Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

César Mourão: “Sei onde devo espetar a bandarilha para que o público se ria”

tiago miranda

Mestre a fazer comédia sem rede e sem guião, o ator estreou no último domingo, na SIC, o programa “D’Improviso”, onde desafia figuras públicas a improvisar em situações inusitadas

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

texto

Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

foto

Fotojornalista

O humor de improviso é o que lhe dá mais adrenalina em palco?
Atualmente, já não. Decorar um texto dá-me mais adrenalina, porque não estou habituado. E talvez até mais stresse. Embora tenha muito boa memória, é o que me safa. O que me dá pica em cinema, por exemplo, além do texto, é saber as marcações exatas, sou um viciado em raccord. “Ah, pus a mão direita ali, abri a porta com a esquerda, depois passo a seguir à atriz passar.” Sou obcecado com isso. E faz com que o realizador não corte tantas vezes, facilita o trabalho da anotadora, tudo corre melhor. E quando falho fico chateado. Tenho obsessão pelo rigor. Seja em palco, na televisão ou no cinema.

Mas o erro pode ser um ótimo condimento para um certo tipo de humor, não?
Sim. Desde que esse erro não seja técnico, que não seja a ausência de criatividade ou o vazio, está tudo bem. É assumir esse erro. Normalmente, tendemos a tapar esse erro, numa peça de teatro normal, quando nos enganamos no texto, para que o público não veja. Nos espetáculos com o meu grupo [de improviso] Commedia a La Carte é diferente. Assumimos e aproveitamos o erro, para que seja a melhor coisa que dissemos até então.

Tem formação de ator, mas tem feito mais comédia e humor. Há psicanálise na vontade de provocar o riso nos outros?
Acho que há. Não sou de riso fácil. Não me rio com quase nada. E comigo muito menos. É horrível.

É quase chato nesse aspeto?
Sim. Não é que não ache piada. Sou capaz de assistir a um espetáculo de comédia sem nunca esboçar um sorriso e chegar ao fim e dizer: “Adorei.” Mas não me rio.

Quem é que o faz rir-se muito?
A minha filha. E há colegas meus que me fazem rir, como o Ricardo Araújo Pereira, o Bruno Nogueira, o Salvador Martinha... Sempre fui tímido. Essa psicanálise tem a ver com isso.

Percebe-se que sempre que sobe ao palco tem o público na mão e os tempos certos, sabe como fazer os outros rir-se. Já sente que pode fazer o que quiser do público?
Sim. Sei onde devo espetar a bandarilha para que o público se ria. À toureiro. É uma má comparação, mas um touro numa arena não vai para onde quer. O toureiro sabe perfeitamente para onde o quer levar para fazer a faena dele. E eu acho que no teatro e na comédia é igual.

Há quem diga que o humor salva os outros. E a si, o humor tem-no salvado?
Muitas pessoas vêm ter comigo com histórias tristes, dramáticas, como pessoas que estão nos hospitais, cheias de dores, e quando me veem na televisão esquecem-se das dores naqueles minutos, riem-se e divertem-se. Eu não tenho muito isso. Pelo contrário, até me deprime um bocadinho. Depois de um espetáculo no Campo Pequeno para 7000 pessoas, como aconteceu no ano passado, com todos a rir-se, quando acaba aquilo, fico meio triste...

Mas essa tristeza não acontece sempre com o artista depois dos aplausos e dos risos, depois de sair de cena?
Sim, sais e vais para casa sozinho. Às vezes, vais para casa sozinho, outras vezes com amigos ou a família, escovas os dentes, tomas banho e pensas: “Está bem... E agora? Será que tenho mesmo piada?” O meu pico do dia é ser aplaudido por 400 pessoas no Teatro Villaret todos os dias. E isso, às vezes, deita-me um bocado abaixo, porque sei que isto terá um fim. Não sei é quando...

Essa é uma ideia que o persegue. Já me falou disso em tempos. Disse-me qualquer coisa como: “O sucesso é o tempo do intervalo.” É assim que pensa?
Dá-me a impressão de que estou em late check out. Que estou num quarto de um hotel maravilhoso, mas com a senhora da receção sempre a ligar-me e a dizer: “Olhe, está aqui mais gente para ocupar o quarto.” Tenho sempre a mala meio feita, porque a qualquer altura vem outra pessoa para aquele quarto e eu tenho de sair.

Isso pode ser esmagador.
E muitas vezes é. Valho-me de ter uma vida que considero normal. Próxima de família e amigos. Sou muito seletivo nos amigos. Sou muito fiel a quem é meu amigo, porque tudo o resto [que tenho] está sujeito a desmoronar-se...

Iniciou a sua formação no Chapitô, onde começou a desenvolver uma série de capacidades — chamo-lhe até de superpoderes —, porque, além de representar, cantar e tocar, sabe fazer ilusionismo. E o que mais sabe fazer de invulgar?
Sei lá. Pratico bem qualquer desporto. Estudava desporto antes de estudar teatro , fui federado em imensas modalidades... Lembro-me de acabar mais cedo de almoçar no Chapitô e de me pôr a dar toques numa bola de futebol enquanto fazia malabarismo e equilibrava um chapéu de coco no nariz. E para quê? Para nada.

Isso é ser um artista virtuoso...
É muito treino. Eu gostava de fazer coisas diferentes. O ilusionismo foi igual. Vi alguém fazer, sempre gostei e pensei: “Porque é que não hei de também saber fazer?” Um dia, se for preciso, ganharei um determinado papel por saber fazer magia. E isto já aconteceu. Ainda agora, [no filme] “O Pátio das Cantigas”, o Leonel Vieira lembrou-se de que era giro eu fazer coisas com o chapéu, e ficou parvo porque eu sei fazer uma série delas, como mandá-lo para o pé e daí para a cabeça... Gosto de ter essas skills [aptidões] na manga.

A propósito de versatilidade: gostava de tentar um papel sério num drama?
Sim. Tenho muita vontade. Eu bato na tecla de que não sou humorista, tenho formação de ator. Se represento um motorista ou uma velha, faço questão de ir aos pormenores todos. Se é uma senhora de idade, vou desde o pé à mão que treme, à voz que falha...

Diria que é um especialista a representar ‘velhinhas’...
Vivi muitos anos na Avenida da Igreja, em Lisboa, e quase todas as velhotas que represento foram tiradas de lá. Porque paravam ali a tomar chá ou o pequeno-almoço, e eu fiquei anos e anos a observar essas pessoas.

Já gravou os episódios todos do novo programa “D’Improviso”, com estreia marcada para dia 19 de novembro. Quem o surpreendeu mais no improviso?
Todos, de certa maneira. Mas diria a Manuela Moura Guedes. Ou a Clara de Sousa. Porque mostraram que são profissionais incríveis e pelo seu estilo de improvisação. Elas estão num “Jornal da Noite”, têm de dar notícias, e no teleponto surgem espaços sem palavras e elas têm de inventar uma palavra que caiba ali mantendo o ritmo. Claro que é impossível, e houve vezes que se desmancharam a rir. A Clara de Sousa chora a rir-se numa improvisação, de tão disparatada que foi.

A televisão pode triturar uma pessoa, mesmo sendo ela muito popular, se não houver uma gestão da carreira?
Pode e tritura. Não tenho dúvidas. Há muitas razões que nos obrigam por vezes a fazer determinados formatos. A televisão também vive de audiências, porque outros canais estão a fazer outras coisas que têm audiência. São obrigados a estar nesse despique. Costumo dizer que fazer televisão é como ir a um espetáculo de rock e não querer apanhar pó. É impossível. Sabemos que vamos apanhar pó e que temos de levar um casaco de guerra e que os sapatos vão estar encardidos... É assim. Vem de lá qualquer coisa que não é tão bom. Porque a televisão é uma massa gigante de pessoas de todo o país, e temos de agradar a todas.

Que marca no humor gostaria de deixar?
Há dois anos, quando fiz a peça “A Esperança”, muita gente dizia: “Eh pá, a peça está espetacular, vais ganhar um Globo de Ouro como melhor ator.” E eu sempre disse que é impossível, o único prémio que vou ganhar na vida é o de carreira. Só quando for velho, com 80 anos [risos].

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 18 de novembro de 2017

  • César Mourão: “Não me rio com quase nada”

    A César o que é de César, e ele tem um talento particular a fazer comédia sem rede e sem guião, a que nos faz rir do imprevisto. Por isso mesmo, prepara-se para estrear este domingo, dia 19, na SIC, o programa “D´Improviso”, onde desafiará figuras públicas a improvisar em situações inusitadas. Nesta conversa o ator, que tem andado pelos caminhos da comédia, revela que não é de riso fácil e sabe bem que o sucesso e a popularidade têm um prazo: “Isto não vai durar sempre. Tenho a impressão de que estou em late check out num quarto de hotel maravilhoso, com a senhora da receção sempre a ligar-me: ‘Olhe, está aqui mais gente para ocupar o quarto... Queremos limpá-lo.’ Por isso tenho sempre a mala meio feita.” César revela ainda o seu lado mais tímido e melancólico, a relação com a filha e alguns ‘superpoderes’ que fazem dele um artista virtuoso. Para ouvir neste episódio do podcast “A Beleza das Pequenas Coisas"