos territórios analisados pela Eurodata. Mais de metade das que foram emitidas durante o horário nobre nos principais canais foram séries locais. Causa e/ou consequência, nove em cada dez destas séries atingiram o Olimpo das mais vistas, ainda que tenha havido um ligeiro decréscimo face a 2016 e, desta feita, a favor das coproduções.

A cada ano que passa, no substantivo universo de análise da Eurodata, as coproduções aumentam, explicadas pela tentativa de juntar forças artístico-culturais e investimentos de produção na senda de “a união faz a força” e conseguir desta forma gerar competitividade, principalmente face aos mais instituídos concorrentes da ‘disrupção digital’, financeiramente vitaminados pelos subscritores à volta do mundo e paralelamente pelo mercado bolsista nova-iorquino, para desenvolver os ‘originais’ - séries ‘deluxe’ com recursos e orçamentos por episódio situados no patamar – ou tantas vezes acima, dos valores de produção de muitas e muitas longas metragens.

“Mata Hari”, coprodução russo-portuguesa

“Mata Hari”, coprodução russo-portuguesa

d.r.

No curto prazo e a cada ano que passa, as ‘copros’ têm vindo a incluir o top das séries mais vistas, em cada território considerado pela Eurodata, numa proporção de uma em cada dez. E a taxa de sucesso aumenta conforme a produção se permite partilhar uma mesma língua ou cultura ou das suas proximidades mais aninhadas, permitindo atingir audiências potenciais quantitativas mais expressivas.

Fica, como putativo ‘case study’, o exemplo da coprodução belga-holandesa da série “Als de Dijken Breken”, emitida pela NPO1, com lugar a medalha de prata pela série mais vista na Holanda durante o ano passado.

Outra medalhada referenciada no relatório, neste caso pela peculiaridade de se tratar de uma improvável coprodução russo-portuguesa – a minissérie “Mata Hari”, e sobretudo pelos bons resultados de audiência conseguidos na Rússia através da emissão no “Pierviy Kanal” e em Portugal na SIC.

Na perspetiva de Abed Laraqui, gestor de pesquisa e clientes da Eurodata TV Worldwide, “o sucesso das séries levou a uma forte e continuada competição entre os criadores de conteúdos. Os telespectadores pedem novos programas, novos conteúdos e mais originalidade. Nunca houve tanta criatividade disponível para as audiências como em 2017”, conclui.

Em ‘vol d’oiseau’ sobre as conclusões está claro de ver que, no ano que findou, três em cada dez novas séries levadas aos ecrãs foram estreias absolutas; 70 por cento difundidas nos canais dominantes das audiências. As séries de crime saem gradualmente de cena desde o ano passado para dar lugar às históricas.

Outra mutação assinalável: as temporadas são cada vezes mais curtas, quanto ao número de episódios. Os episódios têm durações cada vez maiores e tendem a estabilizar mais próximo dos 60 minutos por capítulo.

Do estudo conclui-se igualmente que as séries desfrutam de um acrescido sucesso através dos dispositivos móveis: computadores, tablets e smartphones. São cada vez mais vistas através da distribuição online ou com recurso às possibilidades da experiência do diferido.