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Uma dor sem fim à procura de um rosto

Fotografia de “Endometriosis", de Georgie Wileman, em exposição na National Portrait Gallery, em Londres

Ao fixar a lente no seu próprio abdómen, e ao ser escolhido esse registo para figurar na exposição da National Portrait Gallery, em Londres, que serve a glória do retrato, Georgie Wileman dá um rosto ao sofrimento das portadoras de endometriose

Várias datas alinhadas à volta de um umbigo. Um círculo, umas cicatrizes por fechar e umas feridas. “Endometriosis” de Georgie Wileman (n.1988) é no mínimo surpreendente, nem que seja por ser a única fotografia que não tem um rosto, escolhida pelo prémio Taylor Wessing Photographic Portrait 2017, para integrar a exposição na National Portrait Gallery, em Londres.

É apenas um torso. O registo de uma parte do corpo. E de uma doença invisível, de origem misteriosa, sem cura definitiva conhecida, que afeta mais de 176 milhões de mulheres no mundo, dos quais dois milhões vivem no Reino Unido (não há números para Portugal, mas pode afetar uma em cada dez mulheres), e que demora em média cerca de sete a dez anos a diagnosticar, por não ser levada muito a sério por uma grande parte da comunidade médica.

Causa de infertilidade e de dor severa, que muitas vezes obriga as mulheres que dela sofrem a abdicar das suas responsabilidades pessoais, profissionais e familiares, a endometriose aparece quando, inexplicavelmente, o tecido do endométrio migra e se vai alojar noutras partes do corpo, como os intestinos, a bexiga, ou até, em casos mais raros, em partes superiores do corpo, como os olhos, criando aderências, quistos, que se irão comportar como um útero sempre que a mulher menstruar. Ao sangrarem, esses novos focos compostos por células do endométrio vão aumentando, a cada período menstrual, tornando os quistos e as aderências cada vez maiores, cada vez mais dolorosos.

Georgie Wileman, a autora da fotografia, é portadora de endometriose. Conhece bem a doença e a abordagem da medicina, que se limita a evitar que as mulheres menstruem, a retirar as bolsas de endometriose, através de um cirurgia feita por laparoscopia, ou mesmo a optar por uma operação radical de extração de todo o aparelho reprodutor feminino, na tentativa de eliminar o produtor de novas aderências e quistos.

Imagens em forma de documento de Georgie Wileman da série “Endometriosis” à qual pertence a imagem escolhida para a exposição da Taylor Wessing Photographic Portrait Prize 2017

Imagens em forma de documento de Georgie Wileman da série “Endometriosis” à qual pertence a imagem escolhida para a exposição da Taylor Wessing Photographic Portrait Prize 2017

Num trabalho a que chamou apenas “Endometriosis”, Wileman autorretrata-se, documentando o seu longo e penoso sofrimento. A fotógrafa é mais uma das mulheres que se submeteram a sucessivas cirurgias, que, como acontece em muitos casos, acabam por atenuar a dor apenas durante um curto período de tempo.

A imagem escolhida para integrar a exposição do prémio Taylor Wessing faz parte desse trabalho mais vasto. É o registo de cinco cirurgias, de um padecimento repetido, e muito vezes pouco conhecido e compreendido.

Ao fixar a lente no seu próprio abdómen, e ao ser escolhido esse registo para figurar na exposição da National Portrait Gallery, em Londres, que serve a glória do retrato, Wileman dá um rosto ao sofrimento das portadoras de endometriose como nunca vi até hoje. De facto, não o podia ter feito melhor. A fotógrafa conseguiu concentrar numa única imagem uma dor sem fim à procura de um rosto.