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É o espetáculo! Porque o espetáculo tem de continuar...

“Actores”, com Bruno Nogueira, Rita Cabaço, Marco Martins, Miguel Guilherme, Carolina Amaral e Nuno Lopes

FOTO José Frade

Há anos que julgo conhecer-lhes os passos. Sei que trabalham de manhã, de tarde e à noite. Às vezes também de madrugada, quando no regresso de mais um espetáculo são obrigados a preparar o trabalho seguinte, aquele que virá logo sobre a manhã: uma audição, uma locução, o ensaio de uma nova peça, a gravação de uma telenovela, uma passagem fugaz por um filme.

Sei que entre um respirar e outro guardam mil vidas; e que o glamour da passadeira vermelha corresponde a um ínfimo flash, atrás do qual estão horas e horas de trabalho, de alguma dose de ilusão e outra de desilusão, de uma possível e, em muitos casos, quase garantida, subjugação à ordem dos outros.

Calculo ainda que os atores estejam presos a milhares de palavras que se encaixam ardilosamente umas nas outras, sem possibilidade de variação, fusão, mistura; e antevejo que, estando aqui neste minuto à minha frente, possam estar noutro lugar, ou melhor, no lugar de outro, nas horas seguintes.

Apercebo-me também que, depois de doze, catorze ou mais horas de trabalho, vão ter de ter tempo para cuidar do corpo deles e, em muitos casos, do corpo de outros, porque, não raras vezes, insistem em ter filhos e em criá-los.

Apesar de saber tudo isto, e de, por isso, não me surpreender em grande parte com a matéria de que é feita o espetáculo “Actores” (com Bruno Nogueira, Carolina Amaral, Miguel Guilherme, Nuno Lopes e Rita Cabaço, de Marco Martins), sobre o que é ser ator nestes nossos dias, na sexta-feira passada, saí, do Teatro São Luiz, com a sensação de que em décadas de espectadora próxima e implicada me tinha falhado algo.

Ao ver “Actores” percebi que lhes é negada a possibilidade de chorar, nos piores momentos. Recentemente, por exemplo, Simone de Oliveira dizia-me, em entrevista: “É complicado olhar o passado. No dia em que a minha mãe morreu, tinha uma comédia à noite. E fui fazer revista quando o meu pai morreu. Era o Rogério Paulo a perguntar-me: ‘Estás bem? Estás bem?’ Eu só dizia: ‘Não me digam nada.’” Recordei-me desta parte da conversa quando vi a cena em que Carolina Amaral diz “no dia em que a minha mãe foi enterrada eu não pude ir ao enterro (...) alguém me convenceu que já não havia nada a fazer. ‘Vai lá à tua vida, já não há nada a fazer.’ E eu fui fazer o espetáculo.” Carolina não se representava a si mesma. Interpretava, em modo de substituição, a atriz Luísa Cruz, que abandonou o espetáculo a três semanas da estreia porque não o consegui conciliar com a novela que está a fazer à tarde e à noite.

O espetáculo que impediu Luísa de ir ao enterro da mãe tratava-se de “A Mula, o Clérigo, o Alfaite e Outras Lamentações”, de Anrique da Mota/Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, do Teatro da Cornucópia. A atriz tinha então 31 anos, e fazia “a parte de trás duma mula”.
Se o glamour é o brilho, o seu reverso deve ser esse lugar sombrio, onde não há espaço nem tempo para uma alma se amparar.

Desde sexta-feira passada que ando a tentar lembrar-me de outras profissões em que, face à morte de um familiar, seja “negado” o direito a não trabalhar, e que tal seja aceite pelo próprio.

O luto deve ser das coisas mais universalmente respeitadas, e o ritual funerário o momento fundador da nossa humanidade, e, no entanto, alguém decidiu colocar algo à frente desse momento de perda. É o espetáculo! Porque o espetáculo, dizem, tem de continuar...