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Trabalhos e paixões de um arquiteto premiado

Manuel Aires Mateus, Prémio Pessoa 2017, percebe a arquitetura como uma outra forma de arte

Tiago Miranda

Foi uma conversa de quase três horas. Do outro lado daquela mesa longa, pensada para funcionar como espaço contínuo onde são apresentadas as maquetas das obras em curso, está o arquiteto Manuel Aires Mateus. O anúncio da atribuição do Prémio Pessoa estava ainda demasiado fresco. O fim-de-semana fora atribulado, com o arquiteto a ver-se incapaz de corresponder à infinidade de mensagens que lhe atulhavam o telemóvel. Anunciado o prémio na sexta, no sábado fora a Melides, no Alentejo, com Tiago Miranda fazer as fotografias destinadas a acompanhar a entrevista que na semana seguinte havia de fazer capa da Revista do Expresso, na edição de 23 de dezembro último.

Manuel Aires Mateus escolhera ser fotografado numa obra muito particular. Quem leu a entrevista terá reparado numa casa toda em tijolo. No texto falava-se já das reminiscências romanas daquela habitação. Porém, e desde logo por não ser esse o objeto da entrevista, ficava tudo o mais por explicar.

Centro Cultural de Sines

Centro Cultural de Sines

FOTO AIRES MATEUS

Essa viagem, como outras que agora se farão ao universo criativo de um dos mais estimulantes arquitetos contemporâneos, poderá contribuir para um outro tipo de aproximação a uma obra que vive de um permanente questionamento. Do estabelecido. Do dado como adquirido. Das convenções. Das funções e objetivos da arquitetura.

Aquela é uma vivenda rodeada de pátios. Passeiam-se por ali múltiplos odores, numa singular comunhão com a natureza. Para a construir, já terão sido feitos, à mão, mais de 300 mil tijolos. Montada a partir de um módulo, toda a casa é o mesmo módulo que se repete. Não há tijolos partidos. Não há uma única emenda em toda a moradia, construída sem recurso ao cimento armado, exceto nas fundações, e com uma estrutura antissísmica de madeira.

Museu l'Elysée e Mudac (Lausanne)

Museu l'Elysée e Mudac (Lausanne)

FOTO AIRES MATEUS

Essa é outra singularidade a conferir-lhe um papel muito relevante na criação de um arquiteto para quem é cada vez mais crucial explorar as potencialidades proporcionadas pelas características especiais do trabalhar uma moradia.

As casas – os irmãos Aires Mateus estão a construir várias no Algarve e no Alentejo – são vistas como projetos seminais, ao permitirem uma grande investigação, assente num diálogo muito direto com os clientes que proporciona, por vezes, soluções inesperadas. Assim aconteceu em Melides. A utilização exclusiva de tijolos foi um desejo expresso pelo dono da obra.

Há nos projetos de Manuel Aires Mateus uma avassaladora pulsão estética. A beleza de cada construção não é procurada como um fim em si mesmo. É antes entendida como a expressão necessária para a definição de uma identidade. Há algo de poético e, por extensão, de profundamente artístico no modo como se desenvolve o traço que desagua em construções marcadas por uma beleza esmagadora. Quase se diria totalitária, não num qualquer sentido político ou ideológico do termo, mas na consagração da ideia de arte total como expressão da vida que somos. Da vida que temos. Da vida que queremos.

Faculdade de Arquitetura, Tournai

Faculdade de Arquitetura, Tournai

FOTO TIM VAN DE VELDE

Basta passear o olhar por obras tão referenciais como o Museu Cantonal de Fotografia (L’Elysée) e Museu de Design e Artes Contemporâneas Aplicadas (Mudac), de Lausanne, na Suíça, pela Faculdade de Arquitetura de Tournai, na Bélgica, o Centro Cultural de Sines, a nova sede da EDP, em Lisboa, ou o Centro de Arte Contemporânea Olivier Debré, em Tours, França, para se perceber essa dimensão outra contida numa arquitetura feita também de silêncios.

Íamos já com mais de duas horas de conversa quando, depois de tanto se falar da sua própria obra e do modo como nos interpela e nos suscita tantos estranhamentos, seja em Tournai, seja em Lausanne, quis saber quais são os trabalhos de outros arquitetos que Manuel Aires Mateus gostaria de ter assinado.

Centro de Arte Contemporânea Olivier Debré, Tours

Centro de Arte Contemporânea Olivier Debré, Tours

FOTO BENOIT FOUGEIROL

A resposta veio pronta e centrada no que considera serem os seus grandes mestres.

Desde logo a Villa La Rotonda (Vicenza, Itália,1566), de Andrea Palladio, uma referência para poetas e artistas ao longo dos tempos. Plasma-se ali uma temática infinita, ancorada numa sensível ideia de beleza e absoluta harmonia. Depois a igreja de S. Carlino alle Quatro Fontane (Roma,1646), uma obra-prima da arquitetura barroca. (E ainda ecoa a frase de Manuel quando dizia que “se a arquitetura não fosse uma arte, o barroco seria ridículo”). Seguem-se as piscinas de marés de Álvaro Siza (Leça da Palmeira, 1966), onde acontece a genialidade de uma completa integração com a natureza. Por fim, a capela S. Klaus (Wachendorf, Eifel, Alemanha, 2007), de Peter Zumthor, uma das grandes referências da Faculdade de arquitetura de Mendrizio, na Suíça, onde Manuel dá aulas há dezoito anos.

Sede da EDP, Lisboa

Sede da EDP, Lisboa

FOTO AIRES MATEUS

A arquitetura faz-se, também, de emoções. Derramadas em cada instante, em cada milímetro daquele saber construir os espaços nos tempos que desejamos. Não há uma necessária procura de eternidade na duração física da obra. Por vezes, mesmo a mais frágil das construções pode alcançar essa condição rara de objeto capaz de se projetar no tempo futuro. Manuel Aires Mateus, como se vê por aquelas escolhas, pensa no presente o passado que o pode ajudar a abrir caminhos para a construção de outros futuros. A arquitetura é, afinal, um estado de transição entre diferentes vivências do tempo.

  • “Este prémio é, obviamente, repartido com o meu irmão”

    Surpreendido, claro, mas “contentíssimo”, Manuel Aires Mateus recebeu assim o Prémio Pessoa que, este ano, distinguiu o arquiteto português. Ao Expresso, garante que este “é um prémio muito coletivo” que faz questão de repartir com o irmão Francisco Aires Mateus, com quem sempre trabalhou desde que ambos se formaram em Arquitetura

  • Manuel Aires Mateus vence Prémio Pessoa 2017

    O arquiteto português de 53 anos é o escolhido, este ano, pelo júri do Prémio Pessoa. Professor universitário em Portugal e no estrangeiro, acumula uma vasta obra de Arquitetura. O projeto de um novo polo cultural em Lausanne, na Suiça, deu ao ateliê Aires Mateus uma consagração internacional. O ‘edifício flutuante’ inaugurado este ano, em Tours, é outro exemplo do reconhecimento do seu trabalho