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O único lugar onde nos podemos exprimir sem pudor

d.r.

Anna Lena Bruland, cantora norueguesa conhecida por “Eera”, despede-se da juventude em “Reflection of Youth”, seu álbum de estreia, onde o rock convive maravilhosamente com a indie-folk e onde se passa de forma inesperada de um quarto fechado e mal iluminado para a antecâmara vermelha e com sombras de uma igreja com ligação direta ao céu. Acabaram-se as confusões e os equívocos. Os 20 já lá vão. Tudo irá correr melhor agora

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

Fazer 30 anos pode ser um suplício porque estamos mais velhos, mais cansados e, provavelmente, até mais cínicos. Mas pode também ser um alívio. Anna Lena Bruland, ou “Eera”, nome pelo qual a cantora norueguesa se apresenta, bem pode falar sobre isso. Nascida numa sociedade em que “aos 20 anos já é suposto ter-se a vida resolvida e dinheiro suficiente para comprar uma casa e um carro e outros bens materiais” (como já disse em mais do que uma entrevista), Eera passou os últimos anos a tentar perceber qual o seu lugar - se é que haveria algum, como tantas vezes questionou - e o que fazer para caber, toda ela, inteira, nele. Lembrava-se, mesmo sem querer, das palavras do avô, maestro conceituado que entre os anos 1950 e 1960 dirigiu a Orquestra Filarmónica de Oslo. “Nunca trabalhes na área da música. É demasiado duro” (apesar de terem formação em música, tanto o pai da cantora norueguesa como os seus tios têm hoje outras profissões). Nessa altura, Eera até já tocava, em bandas de amigos ou acompanhada de outros músicos (Anna Lena & The Orchids, por exemplo), mas a estreia a solo foi sendo então adiada. Em 2016, lançou finalmente o primeiro EP, homónimo, a que seguiu um álbum, já este ano. Eera já não tem dúvidas e nós também não, sobre ela.

O título do novo disco só em parte resume tudo o que ele contém, cada angústia digerida, cada imagem perpetuada. É que “Reflection of Youth” não é só um álbum sobre uma juventude mal amanhada que ela desejou e implorou e rezou que passasse depressa (e quando finalmente passou, a sensação foi semelhante a sobreviver ao naufrágio de um barco que andou a meter água dias a fundo, como sugere a cantora norueguesa em “Survived”) - nele cabe também uma espécie de dedicatória ou homenagem à irmã de Eera, a quem ela se refere simplesmente como “Christine”. Christine que é leve e é luz. “Christine you always tell me I look good tonight / Although I feel like death”, diz Eera. E di-lo baixinho, num registo lo-fi que vai aparecendo, quase música sim música não, ao longo do álbum mas que tem aqui a sua expressão máxima - a voz abafada por camadas generosas de burburinho ou de roupa, como se ela não estivesse, afinal, a cantar para nós mas antes para a irmã e a cantar-lhe a um palmo do ouvido, com a boca encostada ao pescoço, quente, as duas metidas na cama, debaixo dos lençóis, a recordar aventuras familiares e a imaginar a vida para a frente.

Cabe também (e vem logo de seguida) “I Wanna Dance”, descrita como um elogio às coisas simples da vida de que muitas vezes nos esquecemos no meio das coisas complicadas. Coisas simples como dançar. Como faz Ruby Waxwork, famosa drag-queen de Londres, no videoclip correspondente, sacudindo de forma provocadora o seu vestido lilás que lhe cai bem justo ao corpo, até uns dedos abaixo do joelho, pelas ruas ainda mal acordadas da cidade. Eera costuma dizer-se influenciada por vários artistas, desde Cat Power, Portishead, Elliot Smith e Sharon Van Etten (e, já agora, embora ela não o diga, também Lana del Rey, sobretudo no EP, mas também em “10 000 Voices”, do novo disco, e em “Trust”, música que parece ir brotando como uma nuvem de vapor, do chão de pedra de uma antecâmara opulenta e enigmática), mas é claramente o seu lado mais rock, mais áspero, mais PJ Harvey e até mais Pixies, assumidos também como influência, que aqui sobressai.

Na ressaca de tudo isto há “Wise Man”, um órgão que entra lento e dorido a fazer lembrar Beach House, uma voz que não é a de Victoria Legrand (porque não há voz como a dela, esqueçam) mas que tem o mesmo efeito de prolongar a dor. Há também uma guitarra rouca e um coro de vozes masculinas que entram já mais para o final para acompanhar Eera nesse seu pedido sugestivo e aparentemente pouco emancipado: “Teach me how / To be with you / Abuse my mind”. Um pedido semelhante àquele que faz em “Reflection of Youth”, última faixa do álbum, em que Eera se recolhe ainda mais ao silêncio de um quarto de persianas corridas e mal iluminado, único lugar onde ela pode (e nós podemos também) exprimir-se sem pudor. Único lugar onde podemos pedir a alguém para fazer amor connosco sem que isso pareça pouco natural. “Please make love to me, I need to feel some weight on me.” Depois do pedido, a descrição. A descrição do movimento de línguas que descem sobre as costas, em linha vertical e nos fazem quedar, vulneráveis, de joelhos. Descrição, de resto, aqui introduzida de forma intencional, com um objetivo muito específico, o de nos deixar “desconfortáveis”, revelava a cantora norueguesa numa entrevista recente, onde aliás também questionava: “Porque é que o sexo e a intimidade têm de ser um tabu tão grande quando toda a gente o faz?”.

Muito daquilo que é o novo álbum de Eera explica-se pelos lugares em que foi gravado - entre um estúdio numa quinta com animais algures no País de Gales e a casa do produtor Nick Rayner, com quem já havia trabalhado e voltou a trabalhar, e que vive em Cork, na Irlanda - mas sobretudo pelo momento do dia em que a cantora norueguesa, sozinha, se debruçou sobre os primeiros esboços destas suas canções. Sempre à noite, pela calada da noite, noite dentro. É também nesse contexto que ela tem sugerido que “Reflection of Youth” seja ouvido. Só assim iremos conseguir perceber exatamente tudo o que aqui está.