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CupcaKKe, 20 anos, 
rapper de Chicago

Nos últimos dois anos, Elizabeth Harris tem vindo a abraçar um desafio complicado (diríamos mais: minado) para uma rapper: falar de forma explícita, e sem pedir licença a quem quer que seja, sobre um assunto (ainda) tão olhado de lado quanto a sexualidade feminina. Do alto dos seus 20 anos, fá-lo com uma assertividade e humor desarmantes em temas com títulos tão sugestivos quanto ‘Deepthroat’, ‘Doggy Style’, ‘Best Dick Sucker’, ‘Cumshot’ ou... ‘Vagina’. Mas também não se esquiva a descrever, sem meias-palavras, em ‘Pedophile’, a relação abusiva que manteve com um homem mais velho quando ainda era uma criança ou a decretar o seu apoio à comunidade LGBT (outro gigantesco tabu em território hip-hop) em ‘LGBT’. CupcaKKe, nome artístico escolhido pela MC de Chicago, acaba de editar, por própria conta e risco, “Ephorize”, terceiro álbum de originais — tem também duas mixtapes, tudo editado entre 2016 e 2018 —, composto por dezena e meia de novas canções que mantêm a subversão a que habituou os seguidores mas chegam embrulhadas em produções mais polidas e amadurecidas.

“Escrever é... como se fosse um amigo. É família”, defende a artista, “sei que são apenas palavras, mas é algo que me é muito próximo.” As rimas são inventivas, de uma aspereza cortante quando tal é necessário ou de uma sensibilidade inesperada quando os assuntos assim o pedem, e encaixam na perfeição em batidas que giram nas mais variadas direções. Se faixas como ‘Exit’, ‘Cinnamon Toast Crunch’ e ‘Cartoons’ (heróis infantis disparados como balas) pendem mais para território pop, outras como ‘Single While Taken’ ou ‘Self Interview’ chegam dotadas de uma produção mais intimista, com ‘Crayons’ (verdadeiro hino sacado com três curtos versos: “boy on boy, girl on girl/ like who the fuck you like/ fuck the world”) e ‘Fullest’ a chamarem a si ritmos latinos para agitar os ânimos. É, contudo, nas hiperssexualizadas ‘Duck Duck Goose’ (“I can make your dick stand up like Statue of Liberty once we fuck”) e ‘Spoiled Milk Titties’ (“this cat got nine lives so we got nine rounds until this pussy getting buried”) que a rapper soa como peixe na água. Num momento em que Missy Elliott permanece fora de combate, Azealia Banks perdeu o comboio, já ninguém se lembra de Iggy Azalea e Nicki Minaj se vê a braços com uma competidora à altura, Cardi B, CupcaKKe parece chegar para preencher um vazio no universo do hip-hop. Sem metáforas nem entrelinhas, a rapper de Chicago não pediu licença para entrar, mas parece ter vindo com vontade de ficar. / Mário Rui Vieira