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“O oposto do amor não é o ódio, é a ignorância”

András Schiff: “Nunca fui 
uma criança-prodígio — graças a Deus! Tive uma infância muito natural e feliz, com mais futebol do que música”

Nadia F. Romanini/ECM Records

Nascido em Budapeste, emigrou em 1979 e hoje é cidadão britânico. O pianista falou ao Expresso sobre os concertos que vem dar à Gulbenkian, em Lisboa: amanhã, dia 2, a solo, e a 19 de março a dirigir e a tocar com a Cappella Andrea Barca

Sir András Schiff não é homem de muitas entrevistas. São raras, aliás, as que tem dado nos últimos anos. Por isso, cada palavra que aceita dizer adquire um valor especial. Pianista consagrado, um dos grandes deste mundo, o húngaro de 63 anos nasceu em Budapeste no seio de uma família judia, filho único de dois sobreviventes do Holocausto. Estudou na Academia de Música Franz Liszt e, como nos diz, não foi uma criança-prodígio. Entre os seus professores conta-se György Kurtág.

Desde inícios dos anos 80 que vive fora da Hungria e recentemente declarou que não irá “pôr um pé” no seu país enquanto a atual situação política e social se mantiver. Não era a primeira vez que o pianista tomava uma posição: em 1991, renunciou à nacionalidade austríaca devido à ascensão da extrema-direita naquele país. Vive em Londres desde 2001 e é Cavaleiro da Ordem do Império Britânico.

Em Portugal, vai tocar dois programas muito diferentes nesta temporada. No recital de dezembro, a solo, esperam-se obras de Mendelssohn, Brahms, Beethoven e Bach. Há alguma relação entre as peças?
Não há qualquer ‘história’ por trás delas. Mas posso dizer que o centro do programa são as obras de Brahms — as “Peças para Piano” Op. 76 e as “Fantasias” Op. 116. Trata-se de miniaturas curtas, cheias de nostalgia e de resignação. Na medida em que uma noite inteira só preenchida por elas seria demasiado, era importante complementá-las com outras peças de natureza e de carácter diferente. Postas lado a lado, o elo de ligação entre elas acaba por ser a tonalidade. E digamos que, só nesse sentido, este programa é uma ‘composição’ minha.

Estes compositores são cruciais no seu percurso. Porquê?
Para mim, Bach é o alfa e o ómega da música. E isto foi reconhecido tanto por Beethoven como por Mendelssohn e Brahms — afinal, todos eles podem ser considerados ‘filhos’ de Bach. Na arte de Bach, os elementos sagrados e os seculares são omnipresentes e estão em perfeita harmonia. Ele era um homem religioso e considerava ser seu dever criar para Deus e para a comunidade. Não há nele nada de egocêntrico. Não encontro nenhum ego.

O que aprendeu com ele?
Acima de tudo, a humildade.

Sempre disse que é preciso estar-se pronto para abordar certo tipo de peças. Pode dar-nos algum exemplo de obras que, para si, tenham estado nesta situação?
Esperei até chegar aos 50 anos para tocar as últimas sonatas de Beethoven, assim como o ciclo completo de 32 sonatas. E a espera teve que ver com o facto de esta não ser música para crianças. É preciso ter-se uma história. O próprio Beethoven passou por muito para atingir esse patamar.

Como é que a leitura de uma peça muda ao longo dos anos?
Na realidade, nada muda deliberadamente, é a nossa experiência que nos vai modificando. Quanto mais tempo vivemos com uma peça de música, melhor e mais profunda é a compreensão que temos dela.

Em 1999, fundou a Cappella Andrea Barca e começou a dirigir desde o piano. Ser maestro deu-lhe uma perspetiva musical diferente?
Sim, claro. Além de grandes alegrias, deu-me um horizonte muito mais alargado.

Lembra-se do momento em que sentiu que a sua vida ia passar pela música?
Não posso dizer que tenha sido uma experiência de total transformação, do tipo ‘Saulo-Paulo’. Não. Os primeiros anos de aprendizagem do piano, entre os cinco e os 11, foram o que se chama ‘normais’. Nunca fui uma criança-prodígio — graças a Deus! Tive uma infância muito natural e feliz, com mais futebol do que música. A minha mãe levava-me a concertos com frequência e penso que ter ouvido grandes pianistas como Annie Fischer, Rubinstein e Sviatoslav Richter com certeza moldou o meu gosto musical. Porém, aos 12 anos senti uma espécie de urgência interior: simplesmente soube que a música iria fazer parte da minha vida. Porquê? Não sei dizer.

Uma vez disse que a música, enquanto a mais abstrata das artes, era um “oásis” na Hungria comunista da sua infância. Qual é o seu papel nos nossos dias?
Tudo se tem alterado e não necessariamente para melhor. Quando Zoltán Kodály era vivo, ele assegurou-se de que todas as crianças da Hungria tivessem acesso ao canto. A música era ensinada na escola — e isso já não acontece. Por esta razão, o público também não é o mesmo. Há muitos concertos, mas os ouvintes são menos conhecedores e menos sofisticados. A música e a arte são consumidas e usadas como entretenimento. E este é, infelizmente, um fenómeno global.

Como é que a música pode ter um papel comprometido com os problemas do nosso mundo? Como pode ajudar e ter significado no meio do caos?
A música não pode resolver todos os problemas do mundo. No entanto, durante o tempo de um concerto ela pode transformar-nos em pessoas melhores. Pode mostrar-nos um mundo ideal onde há liberdade e ordem, e onde não há anarquia. Temos de ser abertos, ouvir não apenas com os ouvidos mas sobretudo com as nossas mentes e o nosso coração. O oposto do amor não é o ódio, é a ignorância.