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Livros do ano (artigo 1): tretas, paranoia e engraçadismo

“Não Se Deixe Enganar” é um útil e acessível manual para reconhecer embustes e pensar melhor, elaborado por “ativistas céticos”. Ao longo desta e da próxima semana, entre o Natal e o ano novo, escrevemos sobre 10 livros que tornaram os dias deste ano um bocadinho melhores

Luís M. Faria

Jornalista

“Para nós, é um problema as pessoas viverem com mentiras”, dizia há meses ao Expresso uma das autoras do livro “Não se deixe enganar”, a bióloga Diana Barbosa.

A conversa ocorreu não muito depois da inesperada epidemia de sarampo que afetou dezenas de portugueses e fez uma vítima mortal, trazendo de volta o terror de uma doença que antes fora declarada extinta no país. A julgar pela incidência especial da doença em zonas como o Algarve e Lisboa, a epidemia poderá ter tido que ver com a maior circulação de pessoas vindas de fora. Sobretudo pessoas oriundas de países como Reino Unido, Alemanha e França, explicava Barbosa, onde o movimento antivacinação é mais forte. Independentemente da origem do surto, se as pessoas estiverem vacinadas podem contrair a doença mas, em princípio, não há vítimas mortais.

O perigo de vida para as crianças é um exemplo especialmente grave dos riscos de uma atitude anticientífica. Em Portugal, a taxa de vacinação ainda atinge 95%, mas poderá estar a descer. Desde que o médico britânico Andrew Wakefield divulgou um estudo fraudulento sobre chamada vacina tríplice (contra o sarampo, papeira, rubéola), a paranoia antivacinação espalhou-se. Como explica Diana Barbosa, “ele não distingue as vacinas. Quem é contra é contra todas”.

Outro dos autores da obra, o também biólogo João Lourenço Monteiro, explica que muitas pessoas também alegam outra razão para prescindir de dar vacinas aos filhos: “Acham que não é necessária porque as doenças em causa não são graves. Ou então pensam porque nós naturalmente não temos doenças, e se as temos é por causa dos produtos que tomamos. Do mercúrio, de outras coisas”.

Barbosa e Monteiro são dois dos membros da COMCEPT, ou Comunidade Céptica Portuguesa, um grupo que teve o seu início informal em 2012 e desde então se espalhou, promovendo tertúlias regulares em várias cidades portuguesas. Como noutros casos, o germe foram duas pessoas que se conheciam das redes sociais, comentavam o mesmo tipo de notícias, e criaram um grupo de Facebook. Frequentadores da imprensa anglo-saxónica, conheciam o “ativismo cético” e resolveram criar algo do mesmo tipo em Portugal, destinado prioritariamente àquilo a que chamam os “leigos curiosos”.

Tudo para contrariar uma epidemia de falso conhecimento que não é menos grave do que o sarampo. Monteiro refere outros exemplos de paranoia: “Pessoas olham para o céu, veem o rasto dos aviões e acham que são químicos para nos envenenar. Maioritariamente, é vapor de água. Mas há quem viva assustado. Tal como com os OGM (organismos geneticamente modificados). Os cientistas deviam chegar-se mais à frente”.

Se os cientistas muitas vezes ficam calados, cabe aos ativistas céticos (eles próprios, não raro, cientistas) chegarem-se à frente. “Não se deixe enganar”, o primeiro livro da COMCEPT, funciona como um manual introdutório para quem queira dedicar-se a essa missão, ou simplesmente esclarecer-se. Os seus temas vão desde a quimiofobia e o paranormal até às terapias alternativas, os suplementos alimentares, as pulseiras Power Balance, a dieta sem glúten, os antioxidantes, as radiações eletromagnéticas, as pirâmides do Egito, as estátuas na Ilha da Páscoa, o toque terapêutico, os métodos da ciência, as distorções cognitivas…

Algumas destas coisas parecem cómicas, outras meramente inofensivas. Mas convém lembrar que a ignorância pode sair cara. Os autores citam uma expressão de Carlos Fiolhais e David Marçal – “a ditadura do engraçadismo” – para lembrar os riscos de uma certa irresponsabilidade mediática nestes assuntos. Mesmo que uma determinada “terapia” não tenha nenhum efeito direto, nem bom nem mau, pode ter efeitos indiretos terríveis. Se uma pessoa acreditar nela e não fizer os tratamentos médicos corretos pode morrer. E quando a ignorância passa a fundamentar as opções políticas, os perigos aumentam exponencialmente.

“As ferramentas do ceticismo são hoje mais importantes do que nunca”, lê-se na nota introdutória. “São úteis para todos os que se preocupem com a verdade, mas, especialmente, para todos os que procuram tomar decisões informadas sobre assuntos que podem afetar a nossa saúde, as nossas poupanças e até o nosso futuro neste planeta”. Não por acaso, a nota também invoca um ensaio intitulado “Da Treta”, a propósito dos ataques à verdade objetiva. Hoje que eles são feitos abertamente ao mais alto nível e espalhados em profusão, nos EUA e não só, o ativismo cético tornou-se uma necessidade básica.

“Não Se Deixe Enganar”
COMCEPT – Comunidade Céptica Portuguesa
(ed. Contraponto)