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“Meteors”, de Gurcan Keltek, brilha mais alto no Porto/Post/Doc

O festival Porto/Post/Doc fez a celebração do cinema do real na baixa da Invicta e, no final, a maior chuva de palmas foi para “Meteors”, um filme-espelho do histórico conflito curdo-turco

Ao longo de uma semana, o festival de cinema documental Porto/Post/Doc (PPD) agitou a baixa da cidade do Porto para fazer a celebração do real, com aproximadamente uma centena de filmes, dos quais se destacou “Meteors” (2017), do realizador turco Gürcan Keltek, um vídeo-espelho do histórico conflito entre o povo turco e a minoria curda. Com esta produção cinematográfica – já anteriormente distinguida no festival de Locarno –, o cineasta tornou-se no vencedor do Grande Prémio da quarta edição do evento.

Uma menção honrosa foi ainda atribuída ao chinês Xu Bing, a concurso na competição internacional do certame com “Dragonfly Eyes”, trabalho em que o autor constrói uma narrativa – na qual cabe até uma história de amor – com recurso a imagens captadas por câmaras de vigilância.

Através de “Meteors”, o público é levado até ao ano de 2015, quando a Turquia realizou a maior operação militar no sudeste do país, reacendendo o confronto curdo-turco, acontecimento para o qual “não houve cobertura mediática nem relatórios oficiais sobre as operações, apenas os registos vídeo e fotográficos dos habitantes daquela região... e as suas memórias”, lê-se na sinopse do documentário que conquistou o júri da competição internacional da quarta edição do PPD.

Levados pela perspetiva de Gürcan Keltek, o filme propicia uma pungente odisseia por paisagens de guerra, de pessoas também em ruínas, até ao momento em que o conflito termina numa noite pincelada por uma chuva de meteoros. “Intervenção cósmica, divina? A natureza segue o seu curso, mas o cinema e as palavras não deixarão esquecer o que aconteceu”, consta ainda no texto de apresentação.

O coletivo de jurados atribuiu uma menção honrosa à produção chinesa “Dragonfly Eyes”, do cineasta Xu Bing, trabalho que descreveram como “um torrencial de imagens, que quase não são feitas para olhos humanos” e no qual se “ensaia um novo melodrama com amantes desencontrados a deslizarem entre identidades”.

O realizador sírio Ziad Kalthoum conquistou o prémio Biberstein Gusmão, dedicado a autores emergentes, ao ter-se apresentado a concurso com “Taste of Cement”, no qual retrata, com um pendor poético, a fuga da guerra e da pobreza de alguns refugiados sírios que encontram trabalho em Beirute, capital libanesa. Homens que todos os dias trabalham arduamente na construção de arranha-céus e descem ao subsolo quando cai a noite.

A lista de premiados desta quarta edição do Porto/Post/Doc não fica, contudo, por aqui. O “Prémio Teenage”, atribuído por um conjunto de 15 estudantes de escolas secundárias da cidade do Porto, foi entregue a “Makala”, do artista francês Emmanuel Gras. Na secção “Cinema Novo”, destinada a produções concebidas por alunos de Cinema, a obra intitulada “Proxima”, dos jovens Igor Dimitri e Gabriel Martinho, levou a melhor sobre a concorrência.

Um festival que conquistou a cidade, o mundo e... o apoio do ICA

Subordinada ao já habitual mote “as nossas histórias são reais, a 4.ª edição do evento teve início esta segunda-feira, com a exibição do filme “The Beguiled”, de Sofia Coppola, arredado do circuito comercial dos cinemas em Portugal. O evento prolonga-se por mais um dia, culminando este domingo à noite, com a exibição de “Lucky (21h30, Rivoli), da autoria do realizador John Carrol Lynch, filme que marca o adeus do ator Harry Dean Stanton.

O diretor do festival, Dario Oliveira, fala de uma “semana muito intensa de cinema e de encontros”,

em que a sétima arte invadiu vários espaços da baixa portuense, com epicentro no Teatro Municipal Rivoli, mas alastrando-se também a salas e espaços menos convencionais, como o Passos Manuel, Maus Hábitos e a Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.

“Trouxemos, mais uma vez, o cinema para a baixa do Porto e estamos a terminar este festival com uma certeza: conquistámos a cidade”, afirma o responsável artístico pelo Porto/Post/Doc, por onde passaram este ano mais de 12 mil pessoas, número semelhante à edição de 2016. A média de público por sessão rondou os 100 espectadores, com várias lotações esgotadas.

Mais do que um montra e uma mostra para novas produções, o PPD assume-se como um ponto de encontro e de reflexão, onde se lançam novos e disruptivos olhares sobre o cinema, como provam os mais de 300 convidados presentes no evento, entre os quais realizadores, produtores, representantes de festivais de cinema de todo o mundo, além de atrair a atenção da imprensa nacional e internacional.

“Podemos dizer que atualmente o Porto tem um festival de cinema de dimensão internacional. Do Brasil à China, da Síria aos Estados Unidos. O cinema do mundo passa pelo Porto, trazendo olhares diferenciados sobre a nossa época, com filmes que, de outra forma, não seriam tão amplamente divulgados”, frisa Dario Oliveira.

O Porto/Post/Doc, suportado pela Câmara Municipal do Porto e pela Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes, passará a contar também com o apoio do Instituto do Cinema e do Audivisual a partir das próximas edições. O regresso, em 2018, decorre no final de novembro.

Até lá, o festival conta com a extensão “Há Filmes na Baixa”, uma iniciativa alastrada durante todo o ano e que leva até ao Passos Manuel sessões de cinema em que o arrojo estético é uma constante e olhar o mundo, num plano aberto, é uma das matrizes.