Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Néstor García Canclini: “Lemos, mas de outra maneira”

marcos borga

O argentino, um dos principais antropólogos da América Latina, estuda a globalização e as novas formas de ler. Esteve em Lisboa para a conferência do Plano Nacional de Leitura

O que é que hoje se entende por leitura?
Até finais do século XIX, a leitura era o núcleo da educação. Era também uma espécie de cultura geral, obtida através dos jornais e dos livros, que se tornou cada vez mais acessível. Tinha a ver com o predomínio de uma cultura letrada, onde o escrito e o publicado organizavam o conhecimento. No século XX, com a afirmação da televisão, da rádio e do cinema, essa cultura perdeu protagonismo. Pensou-se que a escrita e os livros iriam acabar.

Identifica a cultura letrada com a cultura impressa?
É o resultado da cultura publicada em livros, revistas e jornais, enquanto lugares onde se obtém a informação e se capacita os cidadãos para agir no mercado e na vida política. A cultura audiovisual deslocou a escrita, mas não a substituiu.

Portanto, a visão apocalíptica não se cumpriu.
Houve uma reorganização das linguagens e da comunicação, o que voltou a acontecer com a digitalização da cultura. O advento da internet, dos motores de busca e das redes sociais permitiu o acesso a uma informação mais vasta — em simultaneidade com o momento de produção. E criou a impressão de ameaça da escrita, fortalecida por evidências parciais, como editoras que fecharam e livrarias que desapareceram. A partir dos anos 90, nota-se a crise de formas de comunicação como o correio, os telefones fixos ou as salas de cinema, associada à caducidade de uma etapa do desenvolvimento cultural.

E o que sobreveio a esse momento crítico?
Algumas salas de cinema fecharam, mas surgiram novos modelos. Vê-se cinema em vídeo, na televisão e na internet.

Com o livro passa-se o mesmo?
Com o livro, vemos que há partes da indústria editorial que não estão em crise, tal como a literatura infantil e juvenil e certo tipo de best-sellers. Já o livro académico perdeu terreno, mas muito desse material está na internet de forma gratuita ou mais barata. Estas diferenças revelam que há mais do que uma explicação para as mudanças nos hábitos dos leitores.

E o que mudou neles? O que é hoje um leitor?
Em 2012, o inquérito nacional à leitura no Brasil definia o leitor como aquele que leu pelo menos um livro nos últimos três meses. Isso deixa de lado a forma como se lê: a descontinuidade, a leitura fragmentada e, sobretudo, a que se faz em suportes como o computador, o smartphone e o tablet.

E onde se ‘arruma’ a leitura em suporte digital?
Em lado nenhum. Por isso é necessário reformular os inquéritos, perguntando como se lê e não quanto se lê. Desta forma, percebe-se que os suportes mudaram, mas não se deixou de ler. Um estudo recente feito no México e em Espanha demonstrou o contrário — que se lê mais do que antes, se tivermos em conta as novas formas de nos relacionarmos com os textos.

Que formas são essas?
São descontínuas, hipertextuais e de acesso fragmentário — que inclui materiais em várias línguas. Ou seja, não se lê menos.

Persiste o medo de que os jovens da era digital não desenvolvam o hábito de ler. Mas, segundo diz, não ler livros físicos não significa a morte do leitor.
Não, de forma alguma. Repare: ninguém gosta de ver os jovens a enviar SMS enquanto a família se reúne ao domingo. Todavia, devemos perguntar porque o fazem. E o que vemos é que eles estão a ler e a escrever. Como diz a investigadora espanhola Remedios Zafra, tanto no chat como nos SMS existe o reconhecimento da importância de ser lido e de ler os outros. A conclusão é que lemos, mas de outra maneira.

Refere-se a um tipo de comunicação centrado na leitura?
No México, investigámos o comportamento de pessoas sem hábitos de leitura e de escrita que, quando descobrem o smartphone, de repente passam a ter notícias de várias fontes, a segui-las e a partilhá-las. E escrevem na expectativa de ler a opinião dos outros. Isto foi visível no sismo que em setembro atingiu a Cidade do México, em que os telemóveis foram essenciais para transmitir informação, que transitou, em simultâneo, por vários sectores da sociedade.

Acredita que este começo digital pode conduzir ao livro?
Sim, seguramente. Mas sou a favor de suspender a pergunta sobre se o uso intensivo de telemóveis vai levar a ler um livro. Porque isso instala de novo uma hierarquia que hoje está a desaparecer.

Quer dizer que, nas entrelinhas, continuamos a ver no livro o objeto máximo do saber, desvalorizando outros suportes?
Historicamente, a escrita era elitista e estava associada à acumulação de poder. Quando toda a população teve acesso à educação, houve uma redistribuição desse poder. Hoje, a relação entre gerações mostra que as hierarquias estão desorganizadas. Os pais pedem aos filhos ajuda para usar o telemóvel. Os professores sentem-se obsoletos perante as competências que os alunos adquirem na socialização com os seus pares. Tudo isto explica a resistência ao mundo digital, que perturbou hierarquias cultivadas há décadas.

Essa resistência leva a que continuemos a identificar a leitura com o livro?
Os adultos fecham-se na hierarquia daquilo que controlam, e isso tem de mudar. Porém, convém não idealizar a facilidade de acesso proporcionada pelos meios digitais. Porque, se nas etapas precoces da digitalização se imaginou que esta iria democratizar a sociedade, hoje assistimos a um processo de captura de informação através de algoritmos que dá a empresas como a Google a capacidade de nos enviar mensagens de acordo com o que sabem que nos vai atrair. Perante isso, todas as hierarquias caem por terra.

Quando se afirma que em Portugal foram publicados mais de 16 mil livros em 2016, o que é que isto diz sobre os leitores?
Gera sobretudo muitas perguntas. Que livros leram? Leram-nos até ao fim? Que uso lhes deram? Enquanto não soubermos o que acontece depois do facto estatístico, esses dados têm pouco valor.

Neste quadro, faz sentido incentivar a leitura pondo de lado o digital?
A promoção da leitura fez-se sempre no seio das famílias, na escola e nas bibliotecas. Mas as pessoas hoje leem em espaços muito heterogéneos. Como mostrar a utilidade e o prazer que a leitura pode dar nas múltiplas situações? E como trabalhar os recursos digitais para oferecer um repertório de bens mais diverso e racional do que aquele que nos oferece o Google, o Facebook e os canais habituais?

Considera importante que o acesso não se faça sempre dessa forma?
Os algoritmos que regem a internet têm empresas por trás. Estas organizam a informação que nós gratuitamente lhes fornecemos no sentido de obter algum ganho. Também têm um papel na orientação das nossas escolhas de cidadania em função não dos nossos interesses mas da reprodução de um sistema muito desigual e hierárquico. Já foram criados dispositivos para contrariar este procedimento, mas precisamos de um tipo de capacitação diferente e de um controlo em função do interesse público daquilo que circula nas redes. b