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Eric Frattini: “Trump sabe que é melhor ter o Vaticano como aliado do que como inimigo”

d.r.

Politicamente incorreto, muitas vezes sem filtro, quase sempre certeiro, o romancista e investigador revela detalhes sobre a guerra diplomática entre Donald Trump e o Papa Francisco

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

No planeta Terra, só um punhado de pessoas conhece bem os meandros da dinâmica entre Vaticano e EUA. E nem todas têm tanta liberdade para falar sobre este dossiê sensível como o escritor e jornalista de investigação hispano-peruano Eric Frattini. Um ano após a eleição de Trump como Presidente dos EUA, Frattini revela muito do que faltava saber sobre os bastidores diplomáticos de dois dos Estados mais poderosos do mundo.

No que respeita a relações com o Vaticano, houve mudanças de bastidores no seio dos serviços de informações norte-americanos depois de Donald Trump ter sido eleito?
Algumas, mas não muitas, principalmente porque as relações entre Washington e Roma durante a Administração Obama também não eram muito boas. A Casa Branca de Obama não gostava que o Vaticano aparecesse a intermediar em assuntos como a Venezuela ou Cuba. A chegada de Trump à Casa Branca não ajudou a melhorar estas relações. E, se os que mandam não têm boas relações, também será difícil que as suas agências de inteligência as tenham. Com David Petraeus [diretor da CIA entre 2011 e 2012] foram tensas; com John Brennam [2013 a 2017] e com Mike Pompeo [atual diretor] inexistentes.

Consegue descrever como é atualmente a relação entre a Administração Trump e a Santa Sé?
Durante os anos em que Carlo Maria Viganò foi núncio em Washington, de 2011 a 2016, as relações pelo menos foram estáveis. Creio, inclusivamente, que Viganò era muito respeitado entre o Departamento de Estado durante a liderança de Hillary Clinton e John Kerry. Clinton via em Viganò um homem que havia tentado acabar com a ‘corrupção’ com a Santa Sé. A chegada do francês Louis Yves Pierre a Washington, proveniente da nunciatura do México, foi analisada pelos observadores políticos como uma intenção do Papa Francisco de tentar ‘suavizar’ a política Trump no que respeita à imigração vinda do México para os EUA. Nos corredores do Vaticano diz-se que o envio do francês à capital norte-americana terá sido mais uma ideia de Pietro Parolin, o secretário de Estado do Vaticano, do que do próprio Papa. Parolin sabe que as duas frentes de Trump naquela região são o México e a Venezuela, e o atual secretário de Estado papal foi núncio durante quatro anos em Caracas, sendo um grande conhecedor da realidade venezuelana.

No último ano tem havido tensões e confrontos entre os EUA e o Vaticano...
Creio que o pior momento diplomático entre Washington e Roma foi sem dúvida quando Hillary Clinton pressionou o Papa Bento XVI para que ‘limpasse’ o Banco Vaticano, ou o Departamento do Tesouro seria obrigado a paralisar todas as operações financeiras do Vaticano em solo dos EUA. Aquela advertência provocou um autêntico terramoto dentro da Santa Sé, que levou inclusivamente o Sumo Pontífice a ter de renunciar ao Trono de Pedro, porque se supôs que para ele seria impossível levar a cabo as reformas financeiras que lhe exigia Clinton.

Trump é responsável por promover uma “geopolítica apocalíptica”, com raízes semelhantes ao extremismo islâmico, segundo acusaram dois aliados do Papa Francisco a um jornal inglês. Disseram ainda que a equipa do Presidente promove um “fundamentalismo evangélico” que distorce a Bíblia e promove o conflito e a guerra...
De facto, o Papa Francisco é sem dúvida muito mais diplomático do que Bento XVI, mas não ajudou a que as relações entre os dois países se tornassem menos tensas. O encontro entre Trump e Francisco, em maio de 2017, é disso exemplo. Os observadores diplomáticos qualificarão a reunião de ‘gélida’. O Papa aproveitou para recordar a necessidade de promover a paz e não a guerra logo na troca de presentes entre os dois homens. “A oliveira é o símbolo da paz”, disse o Papa a Trump quando lhe entregou uma medalha com um ramo de oliveira. Ao que Trump respondeu: “Precisamos de paz.” Muitos analistas disseram que esta troca de palavras se referia à relação entre os dois Estados e não à situação do mundo. Na reunião, que durou 27 minutos, Francisco falou em espanhol e Trump em inglês. A despedida foi igualmente gélida. No final do encontro, Trump disse ao Papa: “Foi uma grande honra.” Francisco não lhe respondeu.

Trump demoniza os imigrantes e os muçulmanos, como acusam os dois aliados do Papa?
Esse é o principal ponto de discórdia nas relações entre Washington e a Santa Sé. Trump ainda recorda que o Papa questionou a sua fé, na altura em que o Presidente dos EUA anunciou a construção de um muro entre os EUA e o México. Creio que não o perdoou, e muito menos quando Francisco declarou, durante a campanha eleitoral nos EUA, que os republicanos não eram bons cristãos, por apoiarem a construção do muro. Trump respondeu que o Papa era um “miserável”, por proferir aquelas palavras. No encontro de maio, o Papa disse a Trump que preferia sentir-se um miserável, porque isso lhe permitia aproximar-se dos desgraçados do mundo. Trump ou não percebeu a indireta ou preferiu não responder. Depois da reunião, o Presidente reuniu-se com Parolin e com o arcebispo Paul Gallagher, o secretário de Relações com os Estados, um britânico que é muito bem visto pelo Departamento de Estado. Gallagher ter-se-á mantido no cargo devido à sua boa sintonia com a Casa Branca e com o difícil Tillerson. Em relação à demonização dos migrantes e dos muçulmanos, o Papa tem tentado sempre nos seus discursos deixar claro que a imigração e os muçulmanos nunca devem ser relacionados com o jiadismo e o terrorismo, que é o que pretende Trump.

A decisão de Trump de retirar os EUA dos acordos climáticos de Paris foi condenada pelo Vaticano...
Sem dúvida. No encontro de maio, o Papa também entregou a Trump um exemplar da poderosa encíclica sobre a ecologia, “Laudato Si”, elaborada durante o seu pontificado. O Presidente norte-americano disse ao Papa: “Não esquecerei a sua mensagem.” Três meses depois ordenava a retirada dos EUA dos acordos de Paris. Donald Trump é assim.

O Vaticano teme Trump? Ou, pelo contrário, o novo Papa tem muito mais poder para enfrentar o Presidente dos EUA?
Os EUA sabem perfeitamente que, embora o Vaticano seja um Estado muito pequeno, quando o Papa abre a boca, milhões de ouvidos católicos de muitíssimas nações o escutam. Trump sabe que é melhor ter o Vaticano como aliado, ou pelo menos como peão silencioso, do que como inimigo político. Isso não interessa a Washington nem a Roma.

Trump preferia outro Papa, como por exemplo Bento XVI?
Bento XVI era um homem com uma mente mais conservadora do que o ‘liberal’ Francisco. Não tenho dúvida de que Trump o preferia ter como Papa. Ou ao ultraconservador João Paulo II. Teria sido feliz tendo no Vaticano este último, que seguia as mesmas diretrizes que se seguem hoje na Casa Branca. Na altura até se dizia que João Paulo II deveria ocupar a Casa Branca e Jimmy Carter o Trono de Pedro. Na conta do Twitter, Trump respondeu às indiretas de Francisco quando este criticou a construção do muro na fronteira com o México. “O Papa só valoriza uma parte do problema. Quando o Daesh atacar o Vaticano, Francisco será o primeiro a rezar para que Donald Trump seja o Presidente dos EUA.”

E este Papa preferia um outro Presidente, como Obama?
A harmonia entre Obama e Francisco não era tão fantástica como quiseram fazer passar muitos analistas, principalmente vaticanistas. Houve muitos e duros pontos de desencontro entre os dois, no que respeita a Guantánamo, à proteção das comunidades cristãs no Iraque, etc. Não foi um mar de rosas. Com Obama, o Vaticano participou em muitas atividades da chamada diplomacia secreta, como foi o caso de Cuba, algo que seria impossível com Trump na Casa Branca. Havia linhas abertas à Igreja Católica nos EUA no que respeita ao apoio das populações nos campos da saúde, da educação e da assistência aos imigrantes. Linhas que são agora inexistentes.

Existem divisões no Vaticano em relação à linha de atuação contra Trump?
Poderia haver talvez algum resquício a favor de Trump nos tempos de Bento XVI, como era o caso do anterior secretário de Estado do Vaticano, Tarcisio Bertone, de Angelo Sodano ou até do duro Ludwig Muller. Hoje, todos eles estão desaparecidos da primeira linha da Cúria Romana, sendo os seus cargos ocupados por pessoas mais próximas da mentalidade política e diplomática de Francisco. Por isso, o apoio a Trump ou à sua ideologia é mais difícil de encontrar na Santa Sé.

Como define a relação entre os dois serviços secretos?
É uma relação fria, mas a CIA sabe que é necessária. A secreta dos EUA sabe que o Vaticano não tem exército mas tem algo que lhe dá um poder de dissuasão incomparável: a informação. A Santa Sé tem conhecimento quase em tempo real de qualquer coisa que suceda no planeta.