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Os discursos de Joana

Joana Vasconcelos vai ter uma exposição individual num museu Guggenheim (Bilbau), uma instituição onde até agora nunca expusera qualquer artista português

d.r.

Um dia, durante a inauguração da Bienal de Veneza de 2005, Joana de Vasconcelos, que ali apresentava pela primeira vez a escultura “A Noiva”, um lustre construído ao longo de quatro anos e constituído por milhares de tampões higiénicos femininos, é abordada em dado mometo por um conhecido político italiano. Quer saber que obra tem para mostrar.

Acompanhado de outros políticos e respetivas esposas, escuta, entre o perplexo e o espanto não dissimulado, a mais inusitada das descrições. Joana, naquele dia particularmente assertiva, descreve-lhe o conceito subjacente àquela peça com cinco metros de altura.

Fala do casamento e fala da hipocrisia contida nas noivas vestidas de branco porque, diz-lhes, a maioria das mulheres não são virgens quando casam. No entanto, muitas delas querem, ou veem-se compelidas a usar o branco por ser o branco um símbolo de pureza. Logo, de virgindade. Joana sublinha que essa necessidade ainda existente na mulher, de se apresentar como imaculada, constitui uma abstração do que é uma mulher real, contemporânea.

“A Noiva” - candelabro construído com milhares de tampões higiénicos femininos

“A Noiva” - candelabro construído com milhares de tampões higiénicos femininos

d.r.

Aquele lustre, um objeto típico de um certo luxo e das traições de algumas grandes casas europeias, desmonta essa ideia reacionária da mulher vista como objeto de troca, de passagem de uma família para outra, mas em estado puro. O valor acrescentado associado a essa ideia constitui o expoente da coisificação da mulher, por antítese da mulher como ser real, com vida própria, independente, não redutível à simbologia de um vestido branco.

A conversa poderia ser estimulante, mas acabou interrompida pelo referido político, aflito, porque ao lado tinha um dos seus amigos políticos, cuja filha, disse, casaria no fim-de-semana seguinte. E vestida de branco, acrescentou a esposa.

Joana não estava obviamente a referir-se a nenhum caso concreto. Pelo que estava despida de qualquer sentido a pergunta que lhe foi feita sobre se insinuava que a filha do senhor não seria virgem.

“Dorothy” - sapatos gigantes criados com dezenas de típicos tachos portugueses

“Dorothy” - sapatos gigantes criados com dezenas de típicos tachos portugueses

d.r.

A questão está para lá da virgindade – ou não – daquela mulher. É mais vasta e decorre da componente de denúncia e de crítica social tantas vezes inerente à obra de Joana Vasconcelos.
São opções que incomodam, como se viu sete anos depois, quando foi recusada a presença da obra na exposição da artista no Palácio de Versailles. Não se adequava ao espaço, disseram os responsáveis.

“A Noiva” acabou por ser exposta num espaço alternativo, no centro cultural Centquatre, também em Paris. Depois disso foi exibido em inúmeros locais, como Lisboa, Elvas, Budapeste, Corunha, Vigo, Walsall (Reino Unido) e Istambul, onde, de resto, sucederam novas e paradigmáticas histórias, embora num outro registo.

Tudo decorre num contexto em que Joana Vasconcelos aparece numa espécie de cabeça de pelotão feminino. Não para execução, mas para dar o corpo às balas dos preconceitos, das resistências. Em Veneza foi a primeira mulher artista convidada na primeira vez que, em mais de cem anos de história, a Bienal teve comissárias femininas. Em Versailles foi a primeira artista a ser convidada a expor naquele palácio com um poderoso valor simbólico.

“Call Center”, peça construída com telefones

“Call Center”, peça construída com telefones

d.r.

Agora é o(a) primeiro(a) artista português a ser convidado para montar uma exposição individual num museu Guggenheim. Acontecerá em Bilbau, entre junho e novembro. Com a mostra “I’m your mirror”, apresentará algumas das peças novas e outras das mais marcantes do seu percurso.
Como “Call Center”, uma pistola feita com telefones, transformada em poderosa denúncia das debilidades ou dos efeitos nocivos do excesso de dependência dos sistemas de comunicação das sociedades contemporâneas.

Também lá podia estar (ou estará?) uma peça com dolorosa simbologia da “Burka”. Um corpo constituído por vários tecidos sobrepostos, inspirado nas sete saias, da Nazaré, é rematado, no topo, por uma burca, a veste de tradição islâmica destinada a cobrir o corpo da mulher.

“Burka”

“Burka”

d.r.

É uma intervenção artística de uma violência inusitada, mesmo se, na verdade, a violência maior, inominável, é a sofrida por aquelas mulheres sujeitas à necessidade de usar uma roupagem tão medonha como aquela. Para se protegerem. Para se anularem. Para passarem despercebidas. Para serem menos percetíveis que uma sombra esbatida.

É esse olhar acutilante, determinado, transformado numa espécie de força da natureza, que Joana Vasconcelos levará para Bilbau, como continua a levar para várias partes do mundo. Às vezes é censurada. Às vezes é incompreendida. Às vezes é minimizada. Pode gostar-se, ou não da obra desta mulher que nunca vira a cara a uma boa polémica. Pode ou não valorizar-se o seu discurso artístico. Não pode é negar-se que tem um discurso. Que é artístico. E é sólido.