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Joana Vasconcelos: “A qualidade de uma obra não decorre de ser mais ou menos conceptual”

Será o(a) primerio(a) artista português a ter uma exposição individual num museu Guggenheim. Estará com uma mostra da sua obra em Bilbau, de 26 de junho a 11 de novembro. Já foi a primeira mulher a expor em Versalhes e no palácio da Ajuda. Fez a primeira peça da primeira bienal de Veneza comissariada por mulheres. Agora está a conceber uma obra para o passeio, em Nice, onde um ataque terrorista provocou 84 mortos

Valdemar Cruz

Valdemar Cruz

Entrevista

Jornalista

Luis Barra

O que vai acontecer no Guggenheim?
Começou por ser apenas uma exposição para o interior. Depois foi progredindo. Quando os comissários vieram cá selecionaram as três ou quatro peças novas que queriam. Vou ter acesso ao hall de entrada. Terei duas peças no exterior, no passeio de esculturas. Também há a ideia de ter uma peça na cidade, num ambiente mais urbano. Depois há a grande exposição, com, entre outras obras, a máscara, que acabou por dar o nome à exposição: “I’m Your Mirror”, a partir da canção dos Velvet Underground, cantada pela Nico e intitulada ‘I’ll be your mirror’. Não nos interessava tanto o futuro evocado pela canção. A exposição é uma espécie de espelho da minha vida. Em vez de ser no futuro, é no presente. Não podia chegar ao Guggenheim e fazer uma exposição sem obra nova.

Como é que se chega ao Guggenheim?
O que me fez chegar aqui é uma súmula de exposições em lugares particulares. No fundo, tenho uma carreira bastante atípica. Quando faço Veneza em 2005, tenho a primeira peça da primeira bienal comissariada por mulheres. Ao meu lado tinha as Guerrila Girls, a Louise Bourgeois, entre outros grandes. Aí eu era uma jovem artista portuguesa. Tinha uma boa peça, mas não tinha obra. Desde aí até aqui preocupei-me em criar um corpo de obra que fosse suficientemente robusto para poder fazer frente ao que vai acontecer agora no Guggenheim. Fui a Veneza cinco vezes. Até que resolvo experimentar uma das peças têxteis, que é a “Valquíria”. Já tinha feito no CCB. Foi o primeiro grande teste de uma exposição individual. Já lá vão 10 anos. A seguir vou fazer Veneza, e aí já estava no meio de Jeff Koons ou Murakami. A minha peça resistiu ao impacto de todos estes grandes nomes. A interação criada foi tão boa que fui convidada para Versalhes logo a seguir. Não se pode chegar a estes grandes palcos sem passar alguns testes de dimensão internacional e de alto nível.

Quais serão as peças novas?
A “Valquíria”, a máscara, o anel, que vai ficar no exterior, junto à entrada dos grupos. Esta peça é uma forte crítica ao luxo e à forma como o luxo se reduz a dois ou três parâmetros muito simples. As mulheres querem diamantes e eles querem uns grandes carros e whisky. O luxo acaba por ser muito conservador. Aparece tudo junto numa peça só, com as jantes dos carros douradas e os copos de whisky portugueses. Esta peça tem uma certa estética, mas é uma crítica ao luxo.

É a reafirmação do teu lado interventivo, como acontece com o “Call Center”, uma pistola feita de telefones e que também lá estará?
Todas as minhas peças têm um lado crítico e um lado interventivo. A “Call Center” demorou dois anos a ser construída. Expõe-se ali a forma como as telecomunicações nos controlam hoje em dia. Essa ideia de dependência da comunicação vai acabar por matar a criatividade. A evolução da comunicação é tal que nos leva à total abstração. A repetição também é ela própria uma forma de chegar à abstração. Aquela peça é constituída por uma série de telefones que a certa altura criam uma massa bastante abstrata e aparece a pistola. Chama-se “Call Center” porque sem o título a leitura daquela peça não é igual.

Pensas a tua obra a partir de um ponto de vista feminista?
Se há uma perspetiva feminista na minha obra, há. Isso traduz-se na minha própria experiência de vida. Ser mulher artista é muito mais difícil do que ser homem artista. Fui a primeira mulher da primeira exposição alguma vez comissariada por mulheres na Bienal de Veneza, que tem 125 anos. Fui a primeira mulher em Versalhes e a primeira na Ajuda. Porquê? É porque algo aconteceu, porque eu não sou especialmente melhor quando temos Vieira da Silva, Paula Rego, Ana Vieira, Graça Morais e tantas outras. Foi preciso muito tempo, muitas gerações para que as mulheres pudessem estar no lugar onde eu estou.

Porque é que em geral as pessoas sem ligações a modelos conceptuais da arte reagem melhor às tuas obras do que importantes sectores da crítica instituída?
Posso interpretar isso de diversas maneiras. A arte é em si um discurso conceptual, seja ela qual for. Qualquer forma de arte é uma forma de comunicação, um ponto de vista de alguém sobre alguma coisa. Não nos podemos abstrair do lado conceptual que está por trás de um Van Gogh. Isso não quer dizer que, depois, a obra em si seja vista de uma forma conceptual. Em vez de usarmos a ideia de mais ou menos conceptual, mais comercial ou menos, devíamos abstrairmo-nos de todas essas tentativas de argumentação de qualidade ou não e concentrarmo-nos naquilo que a obra de arte deve fazer, que é comunicar com o seu público. E trazer, ou não, uma nova perspetiva ao mundo.

Trazes uma nova perspetiva?
O Van Gogh trazia uma nova perspetiva ao mundo. A distorção criada por ele ajuda-nos a olhar para o mundo de outra maneira, sem estar preocupado em saber se é conceptual ou não. É isso o que eu faço. Tenho uma perspetiva sobre o mundo em que há uma distorção da realidade através dos objetos do quotidiano. Podia ficar horas a falar sobre “A Noiva” (candelabro feito de tampões), escrevia uma tese de doutoramento sobre o casamento e era uma artista muito conceptual. Não é preciso. Nem todas as pessoas têm de ter uma perceção superconceptual e intelectual do mundo. Porém, o artista deve comunicar com todos. A qualidade não é feita pelo grau de conceptualidade ou não. É feita por se criar ou não uma nova perspetiva sobre o mundo.

Como é que te defines quando te perguntam o que fazes?
Digo que sou escultora. Depois, querem saber com que materiais trabalho. Aí, a resposta é mais complexa, porque o que eu trabalho não são materiais, são ideias.