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O medo é o que nos torna animais

Mark Costley (Ben Chaplin) e Yvonne Carmichael (Emily Watson) são os amantes no centro de “Apple Tree Yard”

“Apple Tree Yard” apresenta a história de uma mulher cuja vida muda após uma violação. A minissérie britânica, com assinatura da BBC 
e criada a partir do best-seller literário de Louise Doughty, estreia-se hoje no SundanceTV

O seu nome é Yvonne Carmichael e a carreira de geneticista é uma parte importante da sua vida. No passado esteve ligada a uma grande descoberta no campo da genética, no entanto os últimos anos têm sido mais calmos. E essa calma, que muitos esperam alcançar, começa a tornar-se monotonia. O marido Gary apoia-a (embora tenha um relacionamento extraconjugal), a filha mais velha já casou (e está grávida) e o filho mais novo também parece viver um momento melhor (apesar dos períodos depressivos que atravessa) e isso parece não chegar para Yvonne.

Faltava-lhe algo e é em Mark Costley (Ben Chaplin) que encontra o que não procurou mas descobriu. Tudo começou numa manhã em que Yvonne (Emily Watson) apresentava um trabalho ao público em Londres, ainda longe de saber que o desconhecido que a havia de abordar se tornaria seu amante. Não se envolveram apenas uma vez e o desejo acaba por tomá-los, levando-os a encontros cada vez mais públicos. O segredo fazia parte do que os unia e a verdade é que Yvonne pouco sabia sobre Mark. Haverá de a descobrir mais tarde, com todas as consequências que isso poderá trazer para a sua vida, mas não é esse o ponto central em “Apple Tree Yard”.

No centro da trama está um outro episódio, que marcará para sempre a vida de Yvonne. No rescaldo de uma festa da empresa, a geneticista preparava-se para regressar a casa quando um colega lhe propõe que partilhem o táxi rumo a casa. Yvonne aceita, longe de imaginar que estava prestes a ser violada depois de chantageada. O agressor sabia da sua relação extraconjugal com Mark e decidiu usar isso em seu proveito. Não se cingiu àquela noite, cujo horror é mostrado na série com todos os pormenores, e decidiu começar a seguir todos os passos de Yvonne. Estava traçado o caminho rumo à paranoia, com os eventos a precipitarem-se pouco depois.

Nos últimos anos, foram várias as produções televisivas internacionais que abordaram a temática da violação — é até bastante explorada em séries de fantasia como “A Guerra dos Tronos” (SyFy) ou distópicas como “Westworld” (TVSéries) —, mas a adaptação do romance de Louise Doughty traz a dura realidade para o tempo presente. E nunca como agora parece tão importante falar das agressões sexuais. “Apple Tree Yard” chega a Portugal numa altura em que são conhecidos cada vez mais casos de assédio e violação (no Reino Unido estreou antes disso) e coube à atriz Emily Watson dar vida à mulher que viu a sua vida mudar da noite para o dia.

Assédio sexual, traição, coação, violação e stalking são os ingredientes da minissérie criada pela BBC, numa adaptação que contou com assinatura da argumentista Amanda Coe. Para a responsável por transpor a história de Yvonne Carmichael para a televisão, é importante colocar mulheres como esta protagonista no centro de novas ficções televisivas, pondo fim a uma tendência de ignorar parte da população e parte das narrativas da programação.

“Estamos muito familiarizados com histórias de polícias ou thrillers, ou mesmo com alguns romances mais negros, mas não estamos muito habituados a histórias contadas a partir de uma mulher de 50 anos”, defende, expressando que parte da força de “Apple Tree Yard” está nesta voz ainda invulgar em televisão. “Embora na história a sua sexualidade se torne problemática por causa do que acontece, o seu relacionamento com a sexualidade não é o problema.”

Amanda Coe teve liberdade criativa total para dar forma a “Apple Tree Yard”, com a autora do livro a mostrar-se confiante no trabalho da guionista desde o início. “Foi muito bom e libertador termo-nos reunido bastante cedo”, lembra Coe, frisando que “Louise foi muito clara desde o início, pois considerava que este era um processo muito diferente [da escrita literária], pelo que se afastaria dele, e confiou em mim”. “É bom quando sentes que não haverá qualquer tipo de conflito ou ansiedade.”

Do outro lado, Louise Doughty sentiu tudo de forma diferente. Aquando do lançamento da série em Inglaterra, a autora descreveu a experiência como “maravilhosa e surreal”. “Tal como já aconteceu com muitos outros romancistas, os meus livros já tinham sido selecionados [para adaptações] várias vezes, mas depois nada acontecia, pelo que a minha reação inicial foi sentir-me satisfeita, mas cética”, contou. “Foi maravilhoso quando isto aconteceu.”

Para a autora, que pela primeira vez vê uma criação sua ganhar uma versão televisiva, ver as personagens que imaginou ganharem vida é algo extraordinário e a experiência tornou-se ainda mais interessante à medida que se apercebeu de como tudo se assemelhava ao universo que tinha criado. “Emily Watson aproximou-se muito de como imaginei Yvonne” e as semelhanças vão até “características que não estavam descritas no livro”. “Eles entraram na minha cabeça”, conclui, divertida.

“Apple Tree Yard” tem estreia marcada para esta noite, pelas 22h30, no SundanceTV, canal integrado no grupo da AMC Networks International, que recentemente reforçou a aposta no mercado português. Segundo Manuel Balsera, da AMC Networks International Iberia, “o SundanceTV representa o ponto de encontro dos amantes do melhor cinema e de séries de qualidade” e “é dirigido a espectadores que procuram algo diferente”.

A minissérie da BBC, composta por quatro episódios, será exibida aos sábados e conta com alguns dos maiores nomes da televisão e cinema britânicos no elenco. A Emily Watson e Ben Chaplin, que protagonizam o drama, juntam-se Mark Bonnar, Susan Lynch, Olivia Vinall, Steven Elder, Jack Hamilton, Assad Zaman e Kezia Burrows nos principais papéis. A história construída por Amanda Coe — a partir do original de Louise Doughty, editado em Portugal pela Porto Editora com o título “Uma Escolha Imperfeita” — contou com realização de Jessica Hobbs nos quatro episódios. Em “Apple Tree Yard” nem tudo é o que parece e as palavras de Yvonne vão ficar guardadas na mente de todos. O que quererá dizer esta mulher quando murmura que “o medo é o que nos torna animais”? b