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O Design das emoções

João Machado tem no Centro de Arte Contemporânea Nadir Afonso, em Chaves, uma grande mostra do seu trabalho em desenho, escultura e design gráfico

d.r.

Se não é arte, se tem apenas um caráter funcional, se a criatividade fica condicionada à enunciação de uma mensagem, de uma informação, poderá ainda assim o design gráfico constituir um espaço onde se derramam emoções e se trilham caminhos artísticos?

Da resposta a esta pergunta dependerá, e muito, o modo como se entende o papel dos designers gráficos na sociedade contemporânea. Deixaram de ser apenas artífices com eventual mestria técnica. Num trabalho vasto e marcado por múltiplas propostas e abordagens, sejam geracionais ou geográficas, congregam uma imensidão de discursos artísticos. Não obstante essa evidência, nunca é assumido como arte o resultado da criatividade gráfica visível nas ruas, em painéis, na ilustração de livros, na elaboração de cartazes.

Cartaz para a Bienal Internacional do cartaz do México, 2014

Cartaz para a Bienal Internacional do cartaz do México, 2014

d.r.

Aí reside um dilema difícil de ultrapassar, sobretudo quando o olhar se passeia pela exposição dedicada à obra de João Machado, (Coimbra, 1942) um dos nomes maiores do design gráfico português do século XX, patente no Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, em Chaves.
Não por acaso, o título dado à mostra é “Arte da Cor”. Desde logo pela fascinante singularidade de João Machado ao trabalhar uma paleta cromática que parece reinventar e à qual proporciona novas luminosidades, novos significados e, por extensão, novas leituras.

Estão ali expostos mais de 150 cartazes, através dos quais é possível perceber o caminho percorrido por um homem que, é preciso dizê-lo antes de mais, tem no desenho, e no subtil rigor com que através desse meio se expressa, uma das mais fortes marcas identitárias.
No catálogo da exposição, António Augusto Joel escreve que “na obra de João Machado, o desenho a preto e branco representa todo um universo que ainda permanece ofuscado pela radiosa luminosidade dos seus cartazes”.

Acontece que, como o sublinha António Joel, Machado nunca escondeu a sua admiração por esse verdadeiro festim da cor contido no filme “Yellow Submarine”, de 1968, com realização de George Dunning (1920-1979), nem pela obra do seu desenhador principal, Heinz Edelmann (1934-2009).

Cartaz para o OgakiMatsuri Festival, Japão, 2017

Cartaz para o OgakiMatsuri Festival, Japão, 2017

d.r.

Nas salas do museu, onde é possível ver também esculturas e desenhos, espraia-se como nunca essa paixão do designer pelo que pode ser tido como uma espécie de volúpia no tratamento da cor, mas também no rigor geométrico, ou na absoluta simplicidade de uma obra hoje espalhada por todos os continentes.

Nos últimos anos, João Machado tem tido uma muito entusiástica recetividade na Ásia, em particular na China, Japão e Coreia do Sul. Não deixa de ser paradigmático, tão díspares são as referências culturais de um e de outros, e poderá ser uma constatação a carecer de um estudo mais aprofundado, de modo a construir um sólido corpo explicativo desta adesão asiática aos conceitos gráficos de João Machado.

Se é verdade que ao longo de 40 anos construiu a identidade gráfica do Festival de Cinema de Animação de Espinho-Cinanima, não é menos certo que tem sabido colocar o seu trabalho ao serviço de causas ecológicas e ambientais.

Ao longo de 40 anos construiu a identidade gráfica do Cinanima

Ao longo de 40 anos construiu a identidade gráfica do Cinanima

d.r.

Criador de uma linguagem única, muito personalizada, com forte reconhecimento internacional, tem-se imposto como um verdadeiro criador de emoções, capazes de ultrapassar barreiras linguísticas, ideológicas ou geográficas. Ao situar-se para lá dos limites contidos na função para a qual a obra foi criada, João Machado está a erigir uma outra forma de arte.